Crime em família - parte final
(Não sabe do que se trata? Leia a parte 1.)
A pedido do meu neto mais velho, volto para terminar o relato do caso que comecei a investigar há algumas semanas. Sim, o mistério da dona Geraldinha foi resolvido, mas de forma tão sinistra que preferiria nunca mais pensar no assunto. Na verdade, nem entendi bem por que tenho que continuar. O Matheus só disse: “Vó, a senhora é a nova celebridade do Twitter. Tá todo mundo louco para saber a solução do caso. Não vai amarelar, hein?”.
Preferi não perguntar quem era esse tal de Twitter para não passar por desatualizada. Imagino que seja alguém muito importante, no nível do Faustão ou da Ana Maria Braga. Tem também aquele mocinho do Fantástico que fala umas coisas muito engraçadinhas. Não lembro o nome, talvez seja até da turma do Twitter. Vou prestar mais atenção no próximo domingo.
Onde havíamos parado mesmo? Ah, sim, lembrei. Depois que eu vi o rapaz mexendo na fechadura do restaurante, fiquei desconfiadíssima. Passei várias horas de butuca, esperando algo novo acontecer. Mais dia menos dia, não é que ele voltou com sua caixa de ferramentas? Desta vez, fez o serviço completo, trocou a ferradura de todas as portas.
No dia seguinte, a movimentação aumentou. Eram pedreiros, carpinteiros, decoradores. Estava entendendo era nada. Por que aquela reforma repentina? E por que nenhum membro da família aparecera? Eu é que não esperaria mais para saber. Atravessei a rua e fui direto falar com o senhor que parecia ser o mais bem informado – era o único que, na hora do almoço, não sentava na calçada acompanhando as moças com olhares famintos.
“Bom dia! Eu sou representante aqui dos moradores do bairro, me chamo Doris Zampieri. Vim me oferecer para saber se estão precisando de alguma ajuda. Nós somos uma vizinhança muito unida, sabe.”
“Olá, dona Doris. Que gentileza a sua, nem sabia que existia esse tipo de coisa ainda. Eu sou o novo proprietário aqui do lugar. Meu nome é Aristides Mezenga. Está tudo certo por enquanto, muito obrigado. Estamos só fazendo uns ajustes e logo vamos inaugurar uma lanchonete da franquia Bob’s aqui.”
“Novo proprietário? O que houve com os antigos? Eles nem disseram que venderiam o restaurante...”
“Pois é. Pelo que fiquei sabendo eles estavam com problema de dinheiro. Venderam tudo pela metade do que valia e se mudaram para o interior. Não tenho do que reclamar, mas também dá um pouco de dó, né. Podia ser a família da gente nessa situação.”
Era só isso? Problema de dinheiro? Agradeci a atenção do seu Mezenga e fui para casa pensar um pouco enquanto terminava de tricotar um cachecol para o Gilmar. Essa cidade não tem dó, faz mais frio do que um cristão pode aguentar, não é à toa que os meninos vivem doentes.
**
Aquilo não me entrava na cabeça. Passei dias matutando, sem conseguir prestar atenção em nenhuma das novelas – também não perdi nada, hoje em dia é só pouca-vergonha. Eles não podiam estar falidos, porque a clientela deles era enorme. Tinha dinheiro entrando! Além disso, a gente bem percebe quando um estabelecimento vai fechar. Primeiro eles aumentam os preços, depois cortam os funcionários e, como último apelo, fazem algum tipo de superliquidação. Não houvera qualquer um desses indícios.
Saí para andar na esperança de que a mudança de ares me desse uma luz nesse caso. E não é que no caminho tive uma revelação do estilo do Dr. House? Vocês estão pensando o que? Desde que a Marildinha, minha filha, começou a me pagar TV a cabo, não perco um episódio. Aquilo lá é aperfeiçoamento para o meu trabalho, sabiam? Além do que – não contem para o meu velho – aquele médico é um pão! Não o House, o loirinho novinho... Mas isso também não vem ao caso.
