Crime em família
Há todos os elementos para esse ser um caso dos bons. Briga de família, desaparecimento, mistério. Esta ordem, presumo, seja como os fatos se sucederam, mas na minha profissão a gente vê tanta coisa que fica difícil abandonar de todo o ceticismo. Eu não me espantaria se primeiro tivesse acontecido o desaparecimento, que, por sua vez, causou a briga, aquela que muitos vizinhos testemunharam e que ainda hoje se comenta nas redondezas.
Antes de prosseguir com as conjunturas sobre o caso “Dona Geraldinha”, apresento-me. Sou Miss Zampieri, detetive particular, mais conhecida como Dodô pelas amigas do clube de tricot e pelos poucos familiares mais velhos do que eu. Obviamente vocês estão pensando: eis a Miss Marple brasileira! Pensei o mesmo quando, entediada dos longos anos de aposentadoria, conheci essa simpática personagem de Agatha Christie. Somos idênticas na personalidade e nos hábitos, quem sabe, então, eu também não daria uma boa detetive? E não é que deu certo? Apesar do machismo no meio, conquistei meu lugar.
Especializei-me em pequenos mistérios. São crimes que parecem muito óbvios, os policiais explicam como obra de moleques drogados e se dão por satisfeitos. É então que eu começo a atuar para entender o que ocorreu de fato. Meu neto, que nunca ouviu falar de Miss Marple, diz que eu sou uma Lilly Rush aposentada. Ele me mostrou quem era na TV. Achei engraçada a comparação, esses meninos dizem cada coisa.
Seja eu Lilly Rush ou Miss Marple, o fato é que tenho um estilo de vida que a gente não vê na televisão ou nos livros. Acordo cedo, faço mercado (bendita seja a modernidade das unidades 24 horas que me permitem comprar às 7 da manhã!), assisto a Ana Maria Braga e faço uma faxina leve. Isso de manhã. Como eu moro sozinha com meu velho, almoçamos todos os dias em um restaurante aqui perto de casa. Chama-se Cozinha da Dona Geraldinha. Nós o frequentamos desde sua inauguração, isso já faz uns cinco anos.
O lugar é simpático, negócio em família. O pai, Roberto, fica no caixa, a mãe, Geraldinha, no trabalho criativo das panelas, a filha, Gisele, supervisiona o buffet, o genro, Adilson, serve de garçom e a netinha, Giovanna, alegra o dia dos fregueses com seu sorriso banguela de bebê. Além de a comida ser deliciosa, o que me poupa das reclamações do marido ranzinza, a família da dona Geraldinha são amigos queridos. Por isso, todos os dias às 11h30, batemos cartão lá no restaurante.
O mistério se deu quando chegamos para almoçar um dia e demos com a porta fechada. No caminho da ida, ainda havíamos cruzado com a dona Geraldinha, que carregava uma sacola cheia de marmitas. Cumprimentei-a, mas não cheguei a puxar assunto, porque achei que a encontraria depois no restaurante, quando ela voltasse da entrega. Se soubesse que aquela seria a última vez que eu a veria, teria tanto a perguntar. Por exemplo: e o bebê da Gisele, que nunca mais encontrei, vai bem?
Ainda esperamos cerca de dez minutos na porta. Outros clientes se juntaram a nós. Vimos movimentação pelas janelas, mas nem sinal de abrirem. Quando ouvimos uma gritaria vinda lá de dentro que parecia discussão entre marido e mulher, demo-nos conta de que não seria conveniente nos metermos numa possível briga de família. Trabalhar com parente sempre traz riscos de acabar assim, a gente sabe.
Como os ânimos lá dentro não davam sinal de apaziguamento, decidimos que seria melhor comermos em outro lugar naquele dia. Uma pena. O tempero da Dona Geraldinha é inigualável, deixou-nos mal-acostumados demais para suportar a comida insossa da concorrente. Era só um dia, paciência.
Quem nos dera eu estivesse certa. No dia seguinte, novamente nos deparamos com a porta fechada. Após uma curta e infrutífera espera, acabamos descendo para o restaurante vizinho de novo. Lá todos comentavam o estranho fato. O que terá acontecido com dona Geraldinha e sua família? Ninguém fazia ideia. Por mais que as pessoas perguntassem umas às outras, nenhuma informação nova aparecia.
Hoje faz exatamente um mês que o restaurante da dona Geraldinha não abre. Sinto que deixei passar tempo demais. Pode ser que nem haja mais pistas do crime ou que eu tenha perdido a chance de encontrar toda a família com vida. Prefiro nem pensar nessas coisas, cruz credo. É hora de esclarecer esse mistério. Começarei procurando no lugar onde os segredos devem estar cerrados: o restaurante. Só preciso descobrir como entrar lá, porque, bem reparei, as portas e as janelas estão todas trancadas a cadeado.
