Sobre o vegetarianismo

Sempre tive certo preconceito contra vegetarianos. Algo moderado, quase latente, dado que minhas amigas adeptas não são do tipo mala e nunca me chatearam com pregação. A minha cisma vem de acreditar que há um milhão de causas mais nobres de militância: contra as guerras, contra os governos déspotas, contra o capitalismo selvagem, contra a intolerância religiosa, contra o abuso sexual etc. No cardápio de desgraças que a atualidade nos oferece, lutar pelos direitos dos animais me parece algo vago e utópico demais.

Domesticamos os animais há milhares de anos com uma finalidade única: para nos servir. Simples assim. Vacas dão leite, couro, chifres, mocotó, carne. Ovelhas, lã e carne. Avestruz, couro, penas, carne. Cães e gatos, companhia, afeto (tendemos a acreditar nisso) e, em alguns países, carne. Sobrevivemos graças a eles. Talvez essa fonte de proteína não seja mais essencial como um dia já foi, mas se ela está aí e é culturalmente aceita, então por que não? Um bife ainda é melhor, do ponto de vista nutricional, do que alguma porcaria industrializada.

Alô, militante, uma pequena provocação. Se você insiste em tratar o seu bichinho como humano e lhe garantir os mesmos direitos que nós temos, que tal começar pelo mais básico – a liberdade? Abra a porta do quintal e deixe seu cão escolher aonde quer ir, com que bicho quer cruzar, o que quer comer e assim por diante.

Só não me interpretem como inimiga dos animais. Não acho que maus tratos sejam toleráveis sob qualquer hipótese. Uma coisa é matar de modo rápido para se alimentar, outra é torturar e descartar. Nada de chutar cães de rua, escaldar gatos, manter pássaros em gaiolas, confinar gado, tirar a pele de bichos vivos, praticar zoofilia etc. Uma vez que domesticamos algumas espécies e lhes tiramos as condições de sobrevivência no habitat natural, temos o dever de lhes garantir boas condições de vida.

Agora vem a aparente incoerência deste texto. Nos últimos meses, tenho considerado aderir ao vegetarianismo. Não por achar que isso vá salvar os bichinhos – do mesmo modo que o fato de eu não comer carne humana também não impede que pessoas no mundo todo sofram pelas mais diversas razões. Todo mundo sofre, merecendo ou não. O grande mistério da vida não é evitar isso, mas aceitar o que nos é dado. Sejamos mais realistas, ingenuidade não salva ninguém.

A minha inclinação recente ao vegetarianismo tem uma motivação meio selvagem. Arcaica, eu diria. Acredito que para se apropriar da força de outro ser, por meio de sua carne, é preciso fazer por merecê-la. Isso significa confrontá-lo, encará-lo nos olhos e matá-lo usando suas próprias mãos. Parece-me covardia obter o benefício e delegar o trabalho sujo a outrem. É o que dizem: não coma nada que você não tenha coragem de matar. Eu até já pesquei algumas vezes e me diverti muito no processo, mas nunca consegui tirar o bichinho do anzol enquanto ele se debatia, empurrava a tarefa para meu pai. Sendo assim, que honra eu tenho quando me delicio de um belo sashimi? Nenhuma.

Um amigo contra-argumentou que minha ideia é inviável. Da mesma forma que não costuramos nossas roupas, não construímos nossas casas e não plantamos nossos cereais, também não caçaríamos nossa carne. A especialização da mão de obra é uma das engrenagens essenciais ao capitalismo, importante para se produzir em larga escala. Está certo o que ele disse, não há o que refutar. Faço então uma emenda à minha proposta.

Ainda que não incorporemos a caça e a pesca à nossa rotina, poderíamos estabelecer ritos de passagem. Algo assim. Em algum momento de nossa vida, pegaríamos uma lança ou uma espingarda ou uma vara, abateríamos um bicho, arrancaríamos seu couro e suas tripas, nos sujaríamos com o seu sangue, temperaríamos a carne e a comeríamos logo em seguida, com a imagem da morte ainda bem viva na lembrança. Isso seria a exposição nua e crua do que realmente significa comer carne. Se isso não revirar seu estômago, passou no teste, você merece mesmo comê-la. Agora, se isso o enoja, o vegetarianismo não seria uma alternativa tão ruim no fim das contas.

Toda a maluquice que acabei de apresentar decorre da constatação de que muitas vezes praticamos o mal porque ele se apresenta para nós em sua versão higiênica. É só uma filé suculento. É só um tapete bordado por crianças ignorantes. É só uma vagabunda sem moral. Etc. etc. Sobre esse tema, sugiro a leitura do romance “O assassino cego”, da escritora canadense Margaret Atwood, vencedora do Book Prize 2000.