Aqui no bairro, nos últimos anos, tornou-se comum a presença de sem-tetos. São famílias que um dia surgiram do nada e se instalaram nos terrenos baldios. Como eles nunca fizeram mal para ninguém, também não vimos motivo para chamar a polícia. De uma forma ou de outra, são nossos vizinhos, nos dão bom dia e tudo – ao contrário daquela insuportável dona Abigail, mulher do seu Machado.
Passando pela rua de trás do restaurante, os sem-tetos me chamaram a atenção. Estavam todos concentrados numa calçada, para onde levavam seus objetos pessoais, colchões, panelas e tudo. Eu não tinha intimidade suficiente para chegar perguntando o que houvera, mas diminuí o passo para pegar algum pedaço de conversa.
“Aquilo lá é gente, sim!”
“Aposto que foi os meninos do predião. Eles sempre xingava, dizia pra a gente caí fora. Deve ser armadilha deles, jogar comida podre pra nós sumir.”
“Tudo uns criminoso! Mataram alguém e ainda jogam na gente!”
Não tão discretamente, estiquei a cabeça para dentro do terreno de onde os mendigos saíram. Havia, esparramada no chão, uma espécie de lavagem, que eu logo reconheci como sendo feijoada apodrecida. Na verdade, uma feijoada bem familiar, a mesma que eu encontrara naquela noite no restaurante.
Não precisei de mais do que umas perguntinhas pelas redondezas para entender como aquilo acontecera. Os funcionários do seu Mezenga, quando encontraram aquela comida velha, acharam melhor arremessá-la no terreno baldio do que deixá-la fedendo na lixeira em frente ao restaurante. Como eles são novatos na região, não sabiam da presença dos mendigos. Esses, coitados, estavam no lugar errado e na hora errada. Foi feijoada respingada por tudo. Para piorar, eles logo identificaram no meio do feijão esverdeado orelhinhas e pezinhos que não eram de porco; eram de gente.
Quando soube dos boatos, ainda tive estômago para dar uma segunda olhada no local. Não havia dúvidas, a feijoada continha todo o corpo de um bebê picado, faltava apenas a cabeça. Os policiais interditaram o lugar, os jornalistas fizeram um alvoroço daqueles, mas – por que não estou surpresa? – a história ficou por isso mesmo. Sem aquele programa “Linha direta”, que era tão bom, tornou-se praticamente impossível encontrar um fugitivo. O criminoso estava por aí, sendo feliz, enquanto aquela alma inocente nem receberia um velório de verdade.
Depois de todas essas experiências, pedi abrigo a uma prima que tem chácara em Catanduvas. Lá, enquanto enchíamos compotas de doces e limpávamos frangos caipiras tão grandes que mais pareciam perus, elaborei minha teoria de como o bebê fora parar na comida.
A menina, por aqueles dias, vivia doente. A mãe até a levava ao médico, mas no fim das contas sobrava para a dona Geraldinha olhar e medicar a pequena. Na manhã fatal, imagino que, como sempre, ela estava apurada tentando dar conta das panelas e da neta. Bem no dia da feijoada, os desmiolados dos pais da criança sumiram e nem deram satisfações! Panela queimando, bebê chorando... Na raiva, a mulher pegou o bebê pelos pés e o enfiou no caldeirão borbulhante.
Quando se deu conta do que fizera, seu primeiro impulso deve ter sido o que de salvar a própria pele. Com o machadinho de destrinchar porco, não foi difícil picar aquele corpinho débil. Jogou os pedaços no feijão e, na hora do desespero, aquilo pareceu um embuste perfeito. Só a cabeça que não havia se misturado bem. Os cabelinhos, os olhinhos, os dentinhos de leite... Meteu aqueles pedaços em marmitas e lacrou. Em seguida, com a destreza aperfeiçoada em 35 anos como dona-de-casa, deixou a cozinha um brinco. Tudo isso antes de o marido, a filha e o genro virem abrir o restaurante.
Assim que o povo chegou, quase onze horas da manhã, dona Geraldinha avisou que tinha uma entrega para fazer e sumiu com as marmitas antes que alguém percebesse sua expressão alterada. A filha, gorducha, correu para o caldeirão onde estava a feijoada. Consigo imaginá-la perfeitamente com a colher na mão reclamando: “Ih, pai, acho que está na hora de a mãe se aposentar. Ela errou a mão do tempero de novo!”
