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Diário de uma mestranda [3]

Salva a versão final da dissertação, sinto que mereço um pequeno luxo. Acabo a noite sozinha em casa, ouvindo "Estou triste" e tomando um vinho de sete reais. Talvez eu fosse mais rica antes de ser (quase) mestre. Penso em tudo que sacrifiquei para obter este pequeno mérito. Valeu a pena? Fuck yeah! (Qual é o objetivo em dizer "não" para a única coisa que possuo, a vida presente? Se pensasse que não valia a pena, melhor era meter um tiro na cabeça. Mas cá estou ridente, tagarela e levemente cínica.)

Abortos: Cegueira

Foi Marta que reparou em Carmem primeiro. Esta, distraída, só flagrou sua admiradora dois meses depois e, apesar do atraso, gostou do que viu. As duas frequentavam o mesmo bar, falavam com as mesmas pessoas e agora sabiam da existência uma da outra, mas nunca acontecia de cruzarem os olhares. Passaram semanas naquele blefe de vesgos, nenhum avanço. Um dia, o álcool tomou a iniciativa por elas. Beijo macio e cheiroso às escuras. Houve até mãos dadas, só se esqueceram de combinar como seria às claras. E a manhã chegou certeira e calada. Acenaram-se de longe, nada mais. Dia após dia, o cumprimento era sempre o mesmo, simpático, frio, uns tantos quilômetros entre elas. À distância, o campo de visão abrangia outras pessoas, gente demais, ninguém importante – mas como iam saber isso? Achaques, teorias, desistiram de entender. Três semanas depois, se toparam no boteco de sempre, cada qual levava um candidato a namorado pela mão. Constrangidas, desviaram o olhar e fingiram que não se conheciam...

Abortos: Volta

Neuza esperou até o táxi virar a esquina e se arrastou para dentro de casa, com a solenidade que a vizinhança esperava dela. Assim que fechou a porta, correu ligar o rádio e dançou ao som de Juliano e Jandaia. Em 32 anos de casamento, era a primeira vez que tinha a casa toda só para ela, motivo mais do que suficiente para comemorar. Férias das faxinas diárias, dos almoços completos, das trocas semanais de lençol – homem sua demais! Deitou no sofá, ligou a TV, riu ao pensar que, às 18h45, ninguém reclamaria da geladeira mal abastecida. No segundo dia, repetiu à risca sua nova rotina. Com três décadas de cansaço acumulado, tinha todo o direito! Sem perceber, pegou a mania de vagar pelos cômodos da casa e começou a encarar a TV antes como um consolo do que uma opção. Apesar disso, tomava sua dose diária de tédio e falta de sentido. Mudanças arriscam pioras, e ela preferia o mal conhecido. Depois de 41 dias, quando Nestor voltou, ela se sentiu salva. Para não parecer dependente, soltou um ...

Abortos: Aparição

Tristão, cansado de ser um sacana fodido eternamente de ressaca, rendeu-se à sociedade. Parou de faltar nas aulas, aderiu aos banhos diários, arrumou um estágio. Para o pacote ficar completo, só lhe faltava uma namorada de boa família. Mas isso já estava encaminhado: há tempos observava Lílian, tão rosada que parecia feita de uma substância impermeável à sujeira. Ela gostou do jeitinho vagabundo dele por baixo da crosta de bom moço, entenderam-se. Ao cabo daquela primeira semana de romance, ele confessaria aos colegas de bar que estava perdido, condenado a agir certo. Resistiu aos maus instintos o quanto pode, mas, um mês depois, quando a moça lhe disse “eu te amo”, ele surtou. Sumiu por seis dias, voltou todo estropiado, nunca mais procurou Lily, que agora estava mais pra amarela do que pra rosa. E haja tática de guerrilha para evitá-la, pois essa daí agora passava quatro horas todo dia, divididas rigorosamente em dois turnos, sentada na porta do prédio dele. Eles até se toparam algum...

Abortos: Amor livre

Um mês saindo juntos, a coisa se encaminhava para um namoro. Bebeto pensou em aproveitar a data para fazer o pedido formal a Antônio. Na manhã do grande dia, ele não se aguentou e contou suas intenções para metade dos colegas de escritório, virou um happening na hora do cafezinho, quem não gosta de um segredo coletivo? O incentivo foi unânime, jovens e bonitos daquele jeito tinham mais é que oficializar a relação, um desperdício que não pudessem também gerar filhos! No dia seguinte, o pessoal clamava pelo relato completo. Bebeto, então, revelou todos os detalhes da noite passada: como quem não quer nada, ele começou perguntando se os dois estavam saindo só um com o outro. Para a surpresa dele e de todo o escritório, a resposta foi “não”, completada por um “estamos de boa” – seja lá o que isso signifique. O jovem apaixonado se achou ridiculamente ingênuo por ter cogitado um namoro, nem chegou a fazer o pedido e, para não ficar para trás, começou a sair com outras pessoas. Isso magoou An...

