Domingo de Ramos


É preciso explicar que eu não suporto multidões e passei a vida toda criando estratégias para sobreviver às situações em que não pudesse evitá-las. A missa dominical é uma dessas ocasiões. Costumo chegar uns dez minutos antes para garantir um bom lugar, o que, no meu caso, significa sentar perto do corredor e da porta. Assim eu tenho a sensação de que, se as pessoas saírem do controle, conseguirei escapar correndo, mas não pode ser tão ao fundo a ponto de eu ver toda aquela gente diante de mim. É uma operação que exige certo cálculo.

Então vocês podem imaginar minha reação quando, estando eu tão bem acomodada, uma ministra anunciou que a missa começaria do lado de fora e que entraríamos todos juntos em procissão. A igreja não é muito grande, quem chega atrasado sempre fica em pé. Saí bufando, mas fui. Recomecei os cálculos. O ponto de encontro ficava na calçada a uns 100 metros da igreja, procurei ficar mais ao fundo e próxima ao meio fio, para que eu pudesse escapar pela rua se necessário.

Após o padre ler o Evangelho, começaram a tocar uma música sinalizando que deveríamos retornar à igreja. Pus-me a caminhar lentamente, meditando e lutando contra minhas fobias. O sol estava ameno, a música era agradável, eu achei que realmente conseguiria. Até que começou a selvageria.

Primeiro foi uma mulher pisando no meu calcanhar, depois uma outra pessoa esbarrou em mim com violência. A primeira ainda tinha pedido desculpas, a segunda sequer me olhou na cara. Meus olhos buscaram a rua, a rota de fuga, mas ali também estava tomado por pessoas que praticamente corriam para passar à frente de todo mundo. Era uma cena muito patética. Quem corre durante uma procissão? Então entendi. Os esbarrões não foram mera distração, mas todo mundo querendo chegar logo à igreja para garantir seus bons lugares.

Diante disso, desacelerei ainda mais, para deixar bem claro para mim mesma que eu não era um deles. Posso ter manias, mas nada que contrarie os bons modos nem o espírito cristão. Afinal, não estávamos ali para vivenciar aquela procissão em comunidade?

Como era de se esperar, não havia lugar para todo mundo se sentar. Eu, com minhas pernas compridas, ainda consegui chegar a tempo para testemunhar uma das cenas mais tristes que já vivenciei numa igreja. Primeiro vi o resto dos jovens entrando correndo, fazendo a maior algazarra e se atirando sobre os assentos como se estivessem num jogo das cadeiras; depois, os velhinhos se aproximando no seu passo miúdo e, ao constatar que não havia lugares, ficando lá parados em pé, resignados. Nessa hora eu fiquei aliviada de estar sentada, pois poderia dar meu lugar a alguém. Levantei com medo de que um jovem barulhento se atirasse sobre a vaga antes de eu chamar uma senhora idosa para ocupá-la, mas deu certo.

Fiquei ali de pé no fundo da igreja chorando de raiva por uns minutos, quase fui embora para casa. Eu não queria fazer parte daquilo. Como alguém pode acordar cedo para ir à missa e ainda assim ser tão mesquinho? E não era um caso ou outro, era um comportamento de manada (agora entendem por que eu sempre traço uma rota de fuga?). Pensei que estávamos condenados enquanto espécie, porque somos incapazes de um gesto mínimo de solidariedade. Se já era assim numa comunidade com recursos abundantes, eu imaginava como seria quando escasseasse água potável, alimento, terra, oxigênio...

Mas uma reviravolta. Conforme eu percebia que outras pessoas também cediam seus lugares para idosos a ponto de logo só haver jovens em pé, fui me acalmando e parando de pensar no apocalipse. Sim, o mundo está cheio de gente egoísta, inclusive frequentando as igrejas, porém isso não é todo o mundo. O mundo é vasto, graças a Deus.

A generosidade é mais incomum entre os ricos, li uma vez uma pesquisa sobre isso. Por algum motivo, eles se acham mais merecedores do que possuem e por isso não querem compartilhar os bens. Fiquei com vontade de ter muito para dar muito, pois constatei que quem está em posição hoje de fazer isso não tem esse hábito. E ainda dizem adorar Jesus. Cristo morreu na cruz e continuará morrendo, ano após ano, porque as pessoas são... pessoas e continuarão entregando os miseráveis ao martírio.

Não terminarei com mensagem otimista, não sou Martha Medeiros. Sigo observando as multidões com ceticismo e, agora mais do que nunca, calculando rotas de fuga.

E aqueles que não têm para onde fugir?

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