Para não dizer que não falei de Covid-19

Já que estou totalmente dedicada à tese, sigo colando textos alheios -- virei uma "copiadora", no dizer de Estamira. O de hoje é do Elias Canetti, um pequeno ensaio do livro "Massa e Poder" que pareceu bem pertinente para pensar a atual pandemia.


As epidemias
(Elias Canetti)

A melhor descrição da peste é a que nos deu Tucídides, que a viveu na própria pele e se curou. Em sua concisão e exatidão, tal descrição contém todos os traços essenciais dessa doença, sendo, pois, aconselhável reproduzir aqui o que ela informa de mais importante.

Os homens morriam feito os mosquitos. Os corpos dos moribundos eram todos empilhados. Viam-se criaturas semimortas a cambalear pelas ruas ou, em sua ânsia por água, apinharem-se em torno das fontes. Os templos nos quais se abrigavam estavam repletos dos cadáveres das pessoas que haviam morrido ali. 

Em muitas casas, as pessoas foram de tal forma subjugadas pelo peso de seus mortos que deixaram de lamentá-los. 


As cerimônias fúnebres tornaram-se uma confusão; os mortos eram enterrados da melhor maneira possível. Várias pessoas, em cujas famílias haviam sido tantos os mortos que não tinham mais como pagar as despesas do sepultamento, recorriam às mais desavergonhadas artimanhas. Chegavam primeiro à fogueira que outros haviam erigido, depositavam seus mortos sobre ela e ateavam fogo à lenha. Ou, se já havia uma fogueira a arder, jogavam os corpos que traziam consigo sobre os demais cadáveres e se iam.


Nenhum temor às leis divinas ou humanas os refreava. No que se refere aos deuses, parecia dar no mesmo reverenciá-los ou não, pois via-se que morriam tanto os bons quanto os maus. Não se temia ser chamado a prestar contas por uma infração à lei humana: ninguém tinha esperança de viver o suficiente para tanto. Todos sentiam que uma sentença bastante mais severa lhes fora já proferida. E, antes que esta se cumprisse, queriam ainda extrair algum prazer da vida. 


Compaixão ainda maior pelos doentes e moribundos sentiam aqueles que haviam eles próprios sofrido com a peste e se restabelecido. Estes possuíam não apenas conhecimento de causa, mas sentiam-se seguros também, pois ninguém pegava a doença uma segunda vez — ou, se pegava, esse segundo ataque jamais era fatal. Tais pessoas eram felicitadas por todos, e elas próprias sentiam-se tão sublimes em razão de sua cura que acreditavam que, mesmo no futuro, jamais poderiam morrer de uma doença.


De todas as desgraças que já assolaram a humanidade, as grandes epidemias deixaram uma lembrança particularmente vívida. Elas têm início com a subtaneidade das catástrofes naturais, mas, enquanto um terremoto geralmente se esgota em uns poucos e breves abalos, a epidemia possui uma duração que se estende por meses, ou até mesmo por um ano. O terremoto produz de um só golpe o que há de mais assustador; suas vítimas perecem todas ao mesmo tempo. Uma epidemia de peste, pelo contrário, possui um efeito cumulativo; de início, somente uns poucos são apanhados por ela; depois, os casos se multiplicam; veem-se os mortos por toda parte, e logo veem-se mais mortos do que vivos reunidos. O resultado de uma epidemia pode, ao final, ser o mesmo de um terremoto. Os homens, porém, são testemunhas da grande mortandade, a qual se intensifica ante seus olhos. São como os participantes numa batalha que dura mais do que todas as batalhas conhecidas. Mas o inimigo é secreto: não se pode vê-lo em parte alguma; não se pode atingi-lo. Espera-se, apenas, ser atingido por ele. A luta é travada única e exclusivamente pelo lado inimigo. Este golpeia quando quer. E golpeia a tantos que logo se teme que venha a golpear a todos.

