Sobre a solidão



(Antes de tudo: eu já escrevi sobre esse tema aqui? Aposto que sim. Só espero não repetir argumentos. Se contrariar afirmações passadas, tanto melhor; significa que estou viva. Acho que quando a gente não se dá mais o direito de mudar de opinião, daí, meu caro, é velhice na certa, e do pior tipo: aquele que atinge todas as faixas etárias. Há quem seja acometido por esse mal aos vinte anos e atormenta as pessoas ao redor durante décadas infindas.)

Fato um. Há algumas semanas, um menino me disse que a solidão era uma condição permanente e que não poderia ser remediada nem com a presença de outras pessoas. Tão pouca idade e já pessimista assim! Se bem que eu também pensava coisas desse tipo na adolescência, época tão radical. Se a vida adulta tem uma vantagem é a capacidade de olhar para as coisas com mais suavidade, sem fazer tempestade em copo d’água. Mas suprimi tal comentário para não aumentar o abismo entre nós. À toa: o abismo já estava estabelecido.

Fato dois. Primavera nesta região tende a ser chuvosa. Ainda assim, fazer 13 graus e chuva em pleno feriado estendido provoca uma revolta muito grande! Para que feriado se vai fazer esse tempo? Se estivéssemos trabalhando, pelo menos haveria um motivo para o mau humor. Agora, em dia livre, é como se a irritação fosse culpa nossa tão somente.

Há salvação para dias de chuva se você: 1) tiver um namorado do tipo caseiro; 2) estiver no meio de um livro/seriado longo e super viciante; 3) possuir um videogame e jogos novos; 4) precisar pôr o sono em dia. O duro é quando você dormiu doze horas, viu TV, leu, cozinhou, ouviu música, arrumou a casa, ligou para amigos, resgatou um projeto de desenho encalhado, foi ao mercado e ainda são quatro horas da tarde! Daí a solidão vem terrível, mesmo que você esteja numa ótima fase da sua vida de solteira.

Depois de entrar em contato com todos os amigos disponíveis, a gente ainda se sente sozinha e passa a se torturar com aquela ideia infernal: preciso arrumar alguém!

O que é esse “alguém”? Eu defino como a pessoa que vai te fazer companhia nos feriados e finais de semana chuvosos. Qualquer um serve, por isso esse alguém tão genérico e sem rosto. Mas aí, nos sábados de sol e nas semanas atoladas de trabalho, o que você faz com ele? Enfia num armário e diz “volto já”?

Esse pensamento dialético (haha) aponta a solução para o problema, pois nos faz perceber que se trata de um desespero pontual e que, nesse caso, a presença do outro não vai aplacar a solidão de qualquer forma. Nesse ponto, o menino estava certo. Pense consigo: no geral, você está ótimo sozinho, não se sente solitário nem à noite. Então, para que se meter numa coisa complicada só por causa de um dia de frio e chuva?

Agora, que deveria haver um serviço de namorado de aluguel para esses dias, isso deveria!

Fato três. Há fases da sua vida em que você quer dar uma reviravolta, daí se matricula em cursos, sai do emprego, começa a frequentar lugares diferentes. Outras vezes você simplesmente está ok e não tem a intenção de mudar nada. Essa segunda fase é a mais interessante, porque é nela que as coisas realmente acontecem. É nela que você conhece a pessoa que se tornará uma de suas melhores amigas ou o amor da sua vida.

Tomemos o primeiro caso para não passar a falsa ideia de que acreditamos que a solidão seja sinônimo de não estar em um relacionamento amoroso.

Já aconteceu com vocês de conhecer alguém e a conversa simplesmente engatar de primeira? Você interage com aquele semidesconhecido de modo tão intenso que não vê mais ninguém ao redor e volta para casa sorridente, com a sensação de que foi um excelente dia. Isso já aconteceu comigo em relação a homens e mulheres sem resultar em paixão, ou seja, uma espécie de amizade à primeira vista. E é maravilhoso! Você se sente tão bem localizado no mundo que nem se importa se está acima do peso, se não tem namorado ou um emprego bacana.

Eu costumo chamar esse tipo de relação de conexão. Parece bizarro, mas há pessoas com quem convivemos há anos, de quem somos camaradas, mas mesmo assim não atingimos a tal conexão com elas. Cuidado para não desposar alguém com quem você não se conectou só por medo de estar chegando aos trinta anos! Uma armadilha muito comum, que depois resulta em adultério e/ou divórcio.

A conexão não acontece com frequência, infelizmente. Mas, quando ocorre você a detecta na hora. Pode-se percebê-la não só pela “conversa fácil”, como também pela sensação de liberdade. Você pode ser você mesmo, sem temer que o outro se aproveite disso maleficamente. Nesse momento, você age exatamente igual a quando está sozinho, acaba-se a ambiguidade e a fragmentação do ser – você se reencontra uno. E tudo isso só é possível graças ao outro. Nessa hora a solidão está suspensa, ainda que temporariamente.

Voltando aos dias de chuva. O que fazer? Você pode se agarrar no telefone ou correr para a balada mais próxima, mas isso não é garantia se sentir menos solitário. O buraco é mais embaixo, como costumo dizer.

Discordo daquele menino que afirmou ser impossível não estar só. Por outro lado, reconheço a dificuldade de se anular a solidão. Algum dia, não sei quando, certas pessoas, que também desconhecemos, vão nos propiciar uma conexão e a sensação de que não estamos só no mundo. Mas não há nada que possamos fazer voluntariamente, no máximo, ficar abertos e atentos para as pessoas ao redor. Não sei se consola, mas no geral é uma ideia otimista.

Comentários

  1. O problema todo é Curitiba, que é uma cidade deprimente!

    Amey o texto ;) Nossa amizade foi super à primeira vista!

    bjoo
    Ana

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  2. O menino é que estava certo, somos todos solitários juntos. As conexões que fazemos são sempre passageiras. Sempre. Se ainda não acabou, um dia vai acabar, e esse dia não se demora. Portanto, o estado natural é estar só. De vez em quando, temos um alívio apenas.

    E pior do que estar só com tempo livre é estar só sem tempo nenhum.

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  3. Lembrei de Úrsula Iguarán, Cem Anos de Solidão. Confesso que senti agora um aperto grande no coração.
    Caberia uma trilha sonora - Paulinho da Viola:
    "Solidão é lava que cobre tudo, amargura em minha boca, sorri seus dentes de chumbo. Solidão palavra cavada no coração, resignado e mudo, no compasso da desilusão."
    .SP.

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