Sobre não fazer sexo


Outro dia, esperando meu ônibus, pratiquei o hobby favorito dos aspirantes a escritor – ouvir a conversa alheia. Uma mulher de 58 anos falava com a cobradora, que devia ter uns quarenta e poucos, sobre as sem-vergonhices que os homens vinham lhe propondo nos aplicativos de encontro. Casada por 30 anos, a primeira se orgulhava de nunca ter precisado fazer “aquelas coisas nojentas”, “pôr o negócio na boca”, “ali atrás” e assim vai (ela fazia uns sons de vômito ao mencionar isso, era meio triste, meio engraçado), e estava chocada por ter descoberto que hoje em dia a mulherada logo fazia tudo isso com qualquer um. A senhora concluiu seu raciocínio dizendo que era por esse motivo que os homens não as respeitavam, enquanto ela, que estava casta há três anos, desde a morte do marido, era desejada por vários, por ser “diferente” das outras.

Era noite de domingo, estávamos só nós três dentro da estação-tubo – nota contextual: em Curitiba, o cobrador fica dentro do ponto quando este é fechado, aquilo que chamamos de “tubo”. Aquela senhora falava muito alto, sua interlocutora parecia nem concordar com tudo, pelo menos não tão entusiasticamente, só acenava com a cabeça, cansada, enquanto eu pensei em um milhão de coisas que gostaria de ter respondido. Obviamente não me meti, sou bem-educada. Faço pior: venho dar com a língua nos dentes aqui na Internet, teoricamente fofocando para os quatro cantos do mundo (na prática, falando para meus dois ou três leitores).

Aquela mulher precisava muito de uma noção básica de feminismo, lições bem simples, como:

- A mulher só deve fazer “tudo” se quiser, se lhe for agradável. Isso não a degrada, pelo menos não deveria. O sexo é uma expressão livre e privada dos desejos, não tem nada a ver com caráter. O homem que a expuser para os demais, relatar detalhes de sua intimidade, estará cometendo um crime inclusive (Cf. Lei Maria da Penha versão didática – muito esclarecedor, vale a pena tirar 1 minuto da sua vida para ler isso).

- Se a mulher não gosta de certas práticas sexuais e faz isso só para agradar ao homem, ela está sendo oprimida pelo medo de perdê-lo, prostituindo-se para o próprio companheiro, e também merece nossa pena. Ela mesma não tem noção de que é vítima e precisa ser esclarecida e ajudada.

- Quando se reivindica para si o rótulo “mulher de respeito”, se está reforçando a ideia de que as outras não são. É o discurso machista infiltrado na boca das mulheres, fazendo com que umas fiquem contra as outras enquanto os homens tiram vantagens disso.

Fico chateada de ouvir esses discursos vindos de mulheres, porque sei que se eu for abusada por um homem, como já aconteceu, elas serão as primeiras que me apontarão o dedo, como se eu não tivesse me dado ao respeito, facilitado. Mulheres são abusadas facilitando ou não, por isso vamos parar de ter empatia só por aquelas que são virgens, por favor?

Agora, com relação ao “fazer tudo logo”, fico pensando se os homens não estão mesmo tirando certa vantagem da libertação sexual feminina. Explico. Antes, o cara safado precisava jogar toda uma conversa em cima da mulher, prometer amor e casamento, para ela concordar com o ato sexual. Isso poderia levar dias, meses! Quando ele finalmente conseguisse o que queria, só então poderia desaparecer sem se importar com as consequências (DST, gravidez, expulsão da família...). Hoje, o cara safado consegue o que quer em poucas horas e também desaparece, sem se importar com as consequências. Ele não desapareceu porque a mulher foi “fácil demais”, ele desapareceria de qualquer forma, só que agora ele tem a oportunidade de aplicar seu golpe a mais mulheres, porque, com um Tinder na mão, nem precisa de um esquema muito complexo.

Não estou afirmando que toda mulher que faz sexo necessariamente quer um relacionamento, às vezes ela só queria sexo também. A cafajestagem está em o cara, após o coito, simplesmente sumir, fingir que a parceira nunca existiu, como se manter uma amizade ou mesmo reconhecer sua existência fosse uma ameaça à liberdade de solteiro dele. Qualquer “oi” que lhe dermos depois do sexo já os faz achar que estamos loucas apaixonadas atrás deles, esperando casamento (quanta pretensão!). Então me ocorreu que, como os safados atuais estão muito mal acostumados (se uma não quiser agora, outra vai topar ainda hoje) e nem precisam se dar ao trabalho, não fazer sexo talvez seja uma forma mesmo de nos protegermos deles. Não porque os homens vão respeitar mais, repito, mas porque os piores do tipo terão preguiça de “investir tanto” para conseguir algo que poderiam ter mais facilmente.

Isso, obviamente, não é uma solução para o machismo e a violência contra a mulher, tanto é que, se todas começarem a agir assim, voltaremos ao estágio anterior, em que os safados tinham que elaborar longas conversas para abusar de moças e abandoná-las. A solução definitiva virá só mesmo pela educação dos homens desde o berço, uma mudança cultural que os faça ver e tratar as mulheres como suas iguais. Por outro lado, quantas gerações ainda serão precisas para que venham esses novos homens? Enquanto isso, acho que vou seguir o conselho daquela viúva, mesmo achando que seus motivos são terríveis. No fim, o propósito é o mesmo – tentar me proteger dos homens. Tentar.

Entrei no ônibus torcendo para que nenhum babaca ejaculasse em mim enquanto eu, distraída, lia um livro para lidar com o longo trajeto de volta para casa.

Comentários

  1. Eu tb gosto de ficar ouvindo a conversa alheia no transporte público.

    E falando em transporte público, aí em ctba tá hard assim, com gente ejaculando em outras?

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    1. A ejaculação foi uma referência ao abuso em São Paulo, mas aqui tem várias coisas nojentas também, homens se masturbando, apalpando, se esfregando... só para citar o que eu já sofri pessoalmente.

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    2. Li sobre o caso de São Paulo só depois de ter lido o seu post, por isso não peguei a referência.

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