Tão logo a epidemia é reconhecida sabe-se já que ela não desaguará em outra coisa senão na morte conjunta de todos. Não havendo remédio que possa combatê-la, os atingidos aguardam o cumprimento da sentença que lhes foi imposta. Somente os atingidos pela epidemia formam uma massa; eles são iguais no tocante ao destino que os aguarda. Seu número aumenta com velocidade crescente. A meta rumo à qual se movem é atingida em poucos dias. Terminam no maior adensamento possível aos corpos humanos: todos juntos num amontoado de cadáveres. Na concepção religiosa de alguns, essa massa estanque dos mortos encontra-se apenas provisoriamente morta. Num único e mesmo instante, ela irá ressuscitar e apresentar-se densamente reunida aos olhos de Deus, para o juízo final. Contudo, mesmo desconsiderando-se o destino futuro dos mortos — afinal, as concepções religiosas a esse respeito não são as mesmas por toda parte —, um fato permanece inconteste: a epidemia desemboca na massa dos moribundos e dos mortos. “Ruas e templos” ficam repletos deles. Com frequência, já não é mais possível enterrar as vítimas individualmente, como se deve; são dispostas em gigantescas valas comuns, milhares delas reunidas numa única cova.

Existem três fenômenos importantes, e bem conhecidos dos homens, que têm por meta amontoados de corpos. Tais fenômenos apresentam um íntimo parentesco entre si, sendo por isso de particular importância delimitá-los uns em relação aos outros. São eles: a batalha, o suicídio em massa e a epidemia.

Na batalha, visa-se o amontoado dos corpos dos inimigos. Quer-se diminuir o número dos inimigos vivos, a fim de que, comparado a esse número, o da própria gente seja tanto maior. Que também a própria gente morra é inevitável, mas não é o que se deseja. A meta é o amontoado de inimigos mortos, o qual é produzido de forma ativa, mediante a ação do homem e a força de seu próprio braço.

No suicídio em massa, tal ação volta-se contra a própria gente. Homens, mulheres, crianças, todos se matam mutuamente, até que nada mais reste senão um amontoado de mortos. A fim de que ninguém caia nas mãos do inimigo e de que a destruição seja completa, recorre-se ao auxílio do fogo.

Na epidemia, o resultado é o mesmo do suicídio coletivo; não se trata, porém, de algo voluntário, mas sim de algo que parece imposto de fora, por um poder desconhecido. O tempo necessário para o atingimento da meta é maior, de modo que as pessoas vivem na igualdade da expectativa pavorosa, ante a qual todos os vínculos usuais entre os homens se dissolvem.

O elemento do contágio, tão importante na epidemia, produz como efeito o apartamento dos homens uns dos outros. O mais seguro é não se aproximar demasiadamente de ninguém, pois qualquer um poderia estar já contaminado. Muitos fogem da cidade e espalham-se por suas terras. Outros se trancam em suas casas e não deixam ninguém entrar. As pessoas evitam-se umas às outras. Manter distância torna-se a última esperança. A perspectiva de seguir vivendo, a própria vida expressa-se, por assim dizer, na distância em relação aos doentes. Os empestados transformam-se pouco a pouco numa massa de mortos; os não empestados mantêm-se distantes de todos, frequentemente até mesmo de seus parentes mais próximos — dos pais, dos cônjuges, dos filhos. É notável a maneira pela qual a esperança de sobreviver transforma os homens em indivíduos isolados, em oposição aos quais se encontra a massa de todas as vítimas.

No entanto, em meio a essa danação geral, na qual cada um dos que foram apanhados pela doença é dado como perdido, ocorre o mais espantoso: alguns poucos conseguem curar-se da peste. Pode-se imaginar como se sentem em meio aos demais. Eles sobreviveram e sentem-se invulneráveis. Sendo assim, são capazes de simpatizar com os enfermos e os moribundos que os circundam. “Tais pessoas”, afirma Tucídides, “sentiam-se tão sublimes em razão de sua cura que acreditavam que, mesmo no futuro, jamais poderiam morrer de uma doença.

Comentários

  1. Copiadora não, apenas seguidora do wannabe ministro da educação.

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    1. Boa! O MEC é um poço de piadas sem fundo... Agora tem o cara que foi desconvidado para ser Ministro...

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