Abortos: Cegueira

Foi Marta que reparou em Carmem primeiro. Esta, distraída, só flagrou sua admiradora dois meses depois e, apesar do atraso, gostou do que viu. As duas frequentavam o mesmo bar, falavam com as mesmas pessoas e agora sabiam da existência uma da outra, mas nunca acontecia de cruzarem os olhares. Passaram semanas naquele blefe de vesgos, nenhum avanço. Um dia, o álcool tomou a iniciativa por elas. Beijo macio e cheiroso às escuras. Houve até mãos dadas, só se esqueceram de combinar como seria às claras. E a manhã chegou certeira e calada. Acenaram-se de longe, nada mais. Dia após dia, o cumprimento era sempre o mesmo, simpático, frio, uns tantos quilômetros entre elas. À distância, o campo de visão abrangia outras pessoas, gente demais, ninguém importante – mas como iam saber isso? Achaques, teorias, desistiram de entender. Três semanas depois, se toparam no boteco de sempre, cada qual levava um candidato a namorado pela mão. Constrangidas, desviaram o olhar e fingiram que não se conheciam.

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Da série "Abortos", leia também:
Volta
Aparição
Amor livre
Bad reputation
Maiores de idade
A terceira
Dai as mãos

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