Mea culpa

Há cerca de um mês, li um artigo na Mais! que me chamou bastante a atenção. Chamava-se “Sonhos do avesso” e fora escrito pela psicanalista Maria Rita Kehl. A maior qualidade do texto, na minha opinião, é mostrar algo tão óbvio, mas que eu nunca havia lido nas páginas de um jornal. No começo, a autora dá uma boa enrolada, por isso (e também porque não tenho saco para digitar tanto) vou transcrever apenas a partir de quando ela entra no assunto central, a crise do sujeito.

"Se Freud fundou a psicanálise ao vislumbrar, no horizonte de sua época, as razões da insatisfação histérica, é nossa vez de tentar escutar o que mudou desde então, à medida que a norma produtiva/repressiva foi sendo substituída pela norma do gozo e do consumo.

"Alguns sintomas, na atualidade, têm se tornado mais frequentes e mais incômodos do que as formas consagradas das neuroses e das psicoses no século passado. Hoje as drogadições, os transtornos alimentares, os quadros delinquenciais e as depressões graves desafiam os analistas a repensar a subjetividade. [...]

"Se o homem contemporâneo sofre do que [o psicanalista francês] Charles Melman chamou de falta de um centro de gravidade, é porque as referências tradicionais - Deus, pátria, família, trabalho, pai - pulverizaram-se em milhares de referências optativas, para uso privado do freguês.

"O 'self-made man' dos primórdios do capitalismo deixou de ser o trabalhador esforçado e econômico para se tornar o gestor de seu próprio 'perfil do consumidor' a partir de modelos em oferta no mercado.

"Cada um tem o direito e o dever de compor a seu gosto um capo próprio de referências, de estilo, de ideais. Aparentemente, não devemos mais nada ao pai e ao grupo social a que pertencemos, dos quais imaginamos prescindir para saber quem somos.

"Este aparente apagamento da dívida simbólica não nos tornou menos culpados; ao contrário: hoje escutamos pessoas que se dizem culpadas de tudo. [...]

"A antiga donzela angustiada com as manifestações involuntárias de sua sexualidade reprimida - lembrem-se de que Freud relacionou o tabu da virgindade e a moral sexual entre as causas do mal-estar, no início do século 20 - hoje se sente culpada por não usufruir tanto do sexo, das dorgas e do 'rock and funk' quanto deveria. O obsessivo escrupuloso, acossado por fantasias perversas, agora se queixa de seu bom comportamento: queria ser um predador sem escrúpulos, eliminar os rivais, abusar sem pudor das mulheres.

"As pessoas vivem culpadas por não conseguirem gozar tanto quanto lhes é exigido. Culpadas por não alcançar o sucesso e a popularidade instantâneos, por perderem tempo em sessões de análise - culpados por sofrer. O sofrimento não tem mais o prestígio que lhe conferia o cristianismo. Sofrer não redime a dívida; ao contrário, reduplica os juros."

Desisti de copiar até o final, mas basicamente a psicanalista segue dando exemplos de como as pessoas tentam otimizar a vida delas para obter o máximo de prazer, desconsiderando que a dor também faz parte da existência. Depois, quando sentem a sensação de vazio ou frustração, sequer têm como culpar algum sistema opressivo, porque tudo foi resultado de escolhas próprias.

Quem quiser ler a versão completa, está disponível em http://www.folha.com.br/digital, edição de 06 de setembro.

Agora eu deveria fazer um comentário sobre o artigo ou, no mínimo, justificar o porquê de algumas partes dele estarem aqui, né? Sei lá. Talvez até houvesse uma intenção inicial nesse post, mas desanimei. Acho que só gostaria de mostrar que não estamos sozinhos nesse sentimento de culpa que nos persegue. Como se libertar dele? A esperta autora não conta no texto. Quem quiser saber vai ter que gastar uma nota preta com sessões de análise - e sem garantia de ter uma resposta.

Esse assunto me trouxe à cabeça uma imagem. Há um momento logo no início da missa no qual os fiéis pensam nos pecados cometidos, o padre faz uma oração que todos repetem em coro. É assim:

"Confesso a Deus Todo-Poderoso e a vós, irmãos, que pequei muitas vezes por pensamentos, palavras, atos e omissões, por minha culpa, minha tão grande culpa. E peço à Virgem Maria, aos anjos e santos e a vós, irmãos, que rogueis por mim a Deus, nosso Senhor."

Nesse momento toca uma musica bonita e a gente tem vontade de chorar de tão pesado que o coração fica. Mas quando tudo acaba dá um alívio tão grande que você se sente um recém-nascido, pronto para trilhar um caminho de glória. Bem, isso é o que acontece com um católico que está realmente envolvido por sua crença. Se não for assim, você fica entediado com o blablablá do padre e consulta o relógio umas vinte vezes antes da bênção final, volta para casa com a culpa ainda latejando no peito, se farta no almoço de domingo, passa a tarde toda dormindo e vai dormir com a sensação de que não está vivendo sua vida como deveria. "La vida es dura", já disse o sábio Selton Mello em "O cheiro do ralo". Aliás, esse é um excelente filme, que traduz perfeitamente a bobagem que se é viver hoje em dia.

Sem conseguir pensar mais nada pela própria cabeça - ô, diazinho! -, encerro com um belo (porém, nada original) "good night, and good luck".

Comentários

  1. Quer parar de sentir culpa? Então pare. Porque não tão paradoxalmente assim, sentir culpa também é uma escolha.

    Até mesmo o vazio é uma escolha. Pense bem, vc poderia ter escolhido ser uma besta, vivendo num mundo de ilusão. Mas escolheu abrir os olhos. Então, bem vinda ao deserto do real.

    ResponderExcluir
  2. É tudo falta de movimento histórico.

    ResponderExcluir

Postar um comentário