Enquanto a difamada senhora se livrava da prova do crime, os pais relapsos finalmente perceberam que a menina não estava no restaurante. Foi esse o momento da gritaria, batata! O homem acusou a sogra. A filha defendeu a mãe, reclamou do marido. Este a chamou de obesa e, por muito pouco, não levou uma garrafada na cabeça.
Dona Geraldinha ainda ouviu uma parte da discussão quando voltava para o restaurante após a ‘entrega’. Isso a convenceu a nem entrar. Pensou: se tinha uma conta bancária polpuda, por que não cair no mundo? Aquilo de carregar família inteira nas costas não era vida.
Com o desaparecimento da matriarca, o restaurante nunca mais abriu. O casal, um acreditando que o sumiço da filha era culpa do outro, pediu o divórcio imediato. Sobrou só o seu Beto, limpando a bagunça final. Só não tocou no feijão, porque tinha nojo de lavar panela suja de comida – aquilo era tarefa de mulher! Naquela famigerada e longa tarde, ele trancou o restaurante sem nem tê-lo aberto ao público e se recolheu em casa à espera da mulher.
De dona Geraldinha, nem notícias. A versão que acabo de contar foi a que me pareceu mais plausível, mas eu mal durmo por não saber o que aconteceu de verdade, fato por fato. E pensar que eu fui amiga daquela monstra! Outro dia ainda, meu velho volta da banca de jornais com os olhinhos brilhando, sinal de que tinha uma fofoca para espalhar.
“Você não sabe quem eu vi, toda perfumada e de cabelos pintados... A dona Geraldinha! Ê, velha assanhada! Não quer saber de trabalhar, mas fica por aí, com aquelas pernas varizentas à mostra...”
Enquanto ele ia destilando o seu veneno senil, eu me perguntava como aquele homem podia ser tão desligado.
“E você nem perguntou por que ela sumiu?”
“Eu não! O que que eu tenho a ver com a vida dessa gente?”
A pedido do meu neto mais velho, volto para terminar o relato do caso que comecei a investigar há algumas semanas. Sim, o mistério da dona Geraldinha foi resolvido, mas de forma tão sinistra que preferiria nunca mais pensar no assunto. Na verdade, nem entendi bem por que tenho que continuar. O Matheus só disse: “Vó, a senhora é a nova celebridade do Twitter. Tá todo mundo louco para saber a solução do caso. Não vai amarelar, hein?”.
Preferi não perguntar quem era esse tal de Twitter para não passar por desatualizada. Imagino que seja alguém muito importante, no nível do Faustão ou da Ana Maria Braga. Tem também aquele mocinho do Fantástico que fala umas coisas muito engraçadinhas. Não lembro o nome, talvez seja até da turma do Twitter. Vou prestar mais atenção no próximo domingo.
Onde havíamos parado mesmo? Ah, sim, lembrei. Depois que eu vi o rapaz mexendo na fechadura do restaurante, fiquei desconfiadíssima. Passei várias horas de butuca, esperando algo novo acontecer. Mais dia menos dia, não é que ele voltou com sua caixa de ferramentas? Desta vez, fez o serviço completo, trocou a ferradura de todas as portas.
No dia seguinte, a movimentação aumentou. Eram pedreiros, carpinteiros, decoradores. Estava entendendo era nada. Por que aquela reforma repentina? E por que nenhum membro da família aparecera? Eu é que não esperaria mais para saber. Atravessei a rua e fui direto falar com o senhor que parecia ser o mais bem informado – era o único que, na hora do almoço, não sentava na calçada acompanhando as moças com olhares famintos.
“Bom dia! Eu sou representante aqui dos moradores do bairro, me chamo Doris Zampieri. Vim me oferecer para saber se estão precisando de alguma ajuda. Nós somos uma vizinhança muito unida, sabe.”
“Olá, dona Doris. Que gentileza a sua, nem sabia que existia esse tipo de coisa ainda. Eu sou o novo proprietário aqui do lugar. Meu nome é Aristides Mezenga. Está tudo certo por enquanto, muito obrigado. Estamos só fazendo uns ajustes e logo vamos inaugurar uma lanchonete da franquia Bob’s aqui.”
