Minha súdita


Outro dia assisti ao filme “Meu rei” por indicação de um amigo. Perguntei de que se tratava, ele disse que era um drama francês sobre relacionamentos. Com essas indicações vagas, comecei a vê-lo. As primeiras cenas mostram uma mulher fazendo tratamento para recuperar o joelho (são cenas fortes, demos graças a Deus pelos ligamentos sãos que evitam nosso joelho de dobrar para frente...) e essa mesma personagem cerca de dez anos antes, quando ainda não era mãe. Seu nome é Toni, ela é advogada, parece divertida e segura de si. Na fase da juventude, ela conhece Georgio, formando aquele casal autêntico, cujos encontros iniciais são meio doidos e que a gente acompanha com um sorriso no rosto. Assim segue a narrativa, intercalando o presente (tratamento ortopédico) e o passado, que vai avançando ao encontro do momento atual. O espectador rapidamente entende que essa é a história de como aquele relacionamento começou e se deteriorou. Não posso reclamar de propaganda enganosa, de fato, trata-se de um drama francês sobre relacionamentos.

Quando subiram as letras do crédito, meu amigo perguntou “e aí?”. Eu respondi, para sua surpresa, que havia achado horrível, então entramos numa discussão mais ou menos exaltada. Precisei explicar que não era um filme ruim, que a indicação em si não havia sido absurda, apenas que despertava sensações ruins em mim. Ele não entendia por que eu não havia achado o final bonito, já que mostrava um tipo de envolvimento amoroso que, mesmo depois de altos e baixos, provavelmente nunca se dissolveria. Argumentou, inclusive, que a diretora era mulher e, supostamente, teria uma visão mais sensível de personagens femininas. Eu respondi que era assustador ver como a protagonista fora vítima de um relacionamento abusivo e, depois de quase morrer em decorrência disso, ainda estava sob o poder do abusador. Colocado nesses termos, pareceu que eu era a louca do Twitter repetindo fórmulas prontas, mas esses eram os nomes adequados para descrever a relação entre Toni e Georgio. Explico por quê.

Quando a gente pensa em abusador e vítima, vem a imagem de um cara violento e de uma mulher indefesa, ambos ignorantes, porque essas coisas não ocorrem com gente instruída, certo? Parece que isso não se encaixa ao perfil dos personagens, tão conscientes e independentes. Mas os dois têm exatamente o perfil das pessoas que caem nessa armadilha. Ele é charmoso, inteligente, impulsivo (traço que explica tanto seu lado divertido e apaixonado quanto sua vulnerabilidade às drogas), mostra-se emocionalmente frágil sempre que corre o risco de perder a companheira. Ela, apesar de ter uma profissão desafiadora, está disposta a deixá-la em segundo plano para viver a vida do outro (muda-se para o apartamento dele, frequenta quase que apenas os círculos de amigos do parceiro, mesmo os detestando), é romântica (acredita no “grande amor” e nos “sacrifícios pelo outro”), tem dificuldade para distinguir uma opinião alheia da realidade (isso fica bem claro na cena em que fazem sexo pela primeira vez, e ela revela, entre lágrimas, que manteve em mente o tempo todo uma opinião negativa do ex-marido sobre si). Aliás, nessa mesma cena entendemos o título, “Meu rei”. Não expressa, como o cartaz faz parecer, a figura de um homem nobre e admirável, mas do “rei dos safados”, expressão que o próprio Georgio diz numa aparente brincadeira. Os safados comuns se revelam muito fácil, como o ex-marido que a xingara no processo do divórcio, já o rei dos safados é mais perspicaz, faz parecer que é diferente dos demais, tornando-se ainda mais nocivo.

Quando você se convence de que esse é um relacionamento abusivo, percebe que as pistas estavam lá desde o início. O acidente de esqui foi uma tentativa de Toni se autodestruir, como havia sugerido a psicóloga da clínica. Georgio decide tudo sozinho sobre a vida dos dois (ter o filho, o nome da criança, a vida em dois apartamentos...) e, quando se cansa de mandar, simplesmente a abandona, sem nunca conversar de modo igualitário com a parceira. Ele age com violência quando ela diz “não” (quebrar uma porta de hotel para pedir sexo não é romântico nem divertido, é assustador). Quando Toni obtém satisfação no trabalho, ele não a apoia, mostra aborrecimento, inclusive faz um escândalo no escritório dela, talvez para acabar com o bem-estar que ela sentia ali e minar os espaços em que ela pode ser feliz longe dele. Assim que ela se afasta e se fortalece, ele mostra que está mal e precisa dela. Aliás, uma questão que o filme retrata muito bem é a complexidade desse envolvimento. Da mesma forma que Georgio chantageia Toni pelo dó e pelo medo, a vítima também copia as estratégias do abusador para se tornar importante para ele. O terrorismo psicológico vindo dela, porém, não funciona tão bem com ele, que a culpa do próprio declínio, mostrando sua face de rei dos safados, ocasião para ela vê-lo de modo menos idealizado e abandonar definitivamente esse relacionamento. Se ele desaparecesse da vida dela, seria a única chance de final feliz para o filme, mas infelizmente não é assim.

Meu amigo julgou o final “aberto”, já eu o achei bem determinado. Toni, ao reencontrar Georgio na escola do filho, usa o relógio presenteado pelo ex-marido na mesma noite em que ele quebrara a porta do quarto para convencê-la a terem relações sexuais, não dá para esquecer o que esse objeto representa. Estamos no presente da narrativa, já houve a experiência do tratamento longo e doloroso, mas ela ainda observa seu antigo amado com admiração, quase veneração. Entendo que meu amigo tenha achado bonito o modo como se representa o olhar sobre o ser amado, aquele corpo tão bonito e ainda desejado mesmo depois de terem se possuído e se largado tantas vezes. Pois bem, também acho que seria bonito, mas apenas se a gente não soubesse o que essa atração pode ocasionar na vida daquela mulher. As pessoas não mudam. O próprio Georgio explicitara noutro momento que aquilo que a companheira alegava como motivos para se separar dele era o mesmo que a atraíra inicialmente. É verdade: se abusadores não fossem tão atraentes ninguém entraria nem ficaria em um relacionamento abusivo, está aí a crueldade da coisa toda... Como nos afastarmos daquilo que nos atrai mais intensamente?

Entenderam por que o final deste filme é tão cruel? Recomendo-o, mas estejam avisados: dói.

(Segundo o dicionário Aurélio, “súdito” é aquele que está submetido à vontade de outrem. Reis e rainhas implicam a existência de súbitos e súditas. Tendo isso em mente, devemos nos perguntar por que ficaríamos lisonjeados de encontrar um rei ou uma rainha para nós.)

Para saber mais sobre relacionamentos abusivos, sugiro estes dois vídeos:
“Leslie Morgan Steiner: Por que as vítimas de violência doméstica não vão embora”: https://www.youtube.com/watch?v=V1yW5IsnSjo
“Não tira o batom vermelho”: https://www.youtube.com/watch?v=I-3ocjJTPHg

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