Na Bocasa
Como se diz boca em alemão? Acho que é Mund, só não tenho certeza do artigo, eu chutaria der. Isso! Der Mund, so... Ich möchte alle am Mund küssen. Engraçado, eu tava pensando agorinha mesmo nisso: dieser Platz ist ein Mund. Ein Rauchermund, para ser mais precisa. Was sagst du? Rauchermund, boca de fumo em alemão. Não, o que eu falei antes foi am Mund küssen. Aaah, você quis dizer boca-boca.
Rolam por aí umas histórias de que eu falo alemão quando estou bêbada. Não sei, sempre que esse fenômeno acontece, eu estou bêbada demais para prestar atenção. Mas, naquela noite, pude observar a estranha magia suceder com minhas amigas, e, sim!: bêbados têm o dom de se expressar em alemão!, mas comigo nada. O máximo que consegui foi uma dúvida pelo resto da noite sobre o maldito gênero. Nada para se estranhar – eu tava sóbria. Aliás, eu era a única pessoa sóbria naquela boca de fumo.
Boca desastrida, ai, se alguém ouve! É falta de consideração chamar a casa de alguém de boca de fumo, não é? Tirando os traficantes, as putas, as drag queens, os noias, os plantadores de maconha natural, as latinhas de spray e de margarina com substâncias enigmáticas, o portão de entrada arrombado, o mofo, a luz que nada ilumina, a suspeita de topar com um morto numa banheira encardida, havia gente que efetivamente vivia lá e que talvez até circulasse à luz do dia sem provocar medo ou nojo às senhoras de boa família.
Se até César aceitava, por que não Marta? Esta que pregava viver com pouco e se dedicar ao trabalho duro. Esta que achava ter exorcizado seu classemedismo, odiado a vida higiênica e indolor dos perfumes, dos tecidos, do entretenimento, do namoro no sofá e do sexo no motel de quinhentas pilas. Ainda assim, eu estava petrificada de medo. Por mais de um momento, pensei em voltar para a província, onde questões assim difíceis sequer existiam: lá os copos eram limpos e as roupas nunca tinham furos ou manchas.
Sendo eu a inside, desisti do sonho beatnik, conformei-me à torre de marfim e à colocação pronominal gramaticalmente conveniente e artificial. Ao ponto inicial chega-se então: a discussão sobre declinação do alemão. Eu sentada num colchão no chão e julgando que meu maior problema era produzir frases sonoramente tão irritantes, duras e antipoéticas. Um quê de repetição desnecessária.
As outras faladoras de alemão etílico também tinham casa, pai, mãe, futuro e, nem por isso, se incomodavam com coisa alguma. Lembrei outro choque, esse na infância, quando visitamos a moça que limpava a nossa casa, e eu descobri que as crianças de lá andavam nuas, sentavam a bunda direto na terra e arrastavam atrás de si bonecas sem cabeça. Apesar de tudo, era uma pobreza honesta, que despertava empatia e me motivava a não deixar o quarto tão bagunçado no dia de faxina. Tem uma foto minha com uns quatro anos de idade tomando sodinha sentada ao lado daquelas crianças. Na ocasião, elas estavam de banho tomado e usando vestidinhos, tudo nos conformes, bonito de ver.
Não, essa não é a melhor comparação para o que senti esta noite. Havia algo pior naquela Bocasa ou, se tivesse bebido, Mundhaus.
Por mais que incomodassem a assimetria, os vazamentos, a poça de vinho chupada pelos edredons largados no chão, doía mais descobrir a existência de certas criaturas que eu nunca vira antes. Jovens e inteligentes como eu, mas tortas, viciadas, sujas. Onde elas passavam o dia, das 7 às 22, quando a ordem parecia prevalecer nas ruas? Quem as tinha ensinado ou condenado a ficarem invisíveis noutros lugares além da Bocasa?
Paranoica, pensei que era tudo um plano milimetricamente armado para que eu pudesse entrar num shopping center, me sentir mal por não parecer a nova estrela de Hollywood, gastar minha grana contadinha num troço qualquer e ganhar a rua reconciliada com o mundo. Se eu visse antes o que há de verdade, essas pessoas que à noite saem dos bueiros e riem e tremem e sempre procuram algo não menos imundo que elas mesmas, eu vomitaria as três torradas integrais que comi no café da manhã, eu rasgaria minhas vestes pelos corredores ambientizados do novo garden-bistrô, eu me ajoelharia diante dos seguranças vestidos de terno preto e berraria: por que você ataca o seu semelhante e defende o seu opressor? Ou eu não faria nada. Por mais que eu odeie o homem branco burguês, também não sou igual à gente da Bocasa, nada sei deles.
Então a música começou, o mesmo sambinha que eu ouvia amiúde no meu computador, dançando ou pensando na vida. Eles também? Enfim um ponto de beleza na Bocasa, aquele castelo de cartas marcadas por mordidas e merdinhas de moscas. Meu cérebro finalmente calou a boca. O som que vinha de lá era agradável, era familiar. A gente cantou junto. Ainda não éramos um Nós, mas aquele arranjo temporário funcionava, tranquilizava. Minha náusea passou e consegui ficar na Bocasa ainda um par de horas. Antes da uma da manhã, eu, de banho tomado, me enfiava sob lençóis limpos.
Rolam por aí umas histórias de que eu falo alemão quando estou bêbada. Não sei, sempre que esse fenômeno acontece, eu estou bêbada demais para prestar atenção. Mas, naquela noite, pude observar a estranha magia suceder com minhas amigas, e, sim!: bêbados têm o dom de se expressar em alemão!, mas comigo nada. O máximo que consegui foi uma dúvida pelo resto da noite sobre o maldito gênero. Nada para se estranhar – eu tava sóbria. Aliás, eu era a única pessoa sóbria naquela boca de fumo.
Boca desastrida, ai, se alguém ouve! É falta de consideração chamar a casa de alguém de boca de fumo, não é? Tirando os traficantes, as putas, as drag queens, os noias, os plantadores de maconha natural, as latinhas de spray e de margarina com substâncias enigmáticas, o portão de entrada arrombado, o mofo, a luz que nada ilumina, a suspeita de topar com um morto numa banheira encardida, havia gente que efetivamente vivia lá e que talvez até circulasse à luz do dia sem provocar medo ou nojo às senhoras de boa família.
Se até César aceitava, por que não Marta? Esta que pregava viver com pouco e se dedicar ao trabalho duro. Esta que achava ter exorcizado seu classemedismo, odiado a vida higiênica e indolor dos perfumes, dos tecidos, do entretenimento, do namoro no sofá e do sexo no motel de quinhentas pilas. Ainda assim, eu estava petrificada de medo. Por mais de um momento, pensei em voltar para a província, onde questões assim difíceis sequer existiam: lá os copos eram limpos e as roupas nunca tinham furos ou manchas.
Sendo eu a inside, desisti do sonho beatnik, conformei-me à torre de marfim e à colocação pronominal gramaticalmente conveniente e artificial. Ao ponto inicial chega-se então: a discussão sobre declinação do alemão. Eu sentada num colchão no chão e julgando que meu maior problema era produzir frases sonoramente tão irritantes, duras e antipoéticas. Um quê de repetição desnecessária.
As outras faladoras de alemão etílico também tinham casa, pai, mãe, futuro e, nem por isso, se incomodavam com coisa alguma. Lembrei outro choque, esse na infância, quando visitamos a moça que limpava a nossa casa, e eu descobri que as crianças de lá andavam nuas, sentavam a bunda direto na terra e arrastavam atrás de si bonecas sem cabeça. Apesar de tudo, era uma pobreza honesta, que despertava empatia e me motivava a não deixar o quarto tão bagunçado no dia de faxina. Tem uma foto minha com uns quatro anos de idade tomando sodinha sentada ao lado daquelas crianças. Na ocasião, elas estavam de banho tomado e usando vestidinhos, tudo nos conformes, bonito de ver.
Não, essa não é a melhor comparação para o que senti esta noite. Havia algo pior naquela Bocasa ou, se tivesse bebido, Mundhaus.
Por mais que incomodassem a assimetria, os vazamentos, a poça de vinho chupada pelos edredons largados no chão, doía mais descobrir a existência de certas criaturas que eu nunca vira antes. Jovens e inteligentes como eu, mas tortas, viciadas, sujas. Onde elas passavam o dia, das 7 às 22, quando a ordem parecia prevalecer nas ruas? Quem as tinha ensinado ou condenado a ficarem invisíveis noutros lugares além da Bocasa?
Paranoica, pensei que era tudo um plano milimetricamente armado para que eu pudesse entrar num shopping center, me sentir mal por não parecer a nova estrela de Hollywood, gastar minha grana contadinha num troço qualquer e ganhar a rua reconciliada com o mundo. Se eu visse antes o que há de verdade, essas pessoas que à noite saem dos bueiros e riem e tremem e sempre procuram algo não menos imundo que elas mesmas, eu vomitaria as três torradas integrais que comi no café da manhã, eu rasgaria minhas vestes pelos corredores ambientizados do novo garden-bistrô, eu me ajoelharia diante dos seguranças vestidos de terno preto e berraria: por que você ataca o seu semelhante e defende o seu opressor? Ou eu não faria nada. Por mais que eu odeie o homem branco burguês, também não sou igual à gente da Bocasa, nada sei deles.
Então a música começou, o mesmo sambinha que eu ouvia amiúde no meu computador, dançando ou pensando na vida. Eles também? Enfim um ponto de beleza na Bocasa, aquele castelo de cartas marcadas por mordidas e merdinhas de moscas. Meu cérebro finalmente calou a boca. O som que vinha de lá era agradável, era familiar. A gente cantou junto. Ainda não éramos um Nós, mas aquele arranjo temporário funcionava, tranquilizava. Minha náusea passou e consegui ficar na Bocasa ainda um par de horas. Antes da uma da manhã, eu, de banho tomado, me enfiava sob lençóis limpos.
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