Charming little places
Desde ano passado Curitiba possui uma sede da Livraria Cultura (foto). Lembro-me bem do alvoroço entre os colegas de Letras na ocasião da inauguração. Felizmente, fica distante de casa e só passo ali esporadicamente. Felizmente, sim, porque a cada visita deixo lá uma pequena fortuna para os meus padrões de estudante (15% do meu orçamento mensal, tá bom pra vocês?).
No último tour por aquelas bandas, passei uma hora e meia revirando prateleiras, lendo, decidindo o que deveria tirar da minha cestinha cheia. Eu não era a única. A livraria estava lotada, era até difícil encontrar um lugar para sentar, e olhe que são três andares! A loja deve ter um faturamento altíssimo, pensei. E então percebi que é uma grande besteira dizer que vender livros, CDs (!!) e vídeos não é um bom negócio e que nada vai para frente sem subsídio do governo. Basta olhar para este monumento capitalista que faz um enorme favor à cultura do país. Eles têm um dinossauro no centro da loja, quer algo mais representativo da sociedade do espetáculo do que isso?
Ainda assim, muitas livrarias (não vou tratar das lojas de CDs e vídeos, porque, embora todos tenham sido bastante afetados, acho que os motivos são diversos) fecharam as portas nos últimos anos, principalmente as de rua. Falo do caso específico de Curitiba, mas imagino que seja um acontecimento de nível nacional. Por que tais falências se o público existe e está ávido por gastar?
A explicação que encontrei foi a seguinte. Compra-se livro em duas ocasiões: a) planejadamente: quando você precisa/quer ler um livro determinado ou b) impulsivamente: quando você entra numa livraria para matar tempo e acaba surpreendido por um título interessante. Parece-me que o primeiro tipo de aquisição é mais ou menos estável – talvez em breve seja afetado pelo e-book, mas não creio que a interferência seja tão expressiva ainda –, o que faz diferença na balança é o segundo.
Se você entra numa livraria sem pretensão de compra, é preciso um ambiente agradável, com bons títulos e preços acessíveis ou vantagens de pagamento para convencê-lo a por a mão no bolso. A Livraria Cultura destaca-se nisso tudo. Até agora nunca me decepcionou em questão de acervo. Por mais obscuro que fosse o livro, lá havia. Agora, se você vai a uma livraria e só se depara com best sellers na vitrine e nas estantes, além de um ambiente totalmente monótono e pouco acolhedor, deixa de frequentá-lo nesses passeios só “para olhar”. É o caso das Livrarias Curitiba. E a Saraiva, se não der mais atenção à seção de literatura adulta, pode chegar a esse nível em breve.
Caro empresário do ramo de livrarias, vai aí uma obviedade que você se recusa a admitir: seu negócio nunca vai atingir a massa, nem adianta tentar. O seu público é de classe média e alta, com nível de ensino superior e provavelmente trabalha num meio intelectualizado. Se você não quer perder essa audiência já tão reduzida, pelo amor de deus, compre livros consistentes e desafiadores, não só os que saem na lista da Veja. Pode ter esses, não precisamos ser radicais, mas os deixe lá no fundo, eles vendem por si só. Quem quiser comprá-los vai entrar e pedir o título específico a um atendente, você não vai perder esse filão. Na vitrine quero ver o que há de ponta no pensamento contemporâneo. Pode ser?
Agora, sendo realista, claro que para se ter uma loja no nível da Cultura é preciso começar de um capital inicial muito grande. Isto reduz o ramo livreiro a empresários multimilionários? Não, acredito que haja uma alternativa. E só agora chegamos ao título deste post: as pequenas livrarias charmosas são a solução para os empresários mais miúdos.
O modelo internacionalmente conhecido é a Shakespeare and Company (foto), em Paris. A original inaugurou em 1919 e fechou durante a ocupação alemã, mas essa segunda versão, já não tão pequena hoje em dia, preserva a ideia fundadora de promover um cantinho acolhedor a intelectuais. Não por acaso, o ambiente se tornou ponto de encontro de escritores como Ezra Pound, Ernest Hemingway e James Joyce na década de 1920.
A ideia é simples. Se você é empresário e tem pouca grana para começar, alugue um lugar pequeno numa área não tão nobre da cidade, mas próxima ao centro. Dado que, de início, você só terá condições para adquirir poucos volumes, escolha apenas títulos bons, respeitáveis, difíceis de encontrar. Aí você cria um diferencial. Já repararam que, em livrarias grandes, se tirar a parte de papelaria e de best sellers, só restam uma ou duas estantes de livros que você realmente poderia comprar? Pois é, se essa livraria diminuta puder sustentar cinco estantes inteiras de livros de qualidade de uma área do conhecimento, já terá vantagem sobre qualquer megastore. Se arranjar espaço para uma ou duas mesas e uma máquina de espresso, perfeito!
Aqui em Curitiba, há um exemplo desse tipo de negócio, a Joaquim (foto). A livraria fica numa rua repleta de sex shops, hoteizinhos vagabundos, botecos chineses e lojas de candomblé. Desde que fiz esse feliz achado, nunca mais hesitei andar por aquela ruela. É muito mágico se deparar com uma livraria bem onde não se espera! Aí você entra naquela lojinha adorável e, se o seu negócio é ciências humanas, com foco em literatura e história, ali estará bem servido. Schwarz, Auerbach, Compagnon, Bakhtin e cia. Sem gordura, isto é, sem estantes de lixo só para fazer volume.
Seria ótimo se houvesse mais exemplos assim. Por morar em uma capital, não tenho muito do que reclamar, a minha sugestão é principalmente para as cidades menores. Na época em que eu morava no interior, vivenciei o boom de sebos no finalzinho da década de 1990. Foi ótimo, supria a minha necessidade de ter uma experiência livreira desvinculada de shoppings. No entanto, a cada vez que retorno para a cidade natal, deparo-me com mais uma falência. Muito triste. Está na hora de se pensar nesses “charming little places” para combater a supremacia das megastores enganosas – essas grandalhonas que pouco ou nada ofertam de boa literatura.
Muita gente sonha abrir um bar temático. Eu seria perfeitamente realizada se conseguisse tocar uma dessas livrariazinhas lá pelas bandas do interior. Tenho certeza de que contribuiria para o encontro de talentos literários. O lema seria: dê café e clássicos a jovens escritores que eles nos devolvem em pérolas.
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Serviço:
Joaquim Livraria & Sebo
Rua Alfredo Bufren, 51, Centro
Curitiba - Paraná – Brasil
http://joaquimlivraria.wordpress.com/
Eu diria para os empresários miúdos: invistam em outra coisa. A taxa de sucesso de novas lojas de venda de livros deve ser tão alta quanto a de novas lojas de mariolas
ResponderExcluirPara que tanto pessimismo? Ainda hei de abrir a tal livraria charmosa. Só não se deve esperar lucros estupendos do dia para a noite. Normal em praticamente qualquer negócio nos primeiros meses.
ExcluirAcho que vc anda com uma visão muito romântica da vida.
Excluir"Um pouco de romantismo não faz mal a ninguém", pensou Madame Bovary antes de se entupir de livros e de veneno.
ResponderExcluirMal não faz, mas que dá um prejuízo, dá.
ExcluirVocê aceita uma sócia? Vamos ser pobres, mas felizes!
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