Elegia da gente viva (parte 2, capítulo 4)

Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique aqui.

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PARTE 2: GRITO NO OUVIDO


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4. A história do mijo

 
Maringá, 05 de março de 201X.
 
Sala de espera do aeroporto. Enquanto não chamam para o embarque, registro uma cena familiar ocorrida há poucas horas. Depois de cinco dias hospedado na casa de meus pais e tendo conversado o mínimo com eles, dona Cylvana teve um surto de culpa e quis recuperar o tempo perdido (encara essa concorrente, Proust!). A técnica desenvolvida por minha mãe consiste nas seguintes etapas. Primeiro ela inventa de cozinhar todos os meus pratos favoritos de uma vez só, e eu sou obrigado a fazer das tripas estômago pra caber aquilo tudo. O passo seguinte é ver TV abraçados, hábito que nunca tivemos enquanto morávamos juntos, mas que ela deve ter visto numa dessas novelas em que a família inteira, incluindo parentes de graus distantes, mora e trabalha junto. Isso teria inspirado minha mãe a reintroduzir o uso de cordão umbilical na casa dos Modesto de Almeida, e eu que pago o preço desses roteiros chinfrins. Minha irmã, sortuda (ou gênia), refugia-se na invisibilidade dos bons filhos, os que nem tentam sair de casa, não causam problemas e conseguem construir uma vida plena dentro dos limites de seu quarto. Ela está lá tranquila, segura, enquanto minha mãe me submete à última sessão de intimidade forçada entre pessoas nada íntimas enquanto arruma minha mala. Poupar o filhinho do estresse pré-viagem? Que nada, é um estratagema vil dessa senhora para fortalecer seu poder sobre vassalos e visitantes que nem moram mais ali – meu caso. Como quem não quer nada, entre um “passa aquela meia” e “cadê o par de chinelos que a vó te deu?”, ela me extrai os pensamentos mais íntimos para, sutilmente, envenenar um a um. Eu só permito isso tudo como um gesto abnegado de amor filial e porque até hoje não aprendi como ela faz tudo caber tão tetrixmente na mala.

Desta vez, ela criticava uns amigos meus que estrearam uma peça no Teatro Um Mil em Ação, que eu antes grafava como “Teatro Humilhação” até descobrir a versão correta, bem menos adequada à decadência do local. Mesmo ignorando a infeliz alcunha do auditório, minha mãe repudiava minha relação com aquela gente, porque os atores são os piores, tudo sodomita e maconheiro. A conversa ia nessa linha, quando eu a interrompi:

— Mãe, e a Úrsula, você se lembra dela?

— Aquela alemãzona do prédio da frente?

— Isso, ela estudava no meu colégio, lembra? Faz uns anos que ela mudou, não avisou ninguém pra onde ia, simplesmente sumiu. Esses dias ela me ligou, nem sei como conseguiu o número novo, disse que ainda morava nesta rua, só que noutro prédio, não quis contar qual. Ela falou que sempre me vê quando estou visitando vocês, mas que eu nunca reconheço ela. Achei estranho demais isso. Será que ela mudou tanto assim? Será que sofreu um acidente e ficou deformada? Você, por acaso, nunca viu ela por aqui no bairro, viu?

— Eu não, filho. Mas convenhamos, que menina esquisita! Aliás, um amigo pior que o outro esses que você arruma! É atriz também? Com aquela voz grossa, aposto que virou sapatona.

— Não sei te dizer, mãe, mas se você quiser eu pergunto na próxima ligação. Só não garanto quando vai ser, porque, quando tentei ligar de novo, deu número inexistente, daí fica dependendo de a Úrsula ligar de novo. Antes do alô, pra não perder tempo, eu já começo dizendo que você quer saber se ela gosta de...

— Cruz-credo, menino! Não faço questão de nada, não. Mas por que você quer saber dessa garota? Se ela sumiu sem avisar, é porque não se importa com ninguém, esquece ela. Você precisa é pensar em você mesmo, no seu futuro, parar de agir que nem adolescente, sair desse chove-não-molha. Tantos anos em São Paulo, a faculdade terminou faz o que... dois anos já! Por que você não volta pra casa, filho? Fica lá dando o sangue nuns empregos mais ou menos, e pra quê? Trabalhar doze horas por dia, domingo a domingo, e ganhar menos que a zeladora do nosso prédio, aquela inútil da Roseli, que só fica de conversa mole lá na portaria. Se você voltasse, ia ser muito mais fácil. Até namorada arrumava em dois tempos, e bem melhor do que aquelas paulistanas esnobes. A filha da Lurdinha mesmo. Terminou o namoro esses dias, dezenove anos, bonita a moça, sempre ficava te olhando quando vocês eram crianças, lembra? Ela faz Direito, tem futuro essa menina, e bonita, você escutou? Quando a gente vê, nem reconhece a mesma Ranheta do parquinho.

— Que viagem, mãe! Desde quando o assunto era o meu futuro? Vou muito bem, sou adulto, sei o que faço, não preciso de ninguém pra trocar minhas fraldas. E não quero falar de mim, quero falar da Úrsula.

— Então fala, seu grosso, mas se quiser saber minha opinião nem precisa perguntar. Já entendi que pra você eu só sirvo pra lavar, passar e pôr comidinha na mesa...

