Nomes de filhos hipotéticos



(Não pude evitar a comparação - triste.)

Nesse final de semana finalmente comprei um notebook novo. Não que o antigo estivesse tão ruim assim. Ele tinha seis anos de uso, um processador Celeron cheio das vontades, um 1Gb de espaço livre no HD e 256Mb de memória RAM, mas como eu só usava Word, Paciência Spider, Windows Live Messenger e Google Chrome, dava conta do recado. Tive que o trocar, porque preciso de mais espaço e memória, já que no próximo mês estarei diagramando uma revista para o meu trabalho de conclusão de curso. Bem, espero que haja uma revista para ser diagramada – nem comecei a fazê-la ainda –, mas isso já é outra história.

O fato é que, não houvesse essa revista na minha vida, ainda estaria com o velho companheiro Glorfindel. Esse era o nome do meu notebook antigo. Comprei-o em 2003, quando “Senhor dos Anéis” e as demais obras do Tolkien, principalmente “Silmarillion”, eram o que havia de melhor na minha vidinha adolescente. Bom ano aquele, quando havia tempo demais para fazer qualquer coisa. Pena que, quando se é adolescente, nunca passa pela cabeça que esse tempo deve ser bem aproveitado. O futuro só os adultos sabem como é: todo dia atolado em atividades pouco prazerosas e, se não a realizarmos, tornamo-nos vagabundos que não vivem às custas dos pais.

De qualquer forma, passar tardes inteiras ouvindo Bach e Sarah Brightman foi uma época que de alguma forma deixa saudades. Ah, sim, e também havia o motivo que ajudou a convencer meu pai a me dar o computador de aniversário – afinal, é um presente beeem caro, totalmente fora dos nossos padrões –: eu estava escrevendo um livro. O argumento era que eu precisava de uma ferramenta de trabalho.

No fim, o livro não saiu. A cada mês que passava, eu ficava um pouco mais madura e via que, embora minha escrita melhorava, eu sempre estava bem abaixo dos grandes escritores. Há tantos livros no mundo, se for para escrever um mediano, melhor nem fazê-lo. Aos 16 anos percebi isso, deixei meu projeto de lado e decidi estudar com afinco para o vestibular. Assim, eu faria uma graduação, teria um emprego convencional e deixava esse negócio de ser artista de lado. Não tenho afinidade com a boemia mesmo, acho que nunca daria certo.

Apesar disso, Glorfindel continuou sempre ao meu lado. Eu passava as madrugadas com ele, digitando meu finado livro ou simplesmente aprofundando amizades pelo ICQ. Esta foi uma maravilhosa descoberta na internet: a facilidade em se criar intimidade com pessoas que eu encontrava com frequência, mas com as quais nunca conseguia estabelecer uma conversa franca (sim, sou tímida). Ah, também criei um blog na época – meu primeiro – em que eu contava histórias sobre elfos ébrios e gays. E de alguma forma eu mesma acreditava nelas. Eu não as criava, elas existiam desde sempre e se desenrolavam diante de meus olhos. Eu só tinha o trabalho de descrever o que havia presenciado.

Sinto falta de Glorfindel, bom elfo e bom computador. Atualmente lhe falta uma tecla (o M quebrou) e outras, como o E, emperram de vez em quando. Mas a sua cor cinza opaca se mantém bonita como no dia em que eu fui buscá-lo na loja. Fora a indicação das letras nas teclas, agredidas diariamente pelos meus dedos furiosos e lambuzados de comida, nada desbotou. Odeio esses computadores atuais com cores metálicas que em menos de um ano estão riscados e descoloridos. O computador que uso agora é assim. Vamos ver quanto tempo vai levar para eu começar a reclamar dele. Mas não importa, vai ter que durar pelo menos mais seis anos também.

A propósito, este computador ainda é um estranho para mim. Eu venho o tratando simplesmente como “o computador novo”. Mas, há pouco, me ocorreu que deixei o bichinho sem nome. Algo que estará tão presente nos meus feitos mais importantes – escrever, óbvio: é esse meu trabalho – não pode ser mero instrumento. Está na hora de criarmos um vínculo.

O batizado ocorreu nesta manhã. Enquanto eu tomava café, ruminava nomes. Primeiro me ocorreram nomenclaturas élficas, mas logo vi que essas não funcionam mais. Embora eu mantenha meu pseudônimo Sularien (por hábito e por um vago apego ao passado), essa não é mais a essência de meu modo de vida atual.

Pensei depois em Rhett, o personagem principal do meu filme favorito, mas também não daria certo. Esse nome remete a um homem sensual, com o peito forte e moreno como o de um pirata e, na cara, estampado o sorriso de um cafajeste. Tenho para mim que um computador é mais um amigo gay do que um amante fogoso, por isso descartei o Rhett e qualquer outro nome que me lembrasse Johnny Depp. Então, vieram-me à mente nomes de escritores que eu admirava. Péssima ideia, pois eu conviveria com a vergonha de ser uma medíocre. O resultado a que cheguei foi um meio termo: Antônio Cândido. Havia um Antônio Cândido entre os intelectuais brasileiros, mas como nunca li nada escrito por ele (não me orgulho disso), o nome não me remete a tal figura e não aviva meu complexo de inferioridade.

