Sobre a castidade
Esta semana estou lendo Confissões, de Santo Agostinho, e lá encontrei bons argumentos a favor da castidade. O principal aponta a efemeridade dos sentimentos promovidos pelo prazer sensual, que logo se segue de insegurança e ciúme, em detrimento do amor divino, que é pleno.
Transcrevo abaixo um trecho.
"Vim para Cartago logo fui cercado pelo ruidoso fervilhar dos amores ilícitos. Ainda não amava, e já gostava de ser amado, e, na minha profunda miséria, eu me odiava por não ser bastante miserável.
Desejando amar, procurava um objeto para esse amor, e detestava a segurança, as situações isentas de risco. Tinha dentro de mim uma fome de alimento interior – fome de ti, ó meu Deus! Mas, não sentia essa fome, porque não me apeteciam os alimentos incorruptíveis, não por estar saciado, mas porque, quanto mais vazio, mais enfastiado eu me sentia.
Minha alma estava doente, coberta de chagas, ávida de contato com as coisas sensíveis. Mas, se estas não tivesse alma, certamente não seriam amadas.
Era para mim mais doce amar e ser amado, se eu pudesse gozar do corpo da pessoa amada. Assim, eu manchava as fontes da amizade com a sordidez da concupiscência e turbava a pureza delas com a espuma infernal das paixões. Não obstante eu ser feio e indigno, apresentava-me, num excesso de vaidade, como pessoa elegante e refinada. Mergulhei então no amor em que desejava ser envolvido.
Deus meu, misericórdia minha, como foste bom em derramar tanto fel sobre meus prazeres! Fui amado e cheguei ocultamente às cadeias do prazer; mas, na alegria, eu me via amarrado por laços de sofrimento, castigado pelo ferro em brasa do ciúme, das suspeitas, dos temores, das cóleras e das contendas."
(AGOSTINHO, Santo. Confissões. São Paulo: Paulus, 1984. Livro III, § 1)
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A imagem acima é a Alegoria da Castidade, de Hans Memling, pintor renascentista alemão.
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