Abortos: Bad reputation

Quando uma fêmea passava por Alex, os olhos se arregalavam, as narinas farejavam, as unhas se atiçavam. Típico lobo mau. Antes de terminar o chocomilk matinal, ele já havia escaneado todo o pátio do colégio e selecionado as potenciais vítimas do dia. Desta vez, arriscaria um golpe mais ousado: infiltrar-se na roda das Lovely Lambs, as cinco bad girls do último ano. Elas ostentavam make-up completo às 7h15, fumavam e só saíam com homens mais velhos. No recreio, a abordagem do calouro foi fina, bem bolada: “Alguém afim de fumar um depois da aula?”. Ele entrou para o grupo imediatamente. Naquela semana, dormiu cada noite na casa de uma delas, moças insaciáveis. Na sexta-feira, elas morreram de rir ao constatar que ele ainda vestia a roupa de segunda. Passados sábado e domingo, Alex naturalmente quis recomeçar o rodízio. Elas, por sua vez, gozaram da ingenuidade dele: figurinha repetida não enche o álbum, filho. Ele saiu com o rabo entre as pernas. O que lhe sobrava em desejo, faltava em e...

Abortos: Maiores de idade

Qual é o oposto de pedófilo? Janaína era essa palavra que falta ao nosso vocabulário. Ela dizia coisas como “adoro uma barba grisalha”, “olha que charme esse suéter bege”, “ai, que sexy a tossinha seca dele, tão subversiva”. Bom, fetiche é fetiche. Aos 25, casou-se com Mário, que estava no auge de seus 68. Bem que a mãe alertou, mas a moça foi teimosa, e ninguém se espantou quando ela comunicou estar arrependida da união apressada, exceto pelo motivo: Jana viu no baile do Carinhoso uns oitentões bem pimpões – por que diabos quis sossegar tão cedo? O marido, ciente do preço de sua sorte, comparecia todos os dias com flores e carícias, amante à moda antiga. Quanto mais ele agradava, mais ela se irritava. Se quisesse um homem tão ativo, tinha escolhido um rapaz da idade dela. Mário respondia que, se quisesse uma esposa tão ranzinza, tinha continuado com a ex-mulher. Ele logo encontrou consolo nos braços de Mara, 77, assídua frequentadora do Carinhoso que esperava por essa chance há pelo m...

Abortos: A terceira

Georgette dizia que nunca teria filhos. Arruinava o corpo, favorecia que o marido olhasse para as sirigaitas. Ela chegou aos 35 anos em boa forma, o que não impediu Robson de traí-la às vésperas dos dez anos de casamento. Pior foi o amadorismo dele, com camisinhas esquecidas no carro, SMS comprometedores de um tal de Nicolas, que na verdade era Nicole, e tudo o mais. A separação foi imediata, só não foi mais rápida que a saudade que se seguiu. Georgette logo cedeu aos convites do ex-marido para aquele restaurante romântico, um motelzinho quatro estrelas e, quando percebeu, estavam namorando. Se aquela situação já não parecia bastante juvenil, piorou quando constataram a gravidez acidental. Robson se sentiu aliviado com a notícia: ser namorado, amante e Dom Juan aos 49 anos dá um trabalhão, ele enfim poderia voltar a ser apenas o marido. A futura mamãe, por sua vez, entrou num estado de choque que só foi piorando. Sempre haveria alguém entre o casal. Se não fosse a amante era a criança....

Abortos: Dai as mãos

Tônia se sentia abençoada. Vivia um daqueles raríssimos primeiros encontros sem medo ou mentira – imaculado. Noite quente, conversa farta, as sardinhas dele no nariz, uma vontade de amor incondicional despertada pelo filme do Wes Anderson. Agora caminhavam pelo calçadão vazio, o barulho da bicicleta levada de lado lembrava o do projetor. A menina desempenhava seu papel confiante, relaxou até demais, cedeu ao diabo, agarrou a mão do amigo. Corta! Oh, horror, o que eu fiz, meu Deus? Ela soltou no susto, quis morrer para não ter que explicar. Desculpa, desculpa, sei que é muito cedo, não somos namorados. Tiago ainda riu, disse que dar as mãos não era pecado, mas a infratora assumiu a culpa irredutível, exilou-se em si mesma. O jeitinho bobinho dela o fez sorrir. Se ela não tivesse arrancado os próprios olhos, talvez tivesse notado. Ele quis ampará-la, mais de uma vez procurou a mão dela, que sempre fugia, não precisava da piedade de ninguém. No fim, nem a lua onipresente no céu pôde trans...

C.

amar sempre independente da maré e dos males plantados colhidos comidos cuspidos na cara amar sem esperar o mérito a ocasião a recompensa o príncipe amar já sem amargar amar no ódio não por causa dele mas apesar dele amar o outro em nós mais do que nós no outro amar sem possuir amar os sem posses amar por si amar em silêncio amar concretamente na poesia no asfalto na asia ao mar, sem medo!