O chiqueiro: esboço de uma nova teoria do afeto humano
Quatro ou cinco profissionais do Judiciário debatiam, numa tarde de domingo, questões da mais alta importância nacional, como o preço da soja, os novos modelos de colheitadeira, a ignorância do povo em geral. Explico aparentes incoerências. Primeiro, não estavam em seus escritórios e gabinetes como os cargos fazem supor, afinal, era dia de descanso; encontravam-se, isso sim, num leilão de gado promovido pela igreja matriz de Ângulo, embora nada impedisse que também conversassem sobre aqueles assuntos em seus locais de trabalho, como de fato faziam. Segundo, o número de participantes da conversa oscilava devido à natureza do evento, em que os lances disputavam a atenção desses fazendeiros de fim de semana, ávidos por aumentar seus rebanhos. Um pouco mais, um pouco menos grisalhos, eram cidadãos de bem: um juiz, dois advogados e um cartorário, além de um sujeito que ninguém sabia exatamente o que fazia, mas que tinha sido incorporado à roda por sua constância no fórum, onde aparecia de segunda a sexta devidamente engravatado e portando uma maleta de couro. Apesar da personalidade presunçosa, o quinto elemento logo se tornou indispensável àquele círculo, devido a seu arsenal infinito de anedotas sobre a vida privada dos grandalhões.
Quando alguém perguntou por onde andava o Eudes, um promotor aposentado que apreciava bastante aquela espécie de evento, o tipo agarrou-se à deixa para brilhar mais uma vez diante da plateia ilustre:
― Não sabem? O Eudes perdeu o juízo. Não que ele tivesse muito, mas perdeu o pouco que tinha. Tresvariou, emparveceu, abobou.
Os companheiros costumavam chamar o locutor, quando esse não estava presente, de Pai dos Burros, já que era o mais erudito, como fazia questão de mostrar, numa esfera exclusiva de letrados. Manteremos a tradição, ele que não nos ouça!
Diante do pasmo geral – Eudes tinha lá suas excentricidades, isso todos sabiam, mas maluco? –, Pai dos Burros solicitou silêncio para contar a história completa.
― Não vou tolerar nenhum tipo de interrupção, entenderam? Senão paro na hora, e os senhores que imaginem os fatos por si mesmos!
A curiosidade do grupo angariou votos favoráveis aos termos absurdos. Uma concordância relutante, mas concordância ainda assim. Pai dos Burros, então, empurrou o prato em que jaziam restos de comida cristalizados na gordura animal e passou à sobremesa, degustando o pavê e a atenção que mais uma vez conquistara para si. Ambicioso, avaliou se conseguiria manter a expectativa da audiência até a hora do cafezinho, mas considerava uma manobra arriscada, ainda revisaria sua estratégia antes do veredito final.
― Os senhores hão de lembrar que o Eudes pediu aposentadoria assim que completou o prazo mínimo de serviço, sedento de liberdade, de vida autêntica. Sua primeira atitude foi jogar fora celular e agenda. Também aposentou as citações em latim, anunciando que nunca mais leria uma linha na vida. “Brasília, Washington e Zurique que explodam”, foi essa sua derradeira declaração no Ministério Público, porém com vocábulos mais reles. Alegava que queria se livrar de tudo que não fosse essencial, de modo que vendeu o apartamento na cidade e se mudou com a mulher, Dona Terência, para sua fazenda aqui na região. Isso faz uns cinco anos, nada de inédito. Os senhores talvez até conheçam a propriedade, que faz jus ao nome de Shangri-la. São trezentos alqueires, metade plantação, metade pasto, casarão estilo colonial, mas o ponto alto é a coleção de bichos exóticos, arara, ema, lhama, uma variedade infinita. O Eudes vivia seu sonho, possuía todas as vantagens da vida simples no campo, o ar, a água, a comida, o lazer, tudo do bom e do melhor. Teve lá seus problemas com uns peões indolentes, mas quem é que possui funcionário bom de serviço hoje em dia? E não é só na roça que está faltando mão-de-obra qualificada, nós bem sabemos.
Os demais concordaram com a cabeça. Pai dos Burros, sorrindo de canto de boca, destacou uma flor de papel crepom do arranjo da mesa e começou a deslizar o cabo entre polegar e indicador, silenciosamente. Só largou o ornamento quando viu esverdearem seus dedos, que limpou na saia branca da cadeira. O leilão terminara, em poucos minutos começariam os desfiles do Concurso Miss Safrinha e, mais à noite, o tão esperado show de Anta & Antero. Bastava só mais um dedo de boa prosa para que o narrador pudesse buscar aquele merecido cafezinho, sem receio de perder os ouvidos cativos quando voltasse.