Minha mãe voltou sua atenção pra mala. Trabalhava teatralmente ressentida. Justo ela, que repudia tanto os atores, se daria bem no ramo, aposto. Em algumas roupas se demorava mais, cheirava e alisava pra tirar uma sujeira ou um amassado que só ela via. Eu sabia o significado daquela cena. Ela também sabia que eu sabia. Era um sermão silencioso pra eu não deixar as camisas brancas encardirem e em defesa do ato de passar as roupas. Conheço bem a figura, enquanto eu não implorasse o seu perdão, ela não diria um “a” nem pra brigar comigo, pelo menos durante os longos dois minutos que ela aguentasse permanecer em silêncio, como se receber uma bronca fosse um privilégio que me era negado. Tanto melhor, assim eu poderia falar o que quisesse sem ser interrompido.

Aliás, por que diabos fui escolher logo minha mãe pra conversar sobre isso? Talvez a pergunta não fosse “quem”, mas “onde”. Minha mãe era a última pessoa conhecida da terrinha que eu veria antes de voltar para São Paulo, e esse é assunto pra se dizer ao vivo, do coração direto pra boca. Lá no meu trabalho até tem um pessoal que me ouviria mais ou menos de boa vontade, na hora do café, mas daí eu que não ia conseguir falar. São Paulo faz tudo parecer pequeno, banal, bobo até. Eu seria o primeiro a julgar aquela história fruto de sentimentalismo provinciano. Também não posso negar a possibilidade de que o poder psíquico da dona Cylvana pra arrancar segredos tivesse se aprimorado. Então, que seja ela minha confessora, ao menos ela sabe de quem estou falando. Talvez ela até aprenda com isso, ou talvez me ensine algo. Tenho meus momentos de credulidade.

— Eu tava aqui lembrando de uma madrugada em que a Úrsula e eu ficamos conversando lá embaixo, sentados no meio-fio. Acho que essa foi a última vez que ela se abriu comigo antes de me virar a cara no colégio e sumir do mapa. Ela me parecia cansada demais, até pra falar fazia um baita esforço, às vezes tinha que parar no meio da frase pra tomar fôlego, mas entendi que ela queria me contar algo importante e eu também não tava com sono, acabamos ficando umas tantas horas lá embaixo. No fim, a tal coisa importante não saiu, só falamos de coisas abstratas; a maioria, histórias que inventávamos na hora, ela sempre se divertia com as mentiras que me contava. Eram umas quatro e meia, lembro que já dava para ouvir os primeiros barulhos da manhã, quando ela disse que precisava mijar. Achei que era a deixa pra encerrarmos por ali, falei pra ela usar o banheiro da casa dela, que não ia levar nem um minuto para subir de elevador àquela hora. Ela respondeu que não conseguia e mudou de assunto. Continuamos conversando por mais uns quinze minutos, depois veio um silêncio absoluto, até grilos e rouxinóis calaram a boca nessa hora. Nada de tão absurdo até aí, tava dentro do padrão de bizarrice daquela noite. O susto veio quando notei uma poça amarela crescendo ao redor dos pés da Úrsula. A urina escorria discreta pela calça jeans grossa e larga, sem denunciar o molhado ou fazer qualquer barulho, retardando ao máximo a surpresa, que apenas se revelava no destino final, a calçada. Quando ela terminou de alimentar a poça, percebi que a gente precisava reagir àquilo de algum jeito. Mal a gente se olhou, nem teve dúvida, simplesmente rachamos o bico de tanto rir. Rimos até a barriga começar a doer, ela até mijou mais um pouco de tanto dar risada, o que me fez redobrar o riso. E foi assim que a gente devolveu o som para o mundo. Já dava pra ouvir o barulho estrondoso do caminhão de lixo e dos primeiros ônibus que saíam da garagem rumo ao terminal. Naquela madrugada, a normalidade foi resgatada por uma mijada, e a gente tratou de voltar pras nossas camas antes que o sol desse as caras. Assistir ao amanhecer ia estragar o espírito da coisa toda, adoçar o que tinha que ser acre. Admirei demais a Úrsula nesse dia. Eu mesmo já mijei na rua – não me olhe com essa cara, acontece, oras –, a diferença é que eu sempre tive o cuidado de abrir a braguilha.

Com essa confissão, percebi que havia ultrapassado os limites de minha mãe, que encontrava dificuldades pra empacotar o resto das coisas e tampouco conseguia articular verbalmente sua revolta. Consegui o milagre de deixar ela sem resposta! Só abriu a boca depois de terminar, a custo de manobras mirabolantes e pouco recomendadas pra amadores, sua obra-prima: várias camisetas, bermudas, meias, cuecas, chinelos, tênis e potes de comida perfeitamente encaixados dentro de uma mala de mão. Apenas me aconselhou a tomar cuidado na viagem e a... Opa! Última chamada pro embarque. O que dona Cylvana não diria sobre essa minha distração?

Comentários

  1. Uma única observação: a imagem de que as cigarras e rouxinóis se calaram me pareceu confusa. Às 4h 45min. nem um nem outro estariam acordados. Seria uma expressão que desconheço? Enfim... Gostei do narrador nesse capítulo, assim como tem ficado legal a alternância das vozes no decorrer dos capítulos. Nesse capítulo, a rememoração do narrador em um tom informal ficou boa. E a imagem do mijo já traz muitos elementos pra pensar a Úrsula.

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    1. Obrigada pela dica! De fato, as cigarras foram um lapso, já substituí lá por "grilos". Quanto aos rouxinóis, tinha pesquisado no Google que eles podem cantar à noite. Mas é Google... se alguém souber com certeza, agradeço.

      As interações já estão se mostrando positivas para a qualidade do texto. Haverá salvação para meu romance?

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