Complete o texto

Na segunda série do Ensino Fundamental, tínhamos um caderno só para redação. Era bacana, ele era grande, com uma página de 30 linhas, o tamanho ideal para um bom texto, e, ao lado, havia outra em branco para a gente desenhar. A professora nos pedia diversos gêneros textuais (exceto poesia; difícil demais para a cabeça dos pequenos), mas o desenho nunca era obrigatório, uma pena. Às vezes, líamos um livro e precisávamos resumi-lo, outras, era dado só o tema, como "minhas férias", e havia também o famigerado "complete o texto".

Eu odiava, porque, por mais que eu tenha sempre sofrido para introduzir uma ideia por escrito, o início é a parte mais (masoquistamente) deliciosa de se fazer. Será ela que dará o tom ao resto da produção. É uma responsabilidade e tanto. Oras, como julgar um escritor que já começa lá do meio? Não há jeito de ele ser bom. A professora desse jeito nos condenava à mediocridade. (Condenar os outros é sempre mais fácil, diz minha consciência.)

Lembro que as minhas redações desse tipo nunca tinham coerência. Eu me sentia mal de assumir como meu um começo que eu não escrevera. Daí eu simplesmente o ignorava e começava uma história nova. Exemplo de algo que eu poderia ter feito no longínquo ano de 1996:

ERA O ANIVERSÁRIO DE FLÁVIA. A MENINA SAIU DA CAMA COM UM PULO E CORREU PARA O QUARTO DE SEUS PAIS. ELA DISSE:

- ONDE ESTÁ O MEU PRESENTE?

(complete o texto)

Tinha alienígenas por todos os lados. A Terra foi invadida bem no dia do aniversário de Flávia. Os pais dela estavam mortos, e os vermes já tinha devorado metade do corpo deles. Essa menina não tem sorte mesmo!

(FIM)

Para completar o círculo de horrores do "complete o texto", nós ainda tínhamos que pensar no título! Desculpem a metáfora, mas fazer título é que nem cagar. Há pessoas que o fazem tranquilamente, com hora marcada, sem sofrimento. Outras atendem a essa necessidade fisiológica com extrema dor. Não raras vezes, eu sou uma escritora de intestino preso. Se a coisa em si já é complicada, agora, dar um título a um texto cuja parte principal nem é sua é um incentivo ao plágio! Você se sentiria bem assinando a Monalisa? Ok, eu me sentiria. Mas se tivesse que assinar um daqueles quadros de flores produzidos por tiazonas aposentadas na aula de pintura básica? Grande constrangimento!

Mas vamos lá, tem que fazer, façamos. Em 1996, eu acreditava que estava na moda fazer títulos sucintos, de preferência um artigo, um substantivo e um adjetivo, nessa ordem.

Duas horas depois, eu estava deitada no tapete com vontade de morrer, babando sobre o precioso caderno de redação. Minha mãe passava, olhava torto e ordenava que eu levantasse dali e me comportasse feito uma menina "direita". Ela estava certa, não podia gastar minha vida com aquele título! O que viesse na cabeça eu colocaria. A caneta, para não me arrepender (na época, eu ainda não conhecia errorex).

A CIDADE INVADIDA.

Pronto, genial. Eu poderia, então, ver desenho se a TV Colosso ainda não tivesse acabado. Às 13h15, começava minha aula. Os professores culpam seus alunos adolescentes de sempre procrastinarem o trabalho. As crianças, por mais fofinhas que pareçam, não são inocentes nesse crime.

Aos 7 anos, era um conforto pensar que alguns problemas acabariam junto com a escola. Errado. A tendência é se agravarem. Quando a gente descobre isso, desbiroca de vez.

Comentários

  1. Problemas só aumentam. Life sucks, fazer o que?

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  2. entrei achando q ia ter um texto pra completar
    vencer

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  3. Na sexta série, tinha um menino que escrevia todas as redações com os mesmos personagens.

    Era ótimo! Eu adorava!

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  4. eca
    completar texto, começar do zero, inventar titulo
    pra mim é tudo igual
    escrever sux bigtime

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