“Novo proprietário? O que houve com os antigos? Eles nem disseram que venderiam o restaurante...”
“Pois é. Pelo que fiquei sabendo eles estavam com problema de dinheiro. Venderam tudo pela metade do que valia e se mudaram para o interior. Não tenho do que reclamar, mas também dá um pouco de dó, né. Podia ser a família da gente nessa situação.”
Era só isso? Problema de dinheiro? Agradeci a atenção do seu Mezenga e fui para casa pensar um pouco enquanto terminava de tricotar um cachecol para o Gilmar. Essa cidade não tem dó, faz mais frio do que um cristão pode aguentar, não é à toa que os meninos vivem doentes.
**
Aquilo não me entrava na cabeça. Passei dias matutando, sem conseguir prestar atenção em nenhuma das novelas – também não perdi nada, hoje em dia é só pouca-vergonha. Eles não podiam estar falidos, porque a clientela deles era enorme. Tinha dinheiro entrando! Além disso, a gente bem percebe quando um estabelecimento vai fechar. Primeiro eles aumentam os preços, depois cortam os funcionários e, como último apelo, fazem algum tipo de superliquidação. Não houvera qualquer um desses indícios.
Saí para andar na esperança de que a mudança de ares me desse uma luz nesse caso. E não é que no caminho tive uma revelação do estilo do Dr. House? Vocês estão pensando o que? Desde que a Marildinha, minha filha, começou a me pagar TV a cabo, não perco um episódio. Aquilo lá é aperfeiçoamento para o meu trabalho, sabiam? Além do que – não contem para o meu velho – aquele médico é um pão! Não o House, o loirinho novinho... Mas isso também não vem ao caso.
Aqui no bairro, nos últimos anos, tornou-se comum a presença de sem-tetos. São famílias que um dia surgiram do nada e se instalaram nos terrenos baldios. Como eles nunca fizeram mal para ninguém, também não vimos motivo para chamar a polícia. De uma forma ou de outra, são nossos vizinhos, nos dão bom dia e tudo – ao contrário daquela insuportável dona Abigail, mulher do seu Machado.
Passando pela rua de trás do restaurante, os sem-tetos me chamaram a atenção. Estavam todos concentrados numa calçada, para onde levavam seus objetos pessoais, colchões, panelas e tudo. Eu não tinha intimidade suficiente para chegar perguntando o que houvera, mas diminuí o passo para pegar algum pedaço de conversa.
“Aquilo lá é gente, sim!”
“Aposto que foi os meninos do predião. Eles sempre xingava, dizia pra a gente caí fora. Deve ser armadilha deles, jogar comida podre pra nós sumir.”
“Tudo uns criminoso! Mataram alguém e ainda jogam na gente!”
Não tão discretamente, estiquei a cabeça para dentro do terreno de onde os mendigos saíram. Havia, esparramada no chão, uma espécie de lavagem, que eu logo reconheci como sendo feijoada apodrecida. Na verdade, uma feijoada bem familiar, a mesma que eu encontrara naquela noite no restaurante.
Não precisei de mais do que umas perguntinhas pelas redondezas para entender como aquilo acontecera. Os funcionários do seu Mezenga, quando encontraram aquela comida velha, acharam melhor arremessá-la no terreno baldio do que deixá-la fedendo na lixeira em frente ao restaurante. Como eles são novatos na região, não sabiam da presença dos mendigos. Esses, coitados, estavam no lugar errado e na hora errada. Foi feijoada respingada por tudo. Para piorar, eles logo identificaram no meio do feijão esverdeado orelhinhas e pezinhos que não eram de porco; eram de gente.
Quando soube dos boatos, ainda tive estômago para dar uma segunda olhada no local. Não havia dúvidas, a feijoada continha todo o corpo de um bebê picado, faltava apenas a cabeça. Os policiais interditaram o lugar, os jornalistas fizeram um alvoroço daqueles, mas – por que não estou surpresa? – a história ficou por isso mesmo. Sem aquele programa “Linha direta”, que era tão bom, tornou-se praticamente impossível encontrar um fugitivo. O criminoso estava por aí, sendo feliz, enquanto aquela alma inocente nem receberia um velório de verdade.
