Abortos: Volta

Neuza esperou até o táxi virar a esquina e se arrastou para dentro de casa, com a solenidade que a vizinhança esperava dela. Assim que fechou a porta, correu ligar o rádio e dançou ao som de Juliano e Jandaia. Em 32 anos de casamento, era a primeira vez que tinha a casa toda só para ela, motivo mais do que suficiente para comemorar. Férias das faxinas diárias, dos almoços completos, das trocas semanais de lençol – homem sua demais! Deitou no sofá, ligou a TV, riu ao pensar que, às 18h45, ninguém reclamaria da geladeira mal abastecida. No segundo dia, repetiu à risca sua nova rotina. Com três décadas de cansaço acumulado, tinha todo o direito! Sem perceber, pegou a mania de vagar pelos cômodos da casa e começou a encarar a TV antes como um consolo do que uma opção. Apesar disso, tomava sua dose diária de tédio e falta de sentido. Mudanças arriscam pioras, e ela preferia o mal conhecido. Depois de 41 dias, quando Nestor voltou, ela se sentiu salva. Para não parecer dependente, soltou um “meus dias de paz acabaram”. O marido, que havia passado as 28 horas de estrada planejando abraçar sua Nenê, apenas perguntou o que havia de bom para comer.

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Aparição
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Bad reputation
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A terceira
Dai as mãos

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