Postagens

Na Bocasa

Como se diz boca em alemão? Acho que é Mund, só não tenho certeza do artigo, eu chutaria der. Isso! Der Mund, so... Ich möchte alle am Mund küssen. Engraçado, eu tava pensando agorinha mesmo nisso: dieser Platz ist ein Mund. Ein Rauchermund, para ser mais precisa. Was sagst du? Rauchermund, boca de fumo em alemão. Não, o que eu falei antes foi am Mund küssen. Aaah, você quis dizer boca-boca. Rolam por aí umas histórias de que eu falo alemão quando estou bêbada. Não sei, sempre que esse fenômeno acontece, eu estou bêbada demais para prestar atenção. Mas, naquela noite, pude observar a estranha magia suceder com minhas amigas, e, sim!: bêbados têm o dom de se expressar em alemão!, mas comigo nada. O máximo que consegui foi uma dúvida pelo resto da noite sobre o maldito gênero. Nada para se estranhar – eu tava sóbria. Aliás, eu era a única pessoa sóbria naquela boca de fumo. Boca desastrida, ai, se alguém ouve! É falta de consideração chamar a casa de alguém de boca de fumo, não é? Ti...

Procura-se tradutor de caetanês, contratação imediata!

Imagem
Quando certos cantores vêm para a nossa cidade (ou nosso país, se for um estrangeiro), é hora de desfalcar a poupança e ir, sem importar quanto custa ou se o artista em questão está em uma fase medíocre. E, infelizmente, esse é o caso de Caetano Veloso com seu “Abraçaço”. Ingresso comprado, adquiri o álbum para me preparar para o show. Minha primeira impressão foi de algo estranhíssimo, mas não no sentido positivo de esquisito como “Araçá azul”. A capa do disco já dá uma amostra disso, todas as mãos deveriam ser acolhedoras, mas elas são sinistras, assim como o olhar do próprio Caetano. Não posso traçar muitas comparações com a carreira do Caetano, porque eu só comecei a escutá-lo há menos de um ano e não domino o assunto. Só sei que meus álbuns favoritos são “Transa”, “Qualquer coisa” e “Caetano e Chico juntos e ao vivo” – ou seja, as coisas da época da tropicália. O “Cê” (2006), primeira obra da parceria com a banda Cê, que se encerra neste “Abraçaço”, até que é bacana em alguns...

De volta

Imagem
Estive lá fora. Há muito para ver e sentir e fazer. Mas nada que se compare àquilo que a literatura já me dava. A vida dentro dela é mais intensa e perfeita. A gente enxerga certas coisas com mais nitidez quando toma distância. Estou a cada dia mais convicta de que o belo só desponta em meio ao feio. Mesmo um rei em seu palácio de marfim, servido pelas escravas mais lindas e degustando os pratos mais deliciosos, pode considerar, em algum momento, que não possui sequer o necessário. É preciso sair, para poder voltar prenhe de sentidos e, um dia, querer sair de novo. (Sob a égide de “Cidades invisíveis”, de Ítalo Calvino, um livro que só cresce quanto mais me distancio daquela primeira e frustrada leitura.)

O dia em que resolvi parar de ter aquelas conversas profundas sobre o sentido da vida e comecei a vivê-la

Um dia produtivo, daquele tipo que adoro. Eu voltava para casa de bicicleta, satisfeita e cansada. O problema foi o horário: ainda eram sete horas da noite. Vislumbrei a cena. Eu abriria a porta, seria recebida por aquele silêncio denso, não teria ninguém para quem ligar, nenhum bicho para alimentar, só restaria o computador e o trabalho pendente. Se encarasse mais uma dose de obrigação, arruinaria aquela quinta-feira, que já estava na medida certa, e iria dormir com a sensação de mais outro dia repetido, igual ao anterior e ao anterior e ao anterior. Enrolei-me no caminho de volta, esperando uma solução mágica. Foi então que encontrei rostos conhecidos. Gente de quem nem gosto muito, mas era uma oportunidade de conversar. Fiquei superexcitada, me atropelei, falei mais do que devia. Quando me dei conta, revelava àquelas pessoas de quem nem gosto muito o quanto eu vinha me sentindo solitária. E isso já faz uns quatro anos, mas elas supuseram que era uma condição que se arrastava de ap...