― Problemas com peão, isso todo mundo tem – retomou Pai dos Burros –, o mal do Eudes foi não saber como lidar com isso de forma ponderada. Faz um ano e pouco, cansado de se irritar com gente xucra, ele decidiu que não colocaria mais ninguém para trabalhar na fazenda, realizaria todo o serviço sozinho. A plantação estava crescendo, o gado engordando, o que mais havia de tão trabalhoso para se fazer? A mulher cuidaria da manutenção da casa, do jardim e da horta, ele alimentaria as criações, nada de mais. Parece que, nos primeiros dias, a nova rotina até revitalizou o casal. Sentiam-se agarrando a vida na unha, como nos tempos em que ele começou, ainda rapazote, a montar processos para um pequeno escritório de advocacia, enquanto ela cuidava dos gêmeos recém-nascidos e de todo o resto que ele nunca percebia, pois estava sempre feito quando chegava em casa à noite. Quarenta anos depois, eles sentiam que ainda poderiam viver intensamente, achando que remediariam assim a morte. Nós nos enganamos demais nesta vida, mas a morte, essa não se engana nunca. Desculpem a divagação e o clichê, mas os senhores e eu, na nossa idade, temos que pensar nessas questões de vez em quando, ir aceitando aos poucos o inevitável.
Pai dos Burros agora palitava os dentes, sugava os restos de comida com um barulho irritante. Os demais, reféns da curiosidade, aceitavam tudo.
― Infelizmente, o Eudes logo descobriu que não havia remédio que curasse todos os males. Vieram as chuvas fortes, o mato cresceu além da conta, a conversa dos dois – imaginem: sem vizinhos, sem TV a cabo, sem Internet – se tornou previsível, fora que o lamaçal insistia em adentrar a varanda, a sala, os quartos. Os serviços eram sempre os mesmos, nunca davam sinal de diminuir, as dores apareciam mais frequentes quando se esticavam na cama. No dia em que uma leva de formigas cortadeiras destruiu as orquídeas mais amadas de Dona Terência, ela não aguentou mais, fez as malas e anunciou que visitaria o Arnaldo em Maceió por tempo indefinido, e olhem que ela nunca escondeu seu pavor do Nordeste. Arnaldo, os senhores se lembram, é um dos gêmeos, o que passou num concurso no Tribunal de Contas de Alagoas. O outro, Vanderlei, parece que mora na Argentina e é artista, o Eudes nunca falou muito desse, não sei direito. De qualquer forma, tentem se colocar na situação dele. Sozinho no meio do mato, não por um dia ou dois, como a gente costuma fazer em época de pesca, e sim um ano para mais, sem ter ninguém com quem conversar. É isso, o promotor amalucou.
― Capaz! Toda semana o Eudes estava aqui pela cidade, na farmácia, na lotérica, na padaria, mesmo depois que Dona Terência saiu de férias. Isso não explica nem a loucura nem o sumiço.
― Bom, se tivessem me deixado terminar, entenderiam melhor os fatos. Mas se a pressa é tanta, tudo bem, é isso mesmo. Fim da história. Com licença, vou buscar um cafezinho.
Pai dos Burros se levantou, vigiado do outro lado do salão pela esposa. Ela desconfiava de que ele já tivesse gastado demais no leilão e imaginava que agora o infeliz iria se engraçar com as meninas do desfile. Apesar de fatos passados que fomentavam a suspeita, a boa senhora ficou aliviada quando observou o marido pegar o cafezinho no aparador ao lado do palco e, mal notando as ninfetas em microvestidos e saltos altos, voltar imediatamente à mesa de seus companheiros. Ele tinha preocupação maior, o grand finale de sua própria apresentação.
― É essa a história, então? Sem graça, você já foi melhor, bicho – reclamou o advogado mais jovem do grupo, um quarentão que vestia jeans constrangedoramente apertados.
― Eu não disse que tinha mais? Os senhores vão me deixar continuar ou não?
― Vá lá, mas siga direto ao assunto que já está ficando arrastado esse negócio – impacientou-se o segundo advogado, um japonês de óculos quadrados.
― Para que tanta pressa? É domingo, homem! – estranhou o Pai dos Burros.
― Olha lá a molecada fazendo sinal de que quer ir embora, deve ter acabado a bateria do celular. Você está tranquilo, porque é só você e a Janete, que é um poço de paciência, mas vai lidar com adolescente nos tempos de hoje para você ver. Na nossa época, era o pai quem decidia e ponto final.
