Elegia da gente viva (parte 2, capítulo 5)
Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique aqui.
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5. Coleção de frases (rascunho para uma poética dos anos dez)
O mundo se tornou mais complexo e variado. As pessoas exigem para si a máxima felicidade. A fonte de juventude eterna é o novo Graal da contemporaneidade. Cresce o número de horas de uso diário de celulares, computadores e outros gadgets. Centenas de amigos postam na rede comentários hilários para fugir do imenso volume de trabalho, depois recuperam o atraso trabalhando em casa, antes de dormir ou assim que acordam. O lucro da indústria de jogos supera o cinematográfico graças ao incremento do público adulto. A maioria das pessoas usa regularmente algum(ns) tipo(s) de droga lícita ou ilícita. O consumismo é o grande deus do ocidente; os shoppings, seus templos; os designers, seus santos milagreiros; os compradores, os fiéis; o cartão de crédito, o cálice de comunhão; etc. etc. As mulheres são super-homens. Os trabalhadores devem se aperfeiçoar continuamente, aprenda como turbinar seu currículo neste passo-a-passo elaborado por especialistas. São os relacionamentos amorosos que preenchem o vazio existencial. Todo mundo pode ser o que quiser, menos quem não pode (você sabe de quem estou falando, deixa baixo). Casais preferem cães a filhos. Depois que as pessoas descobriram que dinheiro não traz felicidade, centros de yoga se tornaram um negócio muito rentável. Seja você, só que melhor – Fast Happiness já à venda na farmácia de sua confiança. Ler expande a mente e a libido: edição de luxo de Prepúcio encabeça a lista de best-sellers de dezembro. A busca pelo corpo perfeito é a segunda principal preocupação das brasileiras, a primeira é ganhar dinheiro para arcar com os tratamentos estéticos. Pesquisa revela que a insatisfação política atinge níveis recordes neste ano. Pessoas protestam contra a morte das baleias do Pacífico Sul; baleeiros respondem citando Moby Dick. Mais amor, assim que a gente der o fora daqui.
Tantas manchetes, tantas teses, mas nada disso parece suficiente para compreendermos o que é, o que está, o que se torna. Às vezes, ou sempre, uma sensação funciona melhor do que um argumento lógico. Os escritores tentam dar conta do mundo sem apelar a essas frasezinhas safadas, fazer diferente da tal publicidade parida por pós-adolescentes em madrugadas insones entre caixas de Pizza Butt e depois aplaudida, noticiada, premiada, eternizada como se fosse fina poesia. Ora, e elas não estão aqui do mesmo jeito? Se a literatura abarca o mundo, assim como o mundo abarca a literatura, os piores aspectos de um também pertencem à outra. Quando o belo se abriu para o grotesco, não como exceção, mas como regra – e isso já faz um tempão –, teria a arte implodido e desaparecido para sempre? É esse o motivo de todo o lixo exposto nos museus e nas livrarias? O fim! O FIM!!!
As previsões catastróficas ficam para os críticos. Os artistas só fazem e esperam para ver o que acontece.
Enquanto esperamos os entendidos se decidirem, a mídia já foi e voltou com suas explicações de mil e quatrocentos caracteres (Ainda é tudo isso? Quem lê texto tão longo? Corta pra 140! Ok, no máximo 280). Esperamos e lemos. Lemos e nos desesperamos. Calma, a arte salva (ou, em bom inglês: keep calm and buy a book). Mas onde está a arte nestes dias? Roda, roda. Você ganhou um carro autografado por aquele senhor simpático que já passou dos 80 anos mas ainda está em boa forma. São os ternos, é o laquê, é a voz. A voz do nosso tempo.
Ainda tô esperando pra ver onde isso vai dar. Mas esse capítulo me parece muito destoante do resto até agora. Parece sim, um "post normal" por aqui. :P
ResponderExcluirBem observado. A linguagem de internet vai entrar algumas vezes aqui mesmo. A literatura hj praticamente depende desse meio pra não acabar totalmente invisibilizada, então é isso.
Excluir"edição de luxo de Prepúcio encabeça a lista [...]". Muito bom!
ResponderExcluirAchei alguém que curte meu (mau) senso de humor...
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