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Para perder o cabaço

I. Preliminares É do conhecimento de todos os dois leitores deste blog que eu venho sofrendo de um terrível bloqueio. Depois de um tempo sem postar, porque estivera ocupada descascando abacaxis acadêmicos, simplesmente esqueci o caminho da roça. Cheguei a calçar as botinas, olhar para o céu procurando sinal de chuva, aprontar a quentinha... mas tudo não passava de um ensaio sem fim. Se não me engano, foi o Bilbo Bolseiro quem disse “sair de casa é algo perigoso: você dá o primeiro passo e não sabe onde vai parar” (citação não literal, baseado na minha memória nada-confiável). Decidi seguir o exemplo desse grande hobbit. Claro que não vou logo de cara caçar tesouros guardados por um dragão. Por ora, pretendo ir até a taberna, tomar uma cerveja e voltar antes de escurecer. E que maneira melhor de praticar isso na blogosfera do que falar da minha vida? Sim, voltei a ter 14 anos de idade. Se é assim que se perde o cabaço, vamos lá. II. Hora do vamos ver Faz duas semanas que comec...

Caderno de poesia da aluna Sularien

Hoje li este poema na Folha de S. Paulo e achei muito bonito, por isso, copio abaixo para vocês. Medo Autor: Raymond Carver Tradução: Cide Piquet Medo de ver a polícia estacionar à minha porta. Medo de dormir à noite. Medo de não dormir. Medo de que o passado desperte. Medo de que o presente alce voo. Medo do telefone que toca no silêncio da noite. Medo de tempestades elétricas. Medo da faxineira que tem uma pinta no queixo! Medo de cães que supostamente não mordem. Medo da ansiedade! Medo de ter que identificar o corpo de um amigo morto. Medo de ficar sem dinheiro. Medo de ter demais, mesmo que ninguém vá acreditar nisso. Medo de perfis psicológicos. Medo de me atrasar e medo de ser o primeiro a chegar. Medo de ver a letra dos meus filhos em envelopes. Medo de que eles morram antes de mim, e que eu me sinta culpado. Medo de ter que morar com a minha mãe em sua velhice, e na minha. Medo da confusão. Medo de que este dia termine com uma nota infeliz. Medo de ac...

Crime em família - parte final

(Não sabe do que se trata? Leia a parte 1 .) A pedido do meu neto mais velho, volto para terminar o relato do caso que comecei a investigar há algumas semanas. Sim, o mistério da dona Geraldinha foi resolvido, mas de forma tão sinistra que preferiria nunca mais pensar no assunto. Na verdade, nem entendi bem por que tenho que continuar. O Matheus só disse: “Vó, a senhora é a nova celebridade do Twitter. Tá todo mundo louco para saber a solução do caso. Não vai amarelar, hein?”. Preferi não perguntar quem era esse tal de Twitter para não passar por desatualizada. Imagino que seja alguém muito importante, no nível do Faustão ou da Ana Maria Braga. Tem também aquele mocinho do Fantástico que fala umas coisas muito engraçadinhas. Não lembro o nome, talvez seja até da turma do Twitter. Vou prestar mais atenção no próximo domingo. Onde havíamos parado mesmo? Ah, sim, lembrei. Depois que eu vi o rapaz mexendo na fechadura do restaurante, fiquei desconfiadíssima. Passei várias horas de bu...

Shopping, a gaiola das neuróticas

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O quadrinho acima saiu hoje na Folha. Não resisti e resolvi tirar um minuto para compartilhar aqui com vocês. Quem sabe um dia ainda não escrevo um texto de punho próprio? Piano, piano, estou tentando voltar à normalidade.

Pergunta e resposta

Por que eu não apareço há um mês e meio? Porque estou tentando recuperar a concentração perdida para me arriscar na carreira acadêmica. Este post do blog "link", do Estadão, explica melhor meu argumento: Concentração e Distração 6 de junho de 2010| Por Reuters Quando o escritor norte-americano Nicholas Carr começou a pesquisar se a internet estava arruinando nossas mentes, assunto de seu novo livro, ele restringiu seu acesso à internet, deu um tempo no e-mail e desligou suas contas no Twitter e no Facebook. Em seu novo livro The Shallows: What the Internet is Doing to Our Brains, ele diz que a rede está nos privando da capacidade aprofundada de raciocínio. “Minha falta de habilidade em me concentrar era uma grande falha. Por isso deixei o Twitter e o Facebook e voltei a checar e-mail apenas algumas vezes por dia, em vez de a cada 45 segundos”. Apesar de inicialmente se sentir “perplexo” com sua repentina ausência de conexão, Carr disse que em algumas semanas ele já ...