Sempre quis ter uns quatro ou cinco filhos, por isso, há alguns anos venho pensando nos nomes deles. (Ora, nome é coisa séria, a pessoa depois o carregará pela vida toda, não pode ser dado ao léu.) Havia escolhido que Antônio Cândido seria o meu segundo filho homem. Embora não goste de nomes duplos, acho esse bastante harmonioso. Combina um nome forte com outro mais delicado, sugerindo uma personalidade complexa – nem uma coisa nem outra, as duas ao mesmo tempo. Gosto em especial do segundo nome, por causa do romance de Voltaire. Nessa obra, o dr. Pangloss é a figura mais interessante, claro, mas Cândido em sua ingenuidade burra tem algo de muito comovente. Fora isso, adoro o apelido Tonico. Passei horas imaginando como seria chamar “Toniiiico, larga esse livro e vem almoçar, moleque!”. Sim, porque Tonico seria muito nerd, como todos os meus outros filhos.

Hoje penso diferente. Enfim compreendi que os pais não conseguem pré-definir a personalidade dos filhos (e nem têm esse direito). Depois tive a decepção de que meu namorado acha o nome Antônio Cândido muito feio. Por fim, decidi há alguns meses que não terei nenhum filho. Como também acho de péssimo gosto nomear animais como gente, não teria uma pessoa a quem dar esse nome.

A decisão de não deixar o legado de minha miséria foi bastante racional. Meu futuro salário não conseguiria alimentar tantas bocas e, trabalhando feito uma louca, não conseguiria criá-los direito. É horrível quando crianças gostam mais da babá ou da avó do que dos próprios pais – e isso tem acontecido aos montes. Mulheres, uma coisa é fato: é impossível ser sexy, inteligente, ter uma carreira de sucesso e ser mãe, tudo ao mesmo tempo. Se não quiserem ter filhos revoltados ou serem profissionais frustradas, pensem direito em quais são suas prioridades ou escolham um marido disposto a assumir as obrigações domésticas – existirá algum?

Bem, a vida segue, mas dá uma tristeza pensar que o Antônio Cândido que eu havia imaginado nunca existirá. Mas já está decidido. Eu não teria um bebê só para satisfazer o capricho de ver uma parte bonitinha de mim usando o nome e as roupinhas que eu cuidadosamente escolhi. Isso seria brincar de boneca depois dos 20 anos, né. O pior é que eu imagino que essa é a motivação da maioria das pessoas para ter filhos.

Haveria alguma mais digna para se gerar um novo ser? Ter um suporte na velhice, ter alguém para amar, querer dedicar-se em cuidar de alguém mais frágil? São todos motivos no fundo egoístas. E, mesmo se fossem legítimos, há sempre pessoas abandonadas que precisam de quem zele por elas. Para que colocar mais gente no mundo? Gosto da frase do meu professor de economia: “ter filhos sem ter condições de criá-los é uma forma de depredar o mundo”. Tanta gente faz isso que eu acredito que aqueles que têm uma noção desse problema têm a obrigação de trabalhar para repará-lo. É preciso pensar global para garantir o nosso próprio bem-estar. Para quem convive comigo deve estar saturado desse discursinho, mas não consigo ver uma saída diferente.

Voltando ao tema central deste post, só queria contar que agora tenho um notebook que se chama Antônio Cândido. Agora vejo que poderia ter feito este post em duas linhas, como acabo de fazer, mas isso seria tão mais chato, não é? Quanto ao Glorfindel, ele está no meu guarda-roupa, e não sei que destino dar a ele. Com uma tecla a menos, acho que não consigo revendê-lo. O que devo fazer para não contribuir para o aumento do lixo no mundo? Mesmo porque Glorfindel não pode, simplesmente porque Antônio Cândido chegou, ser automaticamente transformado em sucata. Esse negócio de lixo eletrônico vai dar muita dor de cabeça, já estou até vendo... Gostaria de um dia ser informada de que já existem opções de reciclar 100%. Alguém pode me dar essa boa notícia?

Fada do Siso
(Tendo sempre um guarda-chuva na bolsa.)

Compre objetos bons (PC, roupas, panelas etc.) e os mantenha por vários anos. Só os descarte quando realmente não puderem mais ser usados. É importante aprender que quase nunca precisamos de um novo. É só impulso consumista. Penso nisso quando passo na frente de vitrines multicoloridas, e geralmente me ajuda a não comprar algo de que não preciso. Lixo a menos, tanto melhor.

Comentários

  1. Err... nomear computador? Ainda mais Antônio Cândido? x_x

    Agora o negócio é o seguinte: já que eu não vou ter descendentes, posso aproveitar todos os recursos deste planetinha que eu quiser, já que estarei poupando ele de toda uma longa linhagem (filhos, netos e o escambau), hauhauhauh

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  2. O meu pc eu dividi em 2 hds, aí ele ficou com dupla personalidade: a berenice e a bernardete hoho

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  3. ah, que bonito (menos a parte dos nomes duplos, grrr)
    eu sempre disse a mim mesma que nao teria filhos, e acho provavel que eu nao tenha mesmo. maaas, caso essa tragédia venha a acontecer, os nomes já estao escolhidos.
    que triste glorfindel se aposentando. nao querendo ser intrometida, mas de certa forma ele tb fez parte da minha vida.

    lalala

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  4. ah ler o que vc escreve é sempre bom.
    só isso que tenho a dizer mesmo. :)

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  5. Su, se você quiser doar, acho que o Hospital Pequeno Príncipe recolhe eletrônicos (acho, veja bem, posso confirmar se você quiser).

    E eu gostei de Antônio Cândido! É um nome bastante elegante.

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  6. Ivan Antonio17/9/09 17:33

    Antonio é um nome foda, de fato.

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