Estudando filosofia, descobri-me pensando em política
Disse que não ia falar de política, mas a carne é fraca. Estava aqui relendo uns trechos de "Introdução ao pensamento filosófico" (2011), de Karl Jaspers, e encontrei algumas passagens que descrevem tão bem o nosso governo que quis compartilhar com vocês.
(As citações estão em em azul para distinguir dos meus comentários, que vêm logo abaixo)
"Os homens e suas ideias políticas podem ser avaliados, se conhecermos os nomes dos estadistas a que dedicam admiração." (p. 77)
O que dizer de alguém que admira D. Trump e C. A. Ustra? E de seu Ministro da Economia, que trabalhou para Pinochet?
"Subsistir pela violência exige a vilania e a mentira: a razão exige a franqueza e o respeito aos compromissos." (p. 77)
Se o presidente abandonar a truculência e se abrir para o diálogo baseado na razão, ele vai ter que ser honesto e respeitar as Leis, o que poderia gerar alguns problemas com a Justiça para ele, sua família e muitos de seus aliados...
"A verdade, que é válida para todos, distancia-se muito da convicção, que é a verdade que vivemos no momento." (p. 85)
Por favor, peço que exija reparo na citação bíblica tanto repetida pelo presidente. Em vez de "a verdade vos libertará", use "a convicção vos libertará", porque a verdade não pode ser aquela válida apenas para um pequeno grupo ideológico. Sim, pois caso não estejam cientes, os valores defendidos pela extrema direita também são ideologia. Repito, são convicções, não verdades.
"[Observa-se] o conflito existente entre o poder (que tende ao segredo) e a opinião pública (que deseja fazer-se pública)." (p. 108)
Daí o interesse em manter fora de cena uma série de medidas de interesse público, simplesmente aprovadas na canetada, sem discussão, como tão bem exemplificou a fala de Ricardo Salles na famigerada reunião ministerial (vai passando a boiada...).
"Um povo que pretenda ser livre não pode jamais permanecer complacente face a erros e falhas. Impõe-se a recíproca autoeducação de governantes e governados. [...] A autoeducação política se faz pelo exercício constante do pensamento, ao contato com as realidades de todos os dias e com os grandes momentos de decisão. [...] Nenhum interesse particular pode aspirar a ascender ao plano do bonum comune [bem comum], do interesse público." (p. 111)
Penso em eleitores fanáticos que, mesmo diante de erros grotescos da gestão, mantêm-se ferozmente fiéis, porque não querem exercitar o pensamento para reavaliar a situação. Mudar depois de ter refletido e pesado os fatos não é sinal de fraqueza, mas de inteligência e boa-fé.
A última parte da citação me faz pensar principalmente no desejo do presidente de proteger seus familiares e amigos contra a própria Lei acordada pela sociedade, inclusive por ele no seus quase 30 anos de atuação no Poder Legislativo.
"Os governos de povos não livres tomam precauções contra essa terceira força [a arte e a cultura], contra o poder do espírito. Quando lhes é possível, utilizam-se dos escritores para atingir fins próprios. Fornecem à imprensa informações oficiais, sempre limitadas, sinuosas, veladas; secretamente fornecem esclarecimentos mas só a pessoas que estejam a seu serviço e usem com tato as informações, estimulando a confiança do povo nos governantes e dando apoio ao que os governantes reclamam do povo. Esses governos se escandalizam quando os escritores manifestam a um público amplo o que os governantes consideram opiniões pessoais. Louvam o espírito, mas só o espírito servil. Louvam a imprensa e a liberdade de imprensa, mas pretendem referir-se a um imprensa dócil. No fundo, não têm plena consciência do que fazem, porque lhes falta compreensão do valor do espírito". (p. 113)
Basta observar a lista deplorável de nomes que passaram pelos diversos cargos na Secretaria de Cultura, tem desde nazista a entusiasta da ditadura militar.
No caso brasileiro, os escritores mobilizados pelo governo são os tuiteiros e blogueiros, tão ferozes para atacar o diferente, tão servis a uma visão única de mundo, a do presidente.
A imprensa de que este gosta é a que faz propaganda, não jornalismo (alô, Record e SBT e tudo quanto é blog "independente" de extrema direita!).