Anna Karenina e a claustrofobia

Imagem
Toda sala de cinema é um pouco claustrofóbica. Ar parado, poltronas e piso infestados de ácaro, escuridão densa, estranhos sentados perto demais (e às vezes cutucando suas costas), barulho de mastigação, sussurros, o chato que faz shhhhh para impor ordem até no momento de lazer... Mas aí o filme começa, e uma janela de luz se abre bem à sua frente. Você se esquece do ambiente sufocante, desprende-se do seu ego mesquinho e viaja livremente. Bom, se você estiver assistindo a “Anna Karenina”, de Joe Wright, não é bem isso que acontece. Primeira cena, um palco de teatro. A cortina se abre e se inicia um giro frenético através de múltiplos cenários. Muitas portas, cortinas, cordas, escadas. Dezenas de personagens povoam esses ambientes móveis, preocupados com os próprios assuntos pessoais, indiferentes à coreografia que rege a todos, um compasso tão falso! Já viram algum filme do Peter Greenaway (sugiro “O bebê santo de Macon” para quem tiver estômago)? O jogo é bem parecido, fiquei ...

Como se dar bem

Faz o seguinte. Pega uma mina insegura e dá bola pra ela, assim de leve. Quase toda gostosa se odeia, se acha feia-chata, tá louca por um pouco de tapa na cara dum cachorrão que nem você. É fato. Aproveita, cara. É o que todas elas querem. Até as que não parecem são umas vadias loucas. Daí você faz aquela função, passa o fim de semana junto, fala dos assuntos dela, olha no olho, dá um pouco do mel pra ela provar. Tá me acompanhando, né, nem preciso dizer mais nada. É isso aí. Faz ela acreditar que você tá abrindo mão do seu precioso tempo livre por ela. Não tem erro. Só não esquece de deixar bem claro que você gosta dela apesar de ela ser a merda que é. Vai semeando, dizendo que o mundo inteiro lá fora não presta, que só você se salva, que ela tem sorte de tá perto, que nem você entende o que tá acontecendo, mas que você é verdadeiro demais pra ir contra, vai indo de boa, só você sabe o que é a vida, o que fazer com ela. Ensina ela quem manda, quem é a pessoa interessante da relação e ...

Diário de uma mestranda [2]

Às vezes quando eu abro o documento de Word da minha dissertação, vejo que tem algumas páginas a mais do que eu me lembrava. É raro, mas acontece. Desconfio de que, quando eu estou longe do computador, um duende faz o trabalho por mim. Dilema 1: isso é plágio? Quando eu leio as novas inserções, percebo que elas não têm pé nem cabeça. Apesar disso, nunca apago. Vou lapidando até aquilo fazer algum sentido. Nem sempre consigo. Dilema 2: devo contar ao meu orientador sobre o duende quando ele meter o pau no que escrevi?

Diário de uma mestranda [1]

Hoje tive um ótimo insight para a dissertação enquanto cagava. Talvez o Lactopurga seja a solução para os meus problemas acadêmicos. Uma dúvida: devo mencioná-lo na dedicatória?

Um poema de Paulo Leminski

Imagem
[sem título] um passarinho volta pra árvore que não mais existe meu pensamento voa até você só pra ficar triste LEMINSKI, Paulo. Toda Poesia . São Paulo: Companhia das Letras, 2013. p. 70

Sobre o amor

Imagem
"O amor é uma grande estranheza: aí estão dois, cada um deles uma estrela diferente, e ninguém pode saber jamais sobre o outro. E de repente não há mais distância nem tempo, e eles se precipitam um sobre o outro, de modo que não sabem mais nada de si nem nada um do outro, e também não precisam saber mais nada. Isso é amor." BROCH, Hermann. Esch ou a anarquia / 1903 . São Paulo, Benvirá, 2011. p. 176. Esse livro não trata muito do amor, a passagem citada é um pequeno desvio do tom geral da obra, que trata da decadência de valores. Broch é altamente irônico diante das relações interpessoais modernas (tudo entra numa grande contabilidade, ganhos e sacrifícios). Esta é uma obra prima que pouca gente leu, recomendo!