O Evangelho segundo Lula

Cristóvão Tezza Publicado em 7/04/2010 na Gazeta do Povo contato@cristovaotezza.com.br Sentindo-se solitário e triste na escuridão do final dos tempos, disse Lula: “Fiat Dilma!” E Dilma se fez. E Lula viu que estava razoável, contratou um instituto de beleza e outro de opinião, e viu que com ele ninguém podia, e resolveu separar os bons dos maus e a luz das trevas, para uma nova batalha celeste. E acalmou seu rebanho indócil e arregimentou profetas de outras colônias para sua nova missão; chamou os anjos mensaleiros, convocou os santos antigos e ungiu velhos inimigos convertendo-os à Guerra Santa pelo báculo Lulista. “Vai ser fácil!”, bradou ele na Assembleia do Purgatório, e os anjos abraçados fizeram “Hurra! Hurra! Hurra!” E Lula viu que isso era muito bom e foi descansar. E no segundo dia Lula resolveu desenterrar o Príncipe das Trevas, o satânico FHC, e viu que isso era bom; e lançou contra ele a Voz do Senhor, e separou as águas puras das impuras, o Bem do Mal, o Fim e o Iní...

Crime em família - parte 3

Adentrei o ambiente pestilento com a certeza de que, num momento de distração, acabaria tropeçando num cadáver. Para acabar com essa ansiedade, procurei logo a fonte do fedor. Vinha da cozinha. Graças a Deus, minhas suposições logo se mostraram infundadas. Tudo o que encontrei foram dois caldeirões de feijoada abertos sobre o fogão industrial. Deviam estar lá desde o sumiço de dona Geraldinha e sua família, isto é, cerca de cinco semanas. Imagine só todo aquele feijão fermentando e a carne de porco apodrecendo. Estava explicado o mau cheiro. Por via de dúvidas, dei uma busca geral por corpos escondidos. Tudo vazio e, à primeira vista, no seu devido lugar. O restaurante parecia pronto para atender os clientes: mesas postas, pilha de pratos e talheres limpos, travessas no buffet. Apenas uma fina camada de poeira e o cheiro, claro, indicavam o abandono do lugar. Pelo visto, naquele dia, eles se prepararam para atender, só que, entre as 10h30 e as 11h30, algum imprevisto aconteceu. D...

Crime em família - parte 2

O obstáculo que me aguarda nesta noite é mais árduo que qualquer mistério que Miss Marple já tenha resolvido. Um desafio quase impossível: colocar este corpo velho e maltratado na cena do crime. O local não é de tão difícil acesso. Trata-se de uma casa térrea, aproximadamente 100 metros quadrados, cercada por um pequeno quintal e protegida por três muros de dois metros e, na frente da fachada, uma grade de um metro que qualquer criança conseguiria pular. Pena que não seja o meu caso. Levei quase três dias para articular o plano. Nosso bairro é um dos últimos na cidade que ainda se pode considerar “de família”. Quando o relógio da igreja anuncia as 22 horas, já não há vivalma na rua. Todos em casa, assistindo à sua novela, se preparando para dormir. Isso me tirou um grande problema das costas: entrar sem ser vista. Oras, bastava sair à noite. Às 21h30, meu velho já roncava alto na poltrona. Sugeri a ele que fosse se deitar na cama, e lá se foi ele, resmungando o quanto eu o tornav...

Vida de estagiário pode virar série!

Dando uma pequena pausa na novela policial, eu tive que postar isto! Já adorava as tirinhas da "Vida de Estagiário", do Allan Sieber, agora posso também ver a adaptação para a TV! Achei que ficou muito boa e divertida. Dá de dez a zero na da Aline, da TV Globo. Vida de Estagiário from TV Brasil on Vimeo .

Crime em família

Há todos os elementos para esse ser um caso dos bons. Briga de família, desaparecimento, mistério. Esta ordem, presumo, seja como os fatos se sucederam, mas na minha profissão a gente vê tanta coisa que fica difícil abandonar de todo o ceticismo. Eu não me espantaria se primeiro tivesse acontecido o desaparecimento, que, por sua vez, causou a briga, aquela que muitos vizinhos testemunharam e que ainda hoje se comenta nas redondezas. Antes de prosseguir com as conjunturas sobre o caso “Dona Geraldinha”, apresento-me. Sou Miss Zampieri, detetive particular, mais conhecida como Dodô pelas amigas do clube de tricot e pelos poucos familiares mais velhos do que eu. Obviamente vocês estão pensando: eis a Miss Marple brasileira! Pensei o mesmo quando, entediada dos longos anos de aposentadoria, conheci essa simpática personagem de Agatha Christie. Somos idênticas na personalidade e nos hábitos, quem sabe, então, eu também não daria uma boa detetive? E não é que deu certo? Apesar do machismo ...