A frase final é um toque de complacência com a ignorância desses governantes. Eles simplesmente não entendem nem valorizam a importância de buscar conhecer e pensar sobre o que significa estar vivo. Resume todo o mundo, que ele desconhece, a um punhado de frases prontas e acredita tanto nelas que, para ele, de fato, nada mais existe além de suas convicções. Todo o resto é o inimigo que precisa ser aniquilado.
Acrescento a este álbum de recortes com uma frase do Kant também mencionada por Jaspers, retirada da "Fundamentação da Metafísica dos Costumes" (2009): "age de tal maneira que tomes a humanidade, tanto em tua pessoa, quanto na pessoa de qualquer outro, sempre ao mesmo tempo como fim, nunca meramente como meio" (p. 429).
Esse é o princípio da dignidade humana, em que o homem é um fim em si mesmo, muito citado na área do Direito. Quando o trabalhador, que afinal também é humano, é tratado como meio, por exemplo, sendo obrigado a trabalhar em serviços não essenciais no ápice da pandemia para garantir metas econômicas, a conclusão é óbvia: este governo não respeita sequer a dignidade de seu povo.
Esse Deus que está acima de todos me parece um tanto tirano e cruel com suas exigências de sacrifícios humanos. Atenção, cristãos, não estamos falando de Javé; esse Deus que o presidente adora se chama Capitalismo. Todos os presidentes do mundo parecem servi-lo, inclusive os autonomeados governos socialistas, mas o nosso é especialmente descarado, nem finge que se importa com outra coisa.
Concluo com uma última frase de Jaspers, escrita na década de 1960, em que já se anunciava o colapso que atingiríamos agora em 2020:
"No mundo ocidental, o econômico predomina sobre o político. E isso equivale a dizer que o Ocidente está cavando a própria cova." (p. 163)
Meritíssimo, encerro meu caso. Por que esse cara ainda tá lá no Palácio do Planalto nos constrangendo, agredindo e assassinando?
***
Atualização em 06/06/2020: conforme o previsto, o governo parou de divulgar número de casos e mortes por covid-19. Falta de transparência da gestão significa que estamos um passinho mais distantes do estado democrático que deveria ser. É tão ruim estar certa em casos assim...
(As citações estão em em azul para distinguir dos meus comentários, que vêm logo abaixo)
"Os homens e suas ideias políticas podem ser avaliados, se conhecermos os nomes dos estadistas a que dedicam admiração." (p. 77)
O que dizer de alguém que admira D. Trump e C. A. Ustra? E de seu Ministro da Economia, que trabalhou para Pinochet?
"Subsistir pela violência exige a vilania e a mentira: a razão exige a franqueza e o respeito aos compromissos." (p. 77)
Se o presidente abandonar a truculência e se abrir para o diálogo baseado na razão, ele vai ter que ser honesto e respeitar as Leis, o que poderia gerar alguns problemas com a Justiça para ele, sua família e muitos de seus aliados...
"A verdade, que é válida para todos, distancia-se muito da convicção, que é a verdade que vivemos no momento." (p. 85)
Por favor, peço que exija reparo na citação bíblica tanto repetida pelo presidente. Em vez de "a verdade vos libertará", use "a convicção vos libertará", porque a verdade não pode ser aquela válida apenas para um pequeno grupo ideológico. Sim, pois caso não estejam cientes, os valores defendidos pela extrema direita também são ideologia. Repito, são convicções, não verdades.
"[Observa-se] o conflito existente entre o poder (que tende ao segredo) e a opinião pública (que deseja fazer-se pública)." (p. 108)
Daí o interesse em manter fora de cena uma série de medidas de interesse público, simplesmente aprovadas na canetada, sem discussão, como tão bem exemplificou a fala de Ricardo Salles na famigerada reunião ministerial (vai passando a boiada...).
"Um povo que pretenda ser livre não pode jamais permanecer complacente face a erros e falhas. Impõe-se a recíproca autoeducação de governantes e governados. [...] A autoeducação política se faz pelo exercício constante do pensamento, ao contato com as realidades de todos os dias e com os grandes momentos de decisão. [...] Nenhum interesse particular pode aspirar a ascender ao plano do bonum comune [bem comum], do interesse público." (p. 111)
Penso em eleitores fanáticos que, mesmo diante de erros grotescos da gestão, mantêm-se ferozmente fiéis, porque não querem exercitar o pensamento para reavaliar a situação. Mudar depois de ter refletido e pesado os fatos não é sinal de fraqueza, mas de inteligência e boa-fé.
