Um conto de Juliano Garcia Pessanha
Há algumas semanas comecei a escrever um novo capítulo da tese. Quando estou na fase de escrita, fico totalmente obsessiva e monotemática, daí o post de hoje. É para dizer: estou viva, mas estou escrevendo, então, por ora, pertenço apenas à obra de Juliano Garcia Pessanha, o assunto deste capítulo. Para terem ideia dos estranhos lugares por onde tenho transitado, colo abaixo um pequeno conto do autor que se encontra disponível online no site na n-1 edições. Qualquer semelhança com Kafka não é mera coincidência.
Alguma hora eu volto a aportar em terra firme. E por aí, quais são as novidades? Há alguma esperança?
Fotos do evento Litercultura, realizado em Curitiba em 2016, quando conheci JGP.
Diário de bordo
(Juliano Garcia Pessanha)
Dia 200. Prossegue a nossa viagem. Perambulei a noite inteira pelo barco e sentei-me na cadeira em frente ao mastro. Em vão, minhas mãos buscaram a memória de alguma fisionomia. Devo ter passado a última manhã estraçalhado por pesadelos, pois lembro-me de ter polido nadadeiras de platina depois de abandonar o bosque dos hermafroditas. Agora estou no convés e a luz de uma estrela diz-me que ainda não perdi a razão.
Dia 203. Os homens estavam bêbados e uma nova tempestade nos pegou. Fico caminhando pelo convés de cá pra lá e de lá pra cá. Estou vesgo de cansaço. Alguns homens se revezam para vigiar a volúpia das ondas, mas mesmo assim, um por um está sendo engolido. A todo momento refaço o saldo dos vivos, subtraindo os afogados: faço as marcas dessas contas, não aqui neste diário, mas no próprio mastro deste barco. Temo ter sido designado: “o sobrevivente”.
Dia 209. Hoje tentei recordar o dia da partida. O burburinho alegre das donzelas e o rebuliço das crianças. Minhas pernas estão dormentes e todos os tripulantes estão mortos. Vago pelo convés e me esforço para continuar ereto. Já não há bússola nem estrela e, desgovernado, acho que me aproximo do polo. Enormes icebergs sondam o casco. Eles dizem: “Nós somos as sondas brancas da morte”. E sei que dizem a verdade. Minha barba congelada mede o tempo que passa, apesar do pânico ter aniquilado o futuro. Recusei-me a devorar o braço de um companheiro morto. Não compreendo por que este barco. Ele era a nova arca e eu o Noé repetido que avistaria verdes e aves. Por que a missão não deu certo? Por que eu, o escriba do mastro, o último a anotar o desastre? Ulisses sem sombra de Ítaca.
Alguma hora eu volto a aportar em terra firme. E por aí, quais são as novidades? Há alguma esperança?
Fotos do evento Litercultura, realizado em Curitiba em 2016, quando conheci JGP.
Diário de bordo
(Juliano Garcia Pessanha)
Dia 200. Prossegue a nossa viagem. Perambulei a noite inteira pelo barco e sentei-me na cadeira em frente ao mastro. Em vão, minhas mãos buscaram a memória de alguma fisionomia. Devo ter passado a última manhã estraçalhado por pesadelos, pois lembro-me de ter polido nadadeiras de platina depois de abandonar o bosque dos hermafroditas. Agora estou no convés e a luz de uma estrela diz-me que ainda não perdi a razão.
Dia 203. Os homens estavam bêbados e uma nova tempestade nos pegou. Fico caminhando pelo convés de cá pra lá e de lá pra cá. Estou vesgo de cansaço. Alguns homens se revezam para vigiar a volúpia das ondas, mas mesmo assim, um por um está sendo engolido. A todo momento refaço o saldo dos vivos, subtraindo os afogados: faço as marcas dessas contas, não aqui neste diário, mas no próprio mastro deste barco. Temo ter sido designado: “o sobrevivente”.
Dia 209. Hoje tentei recordar o dia da partida. O burburinho alegre das donzelas e o rebuliço das crianças. Minhas pernas estão dormentes e todos os tripulantes estão mortos. Vago pelo convés e me esforço para continuar ereto. Já não há bússola nem estrela e, desgovernado, acho que me aproximo do polo. Enormes icebergs sondam o casco. Eles dizem: “Nós somos as sondas brancas da morte”. E sei que dizem a verdade. Minha barba congelada mede o tempo que passa, apesar do pânico ter aniquilado o futuro. Recusei-me a devorar o braço de um companheiro morto. Não compreendo por que este barco. Ele era a nova arca e eu o Noé repetido que avistaria verdes e aves. Por que a missão não deu certo? Por que eu, o escriba do mastro, o último a anotar o desastre? Ulisses sem sombra de Ítaca.


Sem novidades, só sentado na frente do mastro.
ResponderExcluirE como tá o saldo de mortos até agora?
ExcluirParei de contar. Só conto as ondas agora.
ResponderExcluirPoético.
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