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De volta

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Estive lá fora. Há muito para ver e sentir e fazer. Mas nada que se compare àquilo que a literatura já me dava. A vida dentro dela é mais intensa e perfeita. A gente enxerga certas coisas com mais nitidez quando toma distância. Estou a cada dia mais convicta de que o belo só desponta em meio ao feio. Mesmo um rei em seu palácio de marfim, servido pelas escravas mais lindas e degustando os pratos mais deliciosos, pode considerar, em algum momento, que não possui sequer o necessário. É preciso sair, para poder voltar prenhe de sentidos e, um dia, querer sair de novo. (Sob a égide de “Cidades invisíveis”, de Ítalo Calvino, um livro que só cresce quanto mais me distancio daquela primeira e frustrada leitura.)

O dia em que resolvi parar de ter aquelas conversas profundas sobre o sentido da vida e comecei a vivê-la

Um dia produtivo, daquele tipo que adoro. Eu voltava para casa de bicicleta, satisfeita e cansada. O problema foi o horário: ainda eram sete horas da noite. Vislumbrei a cena. Eu abriria a porta, seria recebida por aquele silêncio denso, não teria ninguém para quem ligar, nenhum bicho para alimentar, só restaria o computador e o trabalho pendente. Se encarasse mais uma dose de obrigação, arruinaria aquela quinta-feira, que já estava na medida certa, e iria dormir com a sensação de mais outro dia repetido, igual ao anterior e ao anterior e ao anterior. Enrolei-me no caminho de volta, esperando uma solução mágica. Foi então que encontrei rostos conhecidos. Gente de quem nem gosto muito, mas era uma oportunidade de conversar. Fiquei superexcitada, me atropelei, falei mais do que devia. Quando me dei conta, revelava àquelas pessoas de quem nem gosto muito o quanto eu vinha me sentindo solitária. E isso já faz uns quatro anos, mas elas supuseram que era uma condição que se arrastava de ap...

Anna Karenina e a claustrofobia

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Toda sala de cinema é um pouco claustrofóbica. Ar parado, poltronas e piso infestados de ácaro, escuridão densa, estranhos sentados perto demais (e às vezes cutucando suas costas), barulho de mastigação, sussurros, o chato que faz shhhhh para impor ordem até no momento de lazer... Mas aí o filme começa, e uma janela de luz se abre bem à sua frente. Você se esquece do ambiente sufocante, desprende-se do seu ego mesquinho e viaja livremente. Bom, se você estiver assistindo a “Anna Karenina”, de Joe Wright, não é bem isso que acontece. Primeira cena, um palco de teatro. A cortina se abre e se inicia um giro frenético através de múltiplos cenários. Muitas portas, cortinas, cordas, escadas. Dezenas de personagens povoam esses ambientes móveis, preocupados com os próprios assuntos pessoais, indiferentes à coreografia que rege a todos, um compasso tão falso! Já viram algum filme do Peter Greenaway (sugiro “O bebê santo de Macon” para quem tiver estômago)? O jogo é bem parecido, fiquei ...

Como se dar bem

Faz o seguinte. Pega uma mina insegura e dá bola pra ela, assim de leve. Quase toda gostosa se odeia, se acha feia-chata, tá louca por um pouco de tapa na cara dum cachorrão que nem você. É fato. Aproveita, cara. É o que todas elas querem. Até as que não parecem são umas vadias loucas. Daí você faz aquela função, passa o fim de semana junto, fala dos assuntos dela, olha no olho, dá um pouco do mel pra ela provar. Tá me acompanhando, né, nem preciso dizer mais nada. É isso aí. Faz ela acreditar que você tá abrindo mão do seu precioso tempo livre por ela. Não tem erro. Só não esquece de deixar bem claro que você gosta dela apesar de ela ser a merda que é. Vai semeando, dizendo que o mundo inteiro lá fora não presta, que só você se salva, que ela tem sorte de tá perto, que nem você entende o que tá acontecendo, mas que você é verdadeiro demais pra ir contra, vai indo de boa, só você sabe o que é a vida, o que fazer com ela. Ensina ela quem manda, quem é a pessoa interessante da relação e ...