A última parte da citação me faz pensar principalmente no desejo do presidente de proteger seus familiares e amigos contra a própria Lei acordada pela sociedade, inclusive por ele no seus quase 30 anos de atuação no Poder Legislativo.
"Os governos de povos não livres tomam precauções contra essa terceira força [a arte e a cultura], contra o poder do espírito. Quando lhes é possível, utilizam-se dos escritores para atingir fins próprios. Fornecem à imprensa informações oficiais, sempre limitadas, sinuosas, veladas; secretamente fornecem esclarecimentos mas só a pessoas que estejam a seu serviço e usem com tato as informações, estimulando a confiança do povo nos governantes e dando apoio ao que os governantes reclamam do povo. Esses governos se escandalizam quando os escritores manifestam a um público amplo o que os governantes consideram opiniões pessoais. Louvam o espírito, mas só o espírito servil. Louvam a imprensa e a liberdade de imprensa, mas pretendem referir-se a um imprensa dócil. No fundo, não têm plena consciência do que fazem, porque lhes falta compreensão do valor do espírito". (p. 113)
Basta observar a lista deplorável de nomes que passaram pelos diversos cargos na Secretaria de Cultura, tem desde nazista a entusiasta da ditadura militar.
No caso brasileiro, os escritores mobilizados pelo governo são os tuiteiros e blogueiros, tão ferozes para atacar o diferente, tão servis a uma visão única de mundo, a do presidente.
A imprensa de que este gosta é a que faz propaganda, não jornalismo (alô, Record e SBT e tudo quanto é blog "independente" de extrema direita!).
A frase final é um toque de complacência com a ignorância desses governantes. Eles simplesmente não entendem nem valorizam a importância de buscar conhecer e pensar sobre o que significa estar vivo. Resume todo o mundo, que ele desconhece, a um punhado de frases prontas e acredita tanto nelas que, para ele, de fato, nada mais existe além de suas convicções. Todo o resto é o inimigo que precisa ser aniquilado.
Acrescento a este álbum de recortes com uma frase do Kant também mencionada por Jaspers, retirada da "Fundamentação da Metafísica dos Costumes" (2009): "age de tal maneira que tomes a humanidade, tanto em tua pessoa, quanto na pessoa de qualquer outro, sempre ao mesmo tempo como fim, nunca meramente como meio" (p. 429).
Esse é o princípio da dignidade humana, em que o homem é um fim em si mesmo, muito citado na área do Direito. Quando o trabalhador, que afinal também é humano, é tratado como meio, por exemplo, sendo obrigado a trabalhar em serviços não essenciais no ápice da pandemia para garantir metas econômicas, a conclusão é óbvia: este governo não respeita sequer a dignidade de seu povo.
Esse Deus que está acima de todos me parece um tanto tirano e cruel com suas exigências de sacrifícios humanos. Atenção, cristãos, não estamos falando de Javé; esse Deus que o presidente adora se chama Capitalismo. Todos os presidentes do mundo parecem servi-lo, inclusive os autonomeados governos socialistas, mas o nosso é especialmente descarado, nem finge que se importa com outra coisa.
Concluo com uma última frase de Jaspers, escrita na década de 1960, em que já se anunciava o colapso que atingiríamos agora em 2020:
"No mundo ocidental, o econômico predomina sobre o político. E isso equivale a dizer que o Ocidente está cavando a própria cova." (p. 163)
Meritíssimo, encerro meu caso. Por que esse cara ainda tá lá no Palácio do Planalto nos constrangendo, agredindo e assassinando?
***
Atualização em 06/06/2020: conforme o previsto, o governo parou de divulgar número de casos e mortes por covid-19. Falta de transparência da gestão significa que estamos um passinho mais distantes do estado democrático que deveria ser. É tão ruim estar certa em casos assim...
Discordo quando você diz que o Bozo adora o Capitalismo. O Bozo adora a si mesmo e só. Se ele adorasse o Capitalismo eu estaria mais feliz.
ResponderExcluirEle adora o que ele acha que é o capitalismo, seu versão desumanizada: esgotamento dos recursos naturais, submissão aos Estados Unidos (entreguismos em geral) e coisificação do trabalhador.
Excluir