Comentários

  1. Sou vegetariana desde sempre e vou ter que rebater alguns pontos levantados por você, é mais forte do que eu. Mas espero que não veja isso como "afronta" ou "briga" =)


    "A minha cisma vem de acreditar que há um milhão de causas mais nobres de militância"

    Esse é um argumento bem comum de quem normalmente não milita por nada (não sei se é o seu caso). Sempre vai haver uma causa mais importante. Você está se preocupada com corrupção no governo enquanto mulheres morrem em tentativas de aborto ilegal? Você está preocupada com uma guerra longe do Brasil, enquanto no nosso país tem gente que não tem água limpa para beber? Você está preocupada com abusos sexuais enquanto que na África crianças morrem de fome.

    E por aí vai. É uma forma de procrastinação em não tomar partido em uma causa porque você não consegue resolver TODOS OS PROBLEMAS DO MUNDO de uma vez. Então eu escolho uma causa pra lutar e luto por ela e você escolhe outra causa e assim garantimos que estamos lidando com ambas ao mesmo tempo.


    "Talvez essa fonte de proteína não seja mais essencial como um dia já foi, mas se ela está aí e é culturalmente aceita, então por que não? "

    Ué, se usassemos esse raciocínio de "é assim, sempre foi assim, vai continuar sendo assim" absolutamente nada no mundo teria mudado. Afinal, o mundo "sempre" teve guerras, governos déspotas, intolerância religiosa, abuso sexual, escravidão formal etc.

    Se todo mundo pensasse que tradição deve ser mantida sempre, mulheres não teriam o direito de votar, de possuir propriedade, de trabalhar, de se divorciar de um marido violento.

    E vale a máxima "tradição: não é porque você faz isso há anos que significa que não é uma coisa idiota".

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  2. "Alô, militante, uma pequena provocação. Se você insiste em tratar o seu bichinho como humano e lhe garantir os mesmos direitos que nós temos, que tal começar pelo mais básico – a liberdade? "

    Aí eu acho que você deu uma confundida com vegetarianos e os protetores de animais domésticos - que não era o assunto do post. Você pode ter outros motivos para ser vegetariano que não sejam exclusivamente por dó dos animais.

    E se você um dia entrar na comunidade de vegetarianos, vai perceber que há inclusive uma certa animosidade de vegetarianos com protetores de animais domésticos. O que vegetarianos alegam: a pessoa salva cães e gatos (o que é bom!), mas continua sustentando uma indústria que mata milhões de animais. Quer dizer, para esses protetores há mais valor em um cachorro do que em um porco. Eles ficam com peninha dos animais que vêem nas ruas de sua cidades, mas não estão dispostos a cortar um dos seus privilégios por animais que ficam lá bem longe dos olhos deles.

    E, de qualquer forma, eu por mim nunca mais teria um animal de estimação na vida. Mas lembre-se que um direito mais importante que a liberdade é o direito a vida!


    " Uma coisa é matar de modo rápido para se alimentar, outra é torturar e descartar."

    Com certeza, o problema é que para levarem milhões de kg de carne a mesa de pessoas, não há tempo para levar os bichos até uma caminha confortável, onde seria aplicado uma anestesia, e só após o bicho estar completamente morto é que se começaria a retirar sangue, carne, pele, osso e tal.

    E além da hora da morte, vale lembrar que esses animais não ficam espalhados pelo campo onde eles tem uma vida feliz até a hora da morte. Eles são criados no menor espaço possível ($) e com hormonios para crescerem mais rápido ($). Algumas aves precisam ter seus bicos lixados para não se matarem (umas as outras).

    Enfim, se você quer ter uma noção de como esses animais são tratados é só assistir um desses inúmeros documentários que existem por aí. (Exemplo: A Carne é Fraca)

    E a relação mais importante é: criadouros e abatedouros existem pela lei da oferta e da procura. Enquanto você consumir carne, alguém vai produzir essa carne em troca do seu dinheiro. Por que não há um criadouro/abatedouro, por exemplo, de estrelas-do-mar? Porque não tem gente disposta a pagar pra comer estrelas-do-mar.

    "Não por achar que isso vá salvar os bichinhos – do mesmo modo que o fato de eu não comer carne humana também não impede que pessoas no mundo todo sofram pelas mais diversas razões. "

    Essa comparação é absurdamente ilógica. Se humanos fossem criados e abatidos em troca do seu dinheiro, você ajudaria a diminuir essa indústria se negando a gerar demanda por carne humana.

    Fora que é o mesmo raciocínio do primeiro ponto: já que eu não conseguiria salvar TODA A HUMANIDADE de sofrimento, não faz a menor diferença eu não criar humanos para matá-los de forma cruel em troca de dinheiro.

    Esses foram meus pontos contrários. Como falei, espero que não me ache uma chata por debatê-los contigo =)

    "Toda a maluquice que acabei de apresentar decorre da constatação de que muitas vezes praticamos o mal porque ele se apresenta para nós em sua versão higiênica. É só uma filé suculento. É só um tapete bordado por crianças ignorantes. É só uma vagabunda sem moral. "

    E isso é uma grande verdade!