Depois de todas essas experiências, pedi abrigo a uma prima que tem chácara em Catanduvas. Lá, enquanto enchíamos compotas de doces e limpávamos frangos caipiras tão grandes que mais pareciam perus, elaborei minha teoria de como o bebê fora parar na comida.
A menina, por aqueles dias, vivia doente. A mãe até a levava ao médico, mas no fim das contas sobrava para a dona Geraldinha olhar e medicar a pequena. Na manhã fatal, imagino que, como sempre, ela estava apurada tentando dar conta das panelas e da neta. Bem no dia da feijoada, os desmiolados dos pais da criança sumiram e nem deram satisfações! Panela queimando, bebê chorando... Na raiva, a mulher pegou o bebê pelos pés e o enfiou no caldeirão borbulhante.
Quando se deu conta do que fizera, seu primeiro impulso deve ter sido o que de salvar a própria pele. Com o machadinho de destrinchar porco, não foi difícil picar aquele corpinho débil. Jogou os pedaços no feijão e, na hora do desespero, aquilo pareceu um embuste perfeito. Só a cabeça que não havia se misturado bem. Os cabelinhos, os olhinhos, os dentinhos de leite... Meteu aqueles pedaços em marmitas e lacrou. Em seguida, com a destreza aperfeiçoada em 35 anos como dona-de-casa, deixou a cozinha um brinco. Tudo isso antes de o marido, a filha e o genro virem abrir o restaurante.
Assim que o povo chegou, quase onze horas da manhã, dona Geraldinha avisou que tinha uma entrega para fazer e sumiu com as marmitas antes que alguém percebesse sua expressão alterada. A filha, gorducha, correu para o caldeirão onde estava a feijoada. Consigo imaginá-la perfeitamente com a colher na mão reclamando: “Ih, pai, acho que está na hora de a mãe se aposentar. Ela errou a mão do tempero de novo!”
Enquanto a difamada senhora se livrava da prova do crime, os pais relapsos finalmente perceberam que a menina não estava no restaurante. Foi esse o momento da gritaria, batata! O homem acusou a sogra. A filha defendeu a mãe, reclamou do marido. Este a chamou de obesa e, por muito pouco, não levou uma garrafada na cabeça.
Dona Geraldinha ainda ouviu uma parte da discussão quando voltava para o restaurante após a ‘entrega’. Isso a convenceu a nem entrar. Pensou: se tinha uma conta bancária polpuda, por que não cair no mundo? Aquilo de carregar família inteira nas costas não era vida.
Com o desaparecimento da matriarca, o restaurante nunca mais abriu. O casal, um acreditando que o sumiço da filha era culpa do outro, pediu o divórcio imediato. Sobrou só o seu Beto, limpando a bagunça final. Só não tocou no feijão, porque tinha nojo de lavar panela suja de comida – aquilo era tarefa de mulher! Naquela famigerada e longa tarde, ele trancou o restaurante sem nem tê-lo aberto ao público e se recolheu em casa à espera da mulher.
De dona Geraldinha, nem notícias. A versão que acabo de contar foi a que me pareceu mais plausível, mas eu mal durmo por não saber o que aconteceu de verdade, fato por fato. E pensar que eu fui amiga daquela monstra! Outro dia ainda, meu velho volta da banca de jornais com os olhinhos brilhando, sinal de que tinha uma fofoca para espalhar.
“Você não sabe quem eu vi, toda perfumada e de cabelos pintados... A dona Geraldinha! Ê, velha assanhada! Não quer saber de trabalhar, mas fica por aí, com aquelas pernas varizentas à mostra...”
Enquanto ele ia destilando o seu veneno senil, eu me perguntava como aquele homem podia ser tão desligado.
“E você nem perguntou por que ela sumiu?”
“Eu não! O que que eu tenho a ver com a vida dessa gente?”
O que eu gostei mesmo é que ela curte House. ;)
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