CONTINUA...
Antes de prosseguir com as conjunturas sobre o caso “Dona Geraldinha”, apresento-me. Sou Miss Zampieri, detetive particular, mais conhecida como Dodô pelas amigas do clube de tricot e pelos poucos familiares mais velhos do que eu. Obviamente vocês estão pensando: eis a Miss Marple brasileira! Pensei o mesmo quando, entediada dos longos anos de aposentadoria, conheci essa simpática personagem de Agatha Christie. Somos idênticas na personalidade e nos hábitos, quem sabe, então, eu também não daria uma boa detetive? E não é que deu certo? Apesar do machismo no meio, conquistei meu lugar.
Especializei-me em pequenos mistérios. São crimes que parecem muito óbvios, os policiais explicam como obra de moleques drogados e se dão por satisfeitos. É então que eu começo a atuar para entender o que ocorreu de fato. Meu neto, que nunca ouviu falar de Miss Marple, diz que eu sou uma Lilly Rush aposentada. Ele me mostrou quem era na TV. Achei engraçada a comparação, esses meninos dizem cada coisa.
Seja eu Lilly Rush ou Miss Marple, o fato é que tenho um estilo de vida que a gente não vê na televisão ou nos livros. Acordo cedo, faço mercado (bendita seja a modernidade das unidades 24 horas que me permitem comprar às 7 da manhã!), assisto a Ana Maria Braga e faço uma faxina leve. Isso de manhã. Como eu moro sozinha com meu velho, almoçamos todos os dias em um restaurante aqui perto de casa. Chama-se Cozinha da Dona Geraldinha. Nós o frequentamos desde sua inauguração, isso já faz uns cinco anos.
O lugar é simpático, negócio em família. O pai, Roberto, fica no caixa, a mãe, Geraldinha, no trabalho criativo das panelas, a filha, Gisele, supervisiona o buffet, o genro, Adilson, serve de garçom e a netinha, Giovanna, alegra o dia dos fregueses com seu sorriso banguela de bebê. Além de a comida ser deliciosa, o que me poupa das reclamações do marido ranzinza, a família da dona Geraldinha são amigos queridos. Por isso, todos os dias às 11h30, batemos cartão lá no restaurante.
O mistério se deu quando chegamos para almoçar um dia e demos com a porta fechada. No caminho da ida, ainda havíamos cruzado com a dona Geraldinha, que carregava uma sacola cheia de marmitas. Cumprimentei-a, mas não cheguei a puxar assunto, porque achei que a encontraria depois no restaurante, quando ela voltasse da entrega. Se soubesse que aquela seria a última vez que eu a veria, teria tanto a perguntar. Por exemplo: e o bebê da Gisele, que nunca mais encontrei, vai bem?
Ainda esperamos cerca de dez minutos na porta. Outros clientes se juntaram a nós. Vimos movimentação pelas janelas, mas nem sinal de abrirem. Quando ouvimos uma gritaria vinda lá de dentro que parecia discussão entre marido e mulher, demo-nos conta de que não seria conveniente nos metermos numa possível briga de família. Trabalhar com parente sempre traz riscos de acabar assim, a gente sabe.
Como os ânimos lá dentro não davam sinal de apaziguamento, decidimos que seria melhor comermos em outro lugar naquele dia. Uma pena. O tempero da Dona Geraldinha é inigualável, deixou-nos mal-acostumados demais para suportar a comida insossa da concorrente. Era só um dia, paciência.
Quem nos dera eu estivesse certa. No dia seguinte, novamente nos deparamos com a porta fechada. Após uma curta e infrutífera espera, acabamos descendo para o restaurante vizinho de novo. Lá todos comentavam o estranho fato. O que terá acontecido com dona Geraldinha e sua família? Ninguém fazia ideia. Por mais que as pessoas perguntassem umas às outras, nenhuma informação nova aparecia.
Hoje faz exatamente um mês que o restaurante da dona Geraldinha não abre. Sinto que deixei passar tempo demais. Pode ser que nem haja mais pistas do crime ou que eu tenha perdido a chance de encontrar toda a família com vida. Prefiro nem pensar nessas coisas, cruz credo. É hora de esclarecer esse mistério. Começarei procurando no lugar onde os segredos devem estar cerrados: o restaurante. Só preciso descobrir como entrar lá, porque, bem reparei, as portas e as janelas estão todas trancadas a cadeado.
CONTINUA...
Aposto que o culpado é o dono do restaurante concorrente. Capitalismo selvagem \o/
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