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  3. Olá, Jac, obrigada pelos comentários. Não me incomodo com a divergência de opiniões. Caso contrário, colocaria filtro nos comentários ou simplesmente os eliminaria. No fundo, acho que o ponto alto para todo blogueiro é uma boa polêmica.
    Algo que me desperta curiosidade: por que vegetarianos, independente dos motivos que os levam a abdicar da proteína animal, são tão militantes? Se os adeptos do ideal no qual acredito fossem assim tão dispostos, talvez a Igreja Católica não estaria decadente desse jeito, ou pelo contrário, talvez teria uma fama ainda pior nos tempos atuais. Rs.
    Na verdade eu não quis condenar o vegetarianismo, acho uma escolha digna tanto quanto a de comer carne, só quis explorar um motivo menos ortodoxo para adotá-lo, totalmente oposto da defesa dos animais, que, como já disse, considero meio bobo.
    Eu passei parte de minha infância em sítio, logo, já presenciei abate de francos e porcos. Não é algo lindo de se ver, mas tem lá sua dignidade quando a gente pensa que faz parte do ciclo da vida. Nesse tipo de criação familiar, o animal cresce, se reproduz e vai ter uma função digna antes de apodrecer sob a terra, a de alimentar outro ser vivo. Nós, mais tristes, muitas vezes nos vamos sem ter feito nada que preste por aqui.

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  4. Se vc quiser um rito de passagem, então obriga todo mundo a trabalhar em açougue ou abatedouro. Mais prático que sair com uma espingarda ou lança. Imagina o povo em Sampa, caçando no Ibirapuera, hahaha.

    Pra mim, quem não come carne não merece respeito.

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  5. Que bom que levou o comentário na boa =)

    "Algo que me desperta curiosidade: por que vegetarianos, independente dos motivos que os levam a abdicar da proteína animal, são tão militantes?"

    No meu caso, não sou "militante" de fato, mas como citei, nunca comi carne na minha vida. E eu tenho propriedade para dizer que a sociedade não trata bem vegetarianos. Já tive que ouvir discurso da minha professora de 2ª série que decidiu discutir comigo porque eu era vegetariana.

    Toda vez que eu almoço fora de casa é um problema - restaurantes não-vegetarianos estão pouco se lixando para a gente. Acham que só porque tem salada já é o suficiente (sendo que eu não como salada). Já fui em um restaurante em que eu só comi purê de batata (e paguei caro pq purê pesa). E eu constantemente preciso perguntar se há um salgado sem carne e normalmente recebo de resposta "tem esse de presunto", "tem esse frango", "tem esse calabresa" e sei lá mais o que.

    E toda vez que eu falo que sou vegetariana, alguém tem alguma coisa para me falar. Ou é me informando sobre como eu devia me alimentar. Ou é fazendo inúmeras piadinhas ("quer coca-cola? não tem carne rsrsrs"). Ou a pessoa começa a relatar a vida alimentar dela ("Eu tentei uma vez ser vegetariana, mas nao consegui pq eu adoro um franguinho - mas nao sou chegada em carne vermelha blablablalabla")- pela qual eu nunca tenho menor interesse. Ou eu preciso contar pela milésima vez sobre minha vida alimentar.

    E se você ainda tem dúvidas porque eu preciso me fazer ser ouvida, é só ler o comentário do babaca aí em cima: "Pra mim, quem não come carne não merece respeito."

    Quanto ao motivo pelo qual ninguém é mais adepto do ideal da Igreja catolica como antigamente, eu diria que é porque não tem sentido. Catolicos tem todos os privilégios no Brasil que podem ter. São o status quo. E participar de uma pastoral até faz a diferença na sociedade, mas rezar não serve pra nada. Eu sou atéia e não tenho como esconder minha descrença nessas instituições religiosas que sobrevivem graças a crendices.


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    1. Jac, acho que seu último comentário foi totalmente intolerante, infantil e desnecessário. Conseguiu ofender inclusive a mim, que me abri para um debate franco.

      Quanto ao ateísmo, ele é tanto uma crença quanto o cristianismo. Da mesma forma que eu não consigo provar que Deus existe, você também não consegue provar que ele não existe. Vc deveria aceitar a divergência de opiniões como algo natural, e não discursar como se a sua perspectiva fosse a certa e todas as demais erradas.

      Quanto ao Andarilho, me parece mais do que óbvio que ele estava fazendo uma brincadeira. Se vc levou a sério, precisa rever o seu senso de humor, o que, aliás, seria muito útil para vc aprender a lidar com as diferenças de personalidades e estilos de vida.

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    2. Interessante que as pessoas esperam respeito, mas não respeitam as outras.

      Jac, babaca é quem não come carne mesmo. Boba. Fedorenta. (Insira outro xingamento infantil aqui a seu bel prazer).

      Hahaha

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  6. http://www.youtube.com/watch?v=wvJbhFYNfKU

    foi só oq eu consegui pensar qdo vc disse que o assunto seria polêmico, aushahsuahsu

    bjodaanaaa ;*

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