Diário de uma mestranda [2]

Às vezes quando eu abro o documento de Word da minha dissertação, vejo que tem algumas páginas a mais do que eu me lembrava. É raro, mas acontece. Desconfio de que, quando eu estou longe do computador, um duende faz o trabalho por mim. Dilema 1: isso é plágio? Quando eu leio as novas inserções, percebo que elas não têm pé nem cabeça. Apesar disso, nunca apago. Vou lapidando até aquilo fazer algum sentido. Nem sempre consigo. Dilema 2: devo contar ao meu orientador sobre o duende quando ele meter o pau no que escrevi?

Diário de uma mestranda [1]

Hoje tive um ótimo insight para a dissertação enquanto cagava. Talvez o Lactopurga seja a solução para os meus problemas acadêmicos. Uma dúvida: devo mencioná-lo na dedicatória?

Um poema de Paulo Leminski

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[sem título] um passarinho volta pra árvore que não mais existe meu pensamento voa até você só pra ficar triste LEMINSKI, Paulo. Toda Poesia . São Paulo: Companhia das Letras, 2013. p. 70

Sobre o amor

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"O amor é uma grande estranheza: aí estão dois, cada um deles uma estrela diferente, e ninguém pode saber jamais sobre o outro. E de repente não há mais distância nem tempo, e eles se precipitam um sobre o outro, de modo que não sabem mais nada de si nem nada um do outro, e também não precisam saber mais nada. Isso é amor." BROCH, Hermann. Esch ou a anarquia / 1903 . São Paulo, Benvirá, 2011. p. 176. Esse livro não trata muito do amor, a passagem citada é um pequeno desvio do tom geral da obra, que trata da decadência de valores. Broch é altamente irônico diante das relações interpessoais modernas (tudo entra numa grande contabilidade, ganhos e sacrifícios). Esta é uma obra prima que pouca gente leu, recomendo!

Abusar

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Entre as muitas vantagens do modo de vida moderno, está poder se sentar ao lado de um estranho no ônibus sem temer que ele vá te agredir repentinamente. A casca da civilidade garante que disfarcemos nossas emoções em locais públicos e, assim, não joguemos merda no ventilador quando estivermos putos. Você pode odiar seu vizinho, mas o “bom dia” é uma promessa de que vão dividir em paz o espaço que habitam. Agora, o que acontece com certas pessoas que até conseguem seguir essas regras básicas de convivência, mas não as levam para a vida pessoal? Por que depois de ganhar intimidade suficiente há quem vire um pequeno demônio, respondendo torto, xingando e abusando de quem ama? Que lógica existe em tratar bem os desconhecidos e martirizar os amigos e familiares? Desconfio de que alguns indivíduos se importam mais em aparentar para a sociedade bondade do que em realmente ser bons. Só não sei se isso dá conta de explicar o abuso moral que muitos praticam contra os entes queridos. Me...

Sobre o pecado

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Parafraseando Santo Agostinho em "A verdadeira religião". Todas as coisas são boas, porque foram criadas por Deus. Existem, porém, bens maiores e bens menores. Os maiores são os espirituais, que nos aproximam da Verdade, da eternidade, enfim, de nosso Criador. Os menores são os bens materiais, tudo aquilo que experimentamos pelos sentidos e que estão à mercê do tempo. Estes são verdadeiros, porque provêm da Verdade, mas não devem ser confundidos com a própria Verdade. Os bens menores se transformam, se deterioram, acabam. Tudo isso nos causa pesar. O pecado não é inerente a essas coisas, porque, como já dissemos, elas são boas. O pecado ocorre quando baseamos nossa vida nos bens menores. Quem escolhe aquilo que está fadado a sumir está escolhendo o sofrimento, isto é, o pecado. O pecado não foi criado por Deus, que é essencialmente bom. O pecado é a consequência de se usar mal o livre arbítrio. Deus nos fez livres por desejar que os servíssemos livremente. Além do m...