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O homem perfeito

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Para compensar o longo período de ausência, vou conceder aos meus três leitores uma dose de humor autodepreciativo e exposição excessiva. Vocês já estiveram naquela fase “vi tudo, fiz tudo, as pessoas me entediam”? Tenho vivido esse limbo nos últimos meses. Daí fiquei pensando no porquê de as pessoas em geral, e os possíveis pretendentes em especial, me entediarem tanto. Para ganhar minha admiração, alguém precisa colecionar uma série de qualidades, mas nenhuma delas deve ser extremada. Eu especifico melhor nas linhas a seguir Ser inteligente, mas não CDF. Consumir alta cultura, mas não ter nojinho de entrar em boteco. Ser asseado, mas não maníaco por limpeza. Ignorar a moda, mas não se vestir de forma vergonhosa. Ter uma personalidade interessante, mas não jogar joguinhos. Ter um lado espiritual desenvolvido, mas não ser carola. Ser zen, mas não bicho grilo. Ser paciente, mas não passivo. Ser bonito, mas não do tipo que para o trânsito. Ser cavalheiro, mas não a...

Exercício poético

Quanto medo sem motivo! Pois bem. A gente cria (n)esta nefasta fantasia, (n)este abrigo que diz: PERIGO! Você pode ser feliz. -- Vale a pena ler de novo o poema "Medo" , de Raymond Carver

Frase [VII]

Comer bem para comer bem.

Charming little places

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Desde ano passado Curitiba possui uma sede da Livraria Cultura (foto). Lembro-me bem do alvoroço entre os colegas de Letras na ocasião da inauguração. Felizmente, fica distante de casa e só passo ali esporadicamente. Felizmente, sim, porque a cada visita deixo lá uma pequena fortuna para os meus padrões de estudante (15% do meu orçamento mensal, tá bom pra vocês?). No último tour por aquelas bandas, passei uma hora e meia revirando prateleiras, lendo, decidindo o que deveria tirar da minha cestinha cheia. Eu não era a única. A livraria estava lotada, era até difícil encontrar um lugar para sentar, e olhe que são três andares! A loja deve ter um faturamento altíssimo, pensei. E então percebi que é uma grande besteira dizer que vender livros, CDs (!!) e vídeos não é um bom negócio e que nada vai para frente sem subsídio do governo. Basta olhar para este monumento capitalista que faz um enorme favor à cultura do país. Eles têm um dinossauro no centro da loja, quer algo mais represent...

Ah, a arte, essa subversiva...

Segue letra de uma música de que gosto muito e que acrescenta lenha às ideias que vim expondo nos últimos posts, em especial sobre busca de paz espiritual versus de amor . Recomendo a versão cantada por Mônica Salmaso. ** Tempo de amor (Samba do Veloso) Vinicius de Moraes Ah, bem melhor seria Poder viver em paz Sem ter que sofrer Sem ter que chorar Sem ter que querer Sem ter que se dar Mas tem que sofrer Mas tem que chorar Mas tem que querer Pra poder amar Ah, mundo enganador Paz não quer mais dizer amor Ah, não existe coisa mais triste que ter paz E se arrepender, e se conformar E se proteger de um amor a mais O tempo de amor É tempo de dor O tempo de paz Não faz nem desfaz Ah, que não seja meu O mundo onde o amor morreu

Sobre a solidão

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(Antes de tudo: eu já escrevi sobre esse tema aqui? Aposto que sim. Só espero não repetir argumentos. Se contrariar afirmações passadas, tanto melhor; significa que estou viva. Acho que quando a gente não se dá mais o direito de mudar de opinião, daí, meu caro, é velhice na certa, e do pior tipo: aquele que atinge todas as faixas etárias. Há quem seja acometido por esse mal aos vinte anos e atormenta as pessoas ao redor durante décadas infindas.) Fato um. Há algumas semanas, um menino me disse que a solidão era uma condição permanente e que não poderia ser remediada nem com a presença de outras pessoas. Tão pouca idade e já pessimista assim! Se bem que eu também pensava coisas desse tipo na adolescência, época tão radical. Se a vida adulta tem uma vantagem é a capacidade de olhar para as coisas com mais suavidade, sem fazer tempestade em copo d’água. Mas suprimi tal comentário para não aumentar o abismo entre nós. À toa: o abismo já estava estabelecido. Fato dois. Primavera nes...

