Para sair desta modorra
Passei esta tarde na Biblioteca Pública do Paraná, meu abrigo favorito neste calorzão de Curitiba – para você ver que as melhores coisas da vida são de graça. Lá li uns textos sobre alteridade que me inspiraram muito, principalmente o de Godelier. O bendito é tão enrolado que duvido que ele próprio soubesse aonde queria chegar. Desconfio que ele investigava se era possível distinguir representações ideológicas (legitimadoras) das não-ideológicas (organizadoras). A resposta: não é possível. Preciso contar isso a ele, aposto que ficará muito agradecido a mim.
Com essa mãozinha do meu amigo Godelier, concluí que a Sociologia é uma ciência que pega coisas simples do cotidiano e algumas conclusões instintivas (aquele tipo de divagação que passa pela cabeça de todo mundo – por exemplo: existe um mundo independente e externo a mim ou eu o criei? Esse é o primeiro passo para se estudar a alteridade) e as transforma em um emaranhado de conceitos complexos. Não acho que isso seja um ponto negativo para a Sociologia; pelo contrário, é sua melhor qualidade. Eu mesma adoro complicar as coisas, porque isso as torna mais bonitas na maioria dos casos (Dalton, Quintana e cia são exceções).
Pois bem. Se alguns caras podem complicar em cima do óbvio, eu também posso. Vamos brincar de fazer Sociologia!
Primeiro passo: encontrar um tema. Fácil, eu estava dentro dele, este universo chamado Biblioteca Pública do Paraná. Agora um enfoque, ou melhor, um problema de pesquisa. Ah, esse só veio em um momento de profunda reflexão. Enquanto eu mijava dentro do meu tema, pensei “Puta que pariu, este é o banheiro público mais limpo que já vi!”. Depois baixei minha bola “Tá, os de alguns shoppings estão no mesmo nível”. Mas tive uma nova onda de empolgação quando encontrei papel higiênico, sabonete líquido e papel-toalha “Não, definitivamente, este é limpo demais até para o parâmetro da BPP. Eu sei o que digo, mano, já mijei no primeiro andar”. Então, eu investigarei: por que o banheiro feminino do terceiro andar da BPP é tão limpo?
Hipóteses. 1) é o andar menos movimentado; 2) as pessoas passam menos tempo no terceiro andar, por isso, usam menos o banheiro; 3) quem entra na biblioteca com dor de barriga não tem tempo para subir até o terceiro andar, usa o do primeiro mesmo; 4) as funcionárias fizeram um pacto de que lá é um santuário que não poderia ser usado, apenas contemplado. E tantas outras coisas que um cérebro doentio poderia criar.
De fato, é óbvio que os andares mais movimentados são, em primeiro lugar, o térreo (todos têm que passar por lá) e, logo depois, o segundo, onde ficam a gibiteca, a sala de ciências humanas e jurídicas (a maioria dos livros de autoajuda está lá também), os tabuleiros de xadrez e os jornais locais. Só em última posição no quesito popularidade, temos o terceiro andar. Não sei por quê. Lá ficam as revistas, os jornais de outros estados e a sala de ciências exatas e biológicas (paraíso dos nerds). Vai ver é preguiça de subir dois lances de escada ou impaciência de esperar o elevador.
Vimos acima que a primeira hipótese é verdadeira, mas ela não explica ainda toda a situação. Mesmo sendo o menos movimentado, contei cerca de 40 pessoas no terceiro andar, fora as que só estiveram de passagem. Esse número chutado já exclui de cara a hipótese 2. Percebi que, como os jornais e as revistas não podem ser emprestados, os freqüentadores do terceiro andar passam bastante tempo lá. Alguns, como eu, até a tarde inteira.
A terceira hipótese é autoevidente, não tem por que esmiuçar a merda alheia. Mas, e se a pessoa só começa a ter dor de barriga depois que já está no terceiro andar? Daí lógico que ela vai usar o banheiro de lá. Mas vamos pular essa questão que eu confesso que não consigo encaixá-la bem no meu estudo sociológico. Pulemos a quarta também. (Se Sociologia fosse assim, tava fácil, hein.)
Depois de tanta divagação, resolvi partir para uma pesquisa quantitativa. Não dá para ficar só no achismo, não é mesmo? Olhei ao redor e contei: 26 pessoas na sala de periódicos. Uma característica era gritante: desses, apenas 5 eram mulheres, contando aquela que vos fala. Corri para a sala de ciências exatas e biológicas: 15 pessoas, das quais 4 eram mulheres. Bingo! A velha divisão de gêneros explica tudo. Havia pouquíssimas mulheres, logo, o banheiro era pouco usado. No casa da sala de periódicos, quase todos eram homens aposentados. Precisa dizer mais?
Vou contar uma historinha para isto aqui ficar bem lindo. Os homens se aposentam e não sabem o que fazer da vida, ficam em casa enchendo o saco da mulher. Engraçado que esta se aposenta e, ainda assim, não fica à toa como o homem. As brigas começam e logo se tornam insuportáveis. Como nenhum dos dois quer acabar um casamento de 40 anos, já que eles não têm mais beleza para conseguir um parceiro interessante, um dos dois tem que sair. A mulher está de boa em casa, lê, assiste a “Vale a pena ver de novo”, assa um bolo, conversa com os filhos no MSN, faz as tarefas do curso de italiano. Quem está sobrando lá é o homem, o aporrinhador, então ele que se retire. Lugar para ficar de graça hoje em dia é difícil, mas a BPP é uma excelente opção. Lá eles podem ler os quadrinhos de jornal.
Há alguns senhores que eu ainda não consegui decifrar. Eles pegam todas as boas revistas (Caros amigos, Le monde diplomatique, National Geographic, piauí etc.), fazem uma pilha do lado deles para ninguém chegar perto e folheiam raivosamente cada uma das publicações, sem se ater às palavras nem às imagens. Taí, Godelier, vem decifrