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Quando certos cantores vêm para a nossa cidade (ou nosso país, se for um estrangeiro), é hora de desfalcar a poupança e ir, sem importar quanto custa ou se o artista em questão está em uma fase medíocre. E, infelizmente, esse é o caso de Caetano Veloso com seu “Abraçaço”. Ingresso comprado, adquiri o álbum para me preparar para o show. Minha primeira impressão foi de algo estranhíssimo, mas não no sentido positivo de esquisito como “Araçá azul”. A capa do disco já dá uma amostra disso, todas as mãos deveriam ser acolhedoras, mas elas são sinistras, assim como o olhar do próprio Caetano.
Não posso traçar muitas comparações com a carreira do Caetano, porque eu só comecei a escutá-lo há menos de um ano e não domino o assunto. Só sei que meus álbuns favoritos são “Transa”, “Qualquer coisa” e “Caetano e Chico juntos e ao vivo” – ou seja, as coisas da época da tropicália. O “Cê” (2006), primeira obra da parceria com a banda Cê, que se encerra neste “Abraçaço”, até que é bacana em alguns momentos meio loucos, mas não chegou a entrar no meu coração.
Apesar de meu pequeno conhecimento dessa carreira tão longa e produtiva, e que eu valorizo a ponto de querer ansiosamente ir ao show, vou jogar algumas impressões do disco novo. Talvez minha visão mude com o tempo, mas, por ora, “Abraçaço” me parece um pouco chato, um olhar meio pessimista, artificial e cansado das coisas, algo de frio que a gente espera justamente afastar com a música.
Algumas faixas, como “Parabéns”, são tão irritantes que quando começam a tocar eu não consigo ouvir por mais de dez segundos. “Funk melódico” é outro desses casos. A letra é até bacana (“Não aprendi nada com aquela sentimental canção / Nada pra alertar meu coração / Mulher indigesta você só merece mesmo o céu / Como está no samba de Noel. / Você produz raiva, confusão, tristeza e dor / Prova que o ciúme é só o estrume do amor”), mas o som é péssimo e lembra muito outra produção já chatinha do Caetano em parceria com a Gal Costa, “Miami maculelê”.
Em outras acontece o contrário: uma sonoridade mais afável e a letra bizarra, do tipo que empolgaria num livro de poemas, mas que a gente não tem tempo suficiente de assimilar quando cantado. É o caso de “Abraçaço” e “Vinco”. O que diabos ele quis dizer com “Terra que sente o próprio gosto, terra / Vermelha e rosa de pétala íntima / Mas terra onde eu hasteio uma nação / De desfazer-me eu meu, eu, eu, eu, eu”? Sei lá! Tenho vontade de ouvir sempre mais, pois, mesmo sem conseguir entender além, algum tipo de sentimento vai se formando. Bom, estamos falando de Caetano Veloso. O non-sense não é o que tem de melhor nele? Não reclamo, essas são minhas faixas favoritas.
“Estou triste” tem uma letra linda e poética, mas é impossível gostar dela em dias de sol. Acho que saberei valorizar mais em alguma fase pós pé na bunda. (Espero que esse dia não chegue.)
As mais românticas, "Quero ser justo", "Quando o galo cantou" e "Gayana", são fáceis de gostar, mas pressinto que também são as primeiras que vão me enjoar. Com relação a "A Bossa Nova é foda", eu ainda não tenho opinião formada e não faço a menor ideia de por que foi escolhida para abrir o CD. Talvez seja a guardiã do espírito de esquisitices do projeto. Lembram da época em que os álbuns tinham uma unidade? Saudades.
Há um teor político interessante em “Um comunista” e “O império da lei”, que têm letras que nos dão bastante para pensar. Pena que o ritmo não comova muito. São músicas que você dificilmente vai cantarolar por aí, é algo para sentar e prestar atenção. Talvez seja este meu maior problema com este álbum: tenho tido pouco tempo para apenas ouvir música, e ele não tem aquela qualidade de certas obras de arte que, mesmo quando você fica só no nível mais superficial delas, já consegue obter algum tipo de deleite.
Bom, agora é esperar pelo show com as melhores expectativas. Se a Madonna conseguiu fazer uma apresentação maravilhosa a partir de um álbum menor como “MDNA”, por que o nosso Caetano também não conseguiria? Afinal, num momento de desespero, é só desencavar pérolas passadas, como “Triste Bahia”, e dará tudo certo. Apaziguamento – é isso que a gente espera dos artistas hoje, para o bem e para o mal.
Essa capa aí me parece a de um cara prestes a ser enrab*** numa suruba.
ResponderExcluirTô totalmente por fora da tal MPB, que desconfio que seja bem pouco popular, no sentido da palavra.