O caminho espiritual (não tão) fácil de Madonna
Não estou falando de Nossa Senhora, Maria, mas da cantora pop mesmo. Por algum motivo as pessoas abafam uma risadinha quando digo que Madonna é a artista que mais admiro no conjunto. Talvez pela descrença geral quanto às capacidades dela de compor e cantar sozinha (sem computador ou produtor célebre), talvez pela contradição com minhas crenças religiosas.
Neste post, vou mostrar que a temática religiosa é uma constante na carreira dela e, ainda de quebra, indicar umas músicas nas quais ela canta lindamente, elevando quem a ouve um tantinho mais perto de uma experiência espiritual.
As pessoas tendem a se lembrar dela com sutiã pontudo, beijando homens, mulheres e travestis (Justify my Love, ótimo clipe), dizendo que é uma garota materialista. Sim, Madonna é tudo isso, mas também tem outras facetas, como qualquer um de nós. E isto é o mais interessante nela: o pecado assumido. Ora ela se diverte pecando (“I’m a sinner, I like it that way”), ora gostaria de encontrar o caminho certo (“All the saint and holly man catch me before I sinn again), e tudo isso com alegria, sem autoflagelação!
(Alguém mais além de mim se irrita com aquelas cantoras de gospel com saias longas cor-de-rosa ou azul bebê, mas que, no dia a dia, vivem da futilidade proporcionada pelo dinheiro que ganham?)
Quem escuta ou vê Madonna não procura de imediato Deus, e sim diversão, espetáculo, vivacidade. De repente, ela faz alguma daquelas performances emocionantes, como X-static process, e você se vê pensando em outras coisas que não corpos bonitos e prazeres infinitos. Ser pego desprevenido pela elevação, isso me parece tão mais sincero e autêntico! Como naqueles dias em que você vai para a igreja bem de saco cheio e, então, a Palavra toca mais fundo do que quando você está disposto a aprender.
Pode ser o ponto de vista distorcido pelo meu status de fã, mas tenho a impressão de que ela realmente passou por alguns dilemas espirituais em sua vida – vide todas as reviravoltas religiosas, ela poderia simplesmente nunca ter aderido a nenhum culto. As músicas resultantes desse processo passam o sentimento de busca incerta. Talvez ela não seja tão diferente de Santo Agostinho no caminho tortuoso até a Deus, a diferença é que Madonna ainda não disse “encontrei, Deus é isto”. Provavelmente nunca dirá, dado que produz música para um grande volume de pessoas.
Mas vamos à lista. Escutei toda a discografia de estúdio, dei uma olhada nas letras e anotei as de que mais gosto. Tentei fazer uma ordem de preferência pessoal, mas dependendo do dia o ranking muda.
1. Easy ride (American life)
2. Like a prayer (Like a prayer)
3. X-static process (American life) – tem um vídeo no youtube dela cantando ao vivo e o público jovem da MTV fazendo cara de “que merda, toca as mais animadas”, eu me divirto muito reparando nisso.
4. Oh father (Like a prayer) – explico: não viajei, de fato, ela refere-se ao pai biológico, mas também se pode escutar a canção como uma relação conturbada com Deus, multiplicando a beleza dela.
5. Live to tell (True blue)
6. Sanctuary (Bedtime stories)
7. I’m a sinner (MDNA)
8. Act of contriction (Like a prayer) – tem uma sacada humorística no final que não chega a atingir a leviandade, apenas mostra a dificuldade de se manter na linha, por mais que se ore.
9. Sky fits heaven (Ray of light)
10. Isaac (Confessions on a dance floor)
Nem precisa dizer que Like a prayer (1989) e American Life (2003) são meus discos favoritos, junto a Confessions on a dance floor (2005), que quase não apareceu neste post porque pouco desenvolve a temática religiosa. Aliás, os temas da Madonna não são muitos, basicamente: amor (em suas variantes eu quero te amar e o amor acabou), autoafirmação (eu sou boa demais pra você), espiritualidade, relações familiares conturbadas e um grupo bem amplo que eu chamo de “sinta a música e não pense em mais nada”, sendo Music e Turn up the radio as mais famosas da categoria.
Outra observação: Ray of light (1998) é repleto de referências religiosas, mas foi pouco mencionado, porque o álbum mistura uma série de referenciais culturais, vai de mitologia grega à filosofia do yoga. Neste post priorizei a relação com o Deus judaico-cristão, mas acho que vale a pena, futuramente, investigar essa fase mais ecumênica – talvez influência de um certo modismo zen que predomina entre celebridades, essa é minha hipótese inicial.

Acho que vc superestima a Madonna
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