Elegia da gente viva (parte 2, capítulo 12)
Nota explicativa: estou publicando duas vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já publicados, clique aqui.
***
12. Fantasma
Um mês impecável. A relação com a família vai bem, os amigos estão sempre por perto, não há trabalhos pendentes, o corpo esbanja saúde, a mente atua sem sobressaltos. Até inventa um ou outro pequeno dilema para contar à sua terapeuta e assim fazer valer o preço da sessão. Parece que mês que vem vai subir 15%, a inflação está cruel, sabe como é. Precisa avisar a mãe pra mandar mais dinheiro.
É possível ser sempre assim, tudo no lugar? Melhor não tocar no assunto pra não atrair más energias. Os problemas são criações nossas. As situações por si só não significam nada, a gente é que atribui valor positivo ou negativo a elas. É preciso tomar as rédeas, parar de sentirmos pena de nós mesmos. Leandro acredita ter enfim decifrado o mundo. Vive satisfeito, senhor de si, homem de seu tempo.
Até que, num dia qualquer desses, ele se desentende com um colega da empresa onde estagia. Mano, você escreve esta merda de relatório, entrega em cima da hora e depois sobra pro burro de carga aqui reescrever tudo em dois minutos! Quem é que deveria estar ganhando dez paus por mês? Ele não disse nada disso, mas bem que pensou. Pra piorar, a chefe desconta no estagiário os maus resultados de um projeto de que ele sequer tinha participado, a não ser que se considere a atividade de imprimir e grampear o release uma contribuição digna de nota. Essa foi outra resposta que pensou, mas não deu. Humilhado, atrasado pra aula, respingado de café, repreendido pela professora, assaltado no caminho para casa. Ou nem foi tudo isso. Às vezes foi só o olhar de desprezo vindo de alguém que sequer o conhecia. Às vezes foi a sensação de que suas escolhas não o levavam a lugar algum e de que não havia mais tempo para recomeçar do zero. Às vezes foi uma vontade de conversar sobre assuntos íntimos que se frustrou por falta de interlocutor, ou por inabilidade dele pra criar uma abertura. Às vezes foi a impressão de que o mundo ia muito bem sem ele, bem demais. Às vezes foi um fantasma que veio lembrá-lo de todos os seus fracassos.
Sinto muito, mas vou ter que chamá-la pelo nome, pelo menos neste primeiro momento. Por isso, prestem atenção que não vou repetir: o fantasma se chamava Juka, née Júlia Karoline. Agora que todos estão cientes disso, daqui em diante fiquemos no subentendido, pois estou convencido de que evitar um coração partido ainda vale mais do que engordar má literatura.
Ela voltou completamente mudada. Também esperava o que depois de uma estadia de seis meses em Los Angeles? Saiu como estagiária, voltou como analista júnior, seria mais uma a lhe dar ordens? Não eram apenas as roupas coloridas, o mega-hair loiro e o bronzeado. Ela era assim tão piadista antes? Gargalhadas, gestos amplos e toques que ele não reconheceu da época em que namoravam. Se o corpo e o espírito mudam tanto, ainda dá para dizer que é a mesma pessoa? Isto facilitaria tudo, pensar que aquela garota morreu e que esta é outra. Não haveria motivos para odiar alguém que acaba de conhecer, certo? Perdão verdadeiro ou varrer pra debaixo do tapete, qual a diferença?
Ela cumprimentou Deus, vulgo o diretor da agência David J. Magalhães Pinto Filho, e o mundo, segundo escalão de seres ao qual eu me incluo. Atenciosa, trouxe presentes para todos, o meu é um curioso botton estampado com uma folha de canabis. Ela saudou inclusive o estagiário, cena que todos acompanharam tensos na expectativa de um bom barraco. Abraçou-o longamente, como tinha feito com todos os demais, nem um segundo a mais ou a menos, o perfume também tinha mudado. Quando ela afastou um pouco o corpo, ainda segurando o colega pelos ombros, perguntou séria:
— Você tá melhor? Me contataram tudo, fiquei arrasada.
— Tô ótimo, e você? Quero saber da sua viagem, mas depois você me conta, tá, porque agora tenho que terminar um projeto. É pra ontem. Mas obrigado pelo chaveiro, estava mesmo precisando de um pra chave do apê novo.
Leandro sorriu amarelo, voltou a se sentar diante do computador e prosseguiu digitando muito ruidosamente. A outra fez algum comentário espirituoso, algo como “vá em frente que lá vem enchente”, antes de continuar a procissão de distribuição de presentes. Desarmado o perigo de confusão, os colegas também retornaram aos seus afazeres, levemente decepcionados. Eu, da minha posição privilegiada de narrador e vizinho de mesa, continuei observando e provavelmente fui o único a prever que o pior ainda estava por vir.
Com os olhos vidrados no computador, o estagiário mexia os lábios sem emitir som, parecia beato rezando o terço, o que duvido que estivesse fazendo. A princípio não se ouvia nada, mas aos poucos, com muita persistência ou imaginação minha, consegui distinguir algumas palavras:
— Bem, bem, quero dizer, você sabe, muito trabalho, sempre, né. Mas muito bem, ótimo. A mãe e o pai, os irmãos, os tios, todo mundo bem. Eu, eu... eu tenho que... você sabe. Depois, depois é melhor. Preciso ir. Eu tenho que ir agora. Você parece bem. Eu também não tenho do que reclamar, nunca estive melhor. Muitos compromissos, a vida vai muito bem. Ótima, ótima, ótima.
De repente, Leandro se levantou e se enfiou pela porta mais próxima. Calhou de ser a da saída de emergência, uma escada escura e meio grudenta que só encarávamos em caso de extrema necessidade, isto é, para fumar aquele cigarro do desespero quando estourava alguma merda bem esmerada. A agência ficava no décimo primeiro andar. Ele desceu uns três lances correndo, em certo momento as pernas vacilaram, escorregou alguns degraus, provavelmente só machucou o cóccix, aquele tipo de lesão que é mais vergonhosa do que dolorida. Teria se sentido estúpido, quem nunca passou por isso? Chorou alto, gritou, esmurrou as próprias pernas. Isso ninguém viu ou ouviu, a não ser a zeladora, minha boa amiga e companheira de horas extras não-remuneradas. O garoto voltou mais cedo pra casa. Imagino que tenha trancado a porta, desligado o telefone e se enfiado debaixo das cobertas. No dia seguinte, mandou um e-mail pra chefe dizendo que tava gripado. Ninguém na agência desconfiou de nada, afinal, o ar andava mais seco do que o normal, e a poluição, ruim como sempre. Nas duas semanas seguintes, não soubemos mais nada do estagiário.
Esse ambiente de trabalho, com o tipo de relação entre as pessoas, me lembra a editora em que trabalhei (Inclusive a escada usada para fuga do trabalho me lembra os momentos em que ia tomar café no refeitório só pra não ficar no ambiente). Houve um cara que começou a trabalhar lá uma vez que foi dois dias. Depois desapareceu e nunca explicou por que não foi mais. Desconfio que foi só um gesto de sanidade mental dele.
ResponderExcluirHistória maravilhosa! Taí um microconto completo...
ExcluirThe Office feelings
ResponderExcluirAcho que essa é uma boa referência para perceber que meu romance é, na verdade, tragicômico. Mas já aviso que não haverá Pam e Jim, nem Dawn e Tim (se vc optar pela versão britânica). Talvez, quem sabe, um momento Michael e Oscar.
Excluir