― E a gente desobedecia quando ele não estava olhando – completou o primeiro advogado.
― Isso, mas na frente dele a gente obedecia. Isso se chama respeito. Enfim, voltando ao que interessa, termina de contar a história do Eudes que isso já está parecendo julgamento presidido pelo Pasqual.
Todos riram, menos o Pasqual, o juiz do grupo. Ele sorriu amarelo e disse aquela que seria, provavelmente, a fala mais curta e clara de sua vida:
― Aos fatos, meus amigos! Utilius tarde quam nunquam.
― Bem falado, meritíssimo! Eu acato suas ordens. A história, vamos a ela. Cerca de seis meses atrás, o Eudes começou a criar javalis. A carne é de comer chorando, já provaram? Uma especiaria! A perspectiva de banquetes futuros foi o que motivou nosso amigo a investir nessa criação, só que, quando chegaram os filhotes, umas abóboras listradas metendo os focinhos curiosos entre as tábuas do chiqueiro, ele decidiu que aqueles ninguém mataria. Deu-lhes nome e tudo. Alimentava-os três vezes ao dia. Três! Um deles chegou a morrer por excesso de comida, acreditam? Foi o que disse o filho do Seu Ignácio, o melhor veterinário da região, com pós-graduação no exterior e tudo. O Eudes ficou inconsolável, não deixou os cães tocarem na carne, providenciou enterro cristão para o bicho, com direito a cruz na cova. Naquele dia, o povo viu pela primeira vez o Eudes numa missa, sozinho, ainda sujo do funeral em que havia sido coveiro e padre. As histórias se disseminaram, foi muita gozação que esse povo fez, talvez os senhores até tenham ouvido alguma coisa. Essa gente é ruim demais! Ninguém me tira da cabeça que foi alguém daqui, de caso pensado, que fez o que fez com o Eudes para atentar contra o juízo do homem. Os senhores querem saber mais?
Os quatro concordaram, sem ousar emitir qualquer som que irritasse o Pai dos Burros, pelo menos, não até que terminasse a história.
― Na véspera do Natal, o velho Eudes continuava ali na fazenda sozinho, sem mulher, sem filhos, sem qualquer companhia humana. Como de hábito, antes de tomar o próprio café, foi levar milho para os javalis. “Pepo, Mano, Dama, Nhonho, Ziza, Tutu, papai chegou”, consigo imaginá-lo chamando e já estranhando o silêncio excessivo, exagerado até para uma fazenda. Seu peito deve ter ficado apertado na suspeita do mal, o ar faltando na hora da confirmação: a porta do chiqueiro escancarada, nenhum bicho à vista.
Pai dos Burros virou a xícara, sorvendo ruidosamente o melado que se depositara no fundo.
― Nesse dia, o homem apareceu aqui no Ângulo desesperado, os cabelos em pé, olhando para todos como se fossem inimigos em potencial. Ficou um bom tempo na sala do delegado, registrou B.O., depois voltou para a fazenda. Desde então, não o vimos mais. Isso já faz o que? Quatro meses? O Zarolho desceu lá mês passado, para ver se o homem estava precisando de alguma coisa. Encontrou-o feito mendigo, todo sujo e rasgado, não conseguiu arrancar uma palavra dele. O vaqueiro não ficou muito por lá, disse que teve medo dos olhos do promotor, olhos de gente perturbada, segundo ele. Também, por que é que foram roubar os bichos de estimação do Eudes? O que ele tinha feito para essa gente? Povinho à toa, não tem conserto isso.
Os cinco ficaram alguns instantes em silêncio, alisando os guardanapos manchados, até que lhes chamou a atenção uma figura magra e desalinhada vindo na direção deles, esgueirando-se entre as mesas.
― Olha lá o Eudes! Não é que ele veio? Agora, sim, vamos pôr os pingos nos is! – animou-se o da calça jeans.
Pai dos Burros embranqueceu, pensava no empréstimo que Eudes nunca lhe pagara, tudo por causa dos malditos bichos, mas não reagiu quando este se sentou na cadeira à sua frente. Agora a notória mesa estava completa.
― Você não morre tão cedo, chapa!
Eudes fixava os companheiros com estranheza, como se tentasse se lembrar de onde os conhecia, então afundou a face entre as mãos encardidas e chorou de soluçar. É a mais pura verdade, que conste tudo em ata. Nesse momento, ninguém notou que o narrador deixava o salão paroquial.
(Quarto lugar no concurso Dirce Doroti Merlin Clève - 2017)

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