Mc Donald’s faz parceria com bruxa da Branca de Neve

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Do início. Depois de ouvir boatos de que o Pikachu havia se esgotado em alguns Mc Donald’s, corri para buscar o meu. Aliás, ele é lindo. Só seria melhor se fosse em tamanho real, de pelúcia, falasse “Pikachu!” e eletrecultasse pessoas a um comando meu. Mas o amo do mesmo modo. Batizei-o Pikassu. Os puritanos talvez se escandalizem por eu mexer no nome original, mas confesso que não sou das fãs mais exemplares. Só vi a primeira temporada e talvez a segunda, não lembro, na Record (no programa da Eliana, para ser mais específica) e já me sentia velha demais, aos 12 anos. Fazia-o escondida, não comentava com ninguém na escola, embora desconfie de que muitos de meus colegas tinham o mesmo segredo. A puberdade é uma fase difícil, você tem que provar que não é mais criança, principalmente porque ainda é. Como não? Continua fazendo as mesmas coisas dos últimos anos – bater em meninos, desenhar nos cadernos, correr e pular por qualquer pretexto –, com a única diferença de usar sutiã e, ocasi...

Diálogos nerds [1]

Eu : Por que é tão difícil ver nerds gays? Será que a cultura nerd reprime a homossexualidade? Amigo nerd: Não. Nerds reprimem a sexualidade em geral. Quem precisa de sexo quando se tem uma conta no WOW?

I hate myself for loving you

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O título deste post foi tirado de uma música da Joan Jett (obrigada, Ni, pela indicação! Adoro vocalistas com cabelos bacanas!). Se tiverem a curiosidade de ver a letra , vão se deparar com uma bela declaração de amor a um filho da puta. Para resumir a ópera, ela diz: você me despreza, mas ainda estou aqui te querendo. Quem nunca insistiu em amar alguém mesmo sabendo que as chances de ser correspondido eram zero ou até menos? Aliás, começo a desconfiar de que as pessoas preferem amar sozinhas, como se a correspondência do ato implicasse desvalorização do sentimento. Parece-me que está em jogo o típico desejo de provar a própria importância, propor-se a conquistar algo que ninguém conseguiu, além de uma dose de impulso autodestrutivo. Esse é um lado da situação, bastante conhecido de nós, mas gostaria de enfocar também o outro, o do canalha. Você aí que sabe daquele cara ou daquela garota correndo atrás de você, coitados, e que não tem nenhuma intenção de corresponder, mas mesmo...

Agostiniana: começar do zero o tempo todo

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O que passou não existe mais, nem mesmo o minuto antes deste. Tudo morto, delegado a um lugar que não sabemos qual é, talvez até um não-lugar. O passado não é nada. Já foi um dia presente, mas, tendo-se tornado antigo, concretizando-se, acabou, torna-se irrecuperável. O mais próximo que se pode chegar dele é lembrando-se, mas a memória se dá no presente, não consegue resgatar o mesmo tempo que se foi, e mesmo a experiência rememorada não é igual à original, pois selecionamos fatos, resignificamos. Tudo morto, repito. Por que diabos, então, nos apegamos tanto ao ido? A resposta que me parece mais óbvia é que tratamos o passado como algo concreto, mesmo não sendo, porque é isso que nos dá substância, coerência quando nos perguntamos quem somos. Em geral respondemos: me nomeram X, nasci há n anos, vivi em tal lugar, estudei uma gama de temas, gastei horas ouvindo essa e aquela banda. Tudo coisas do passado. Mesmo o uso de verbos no presente, como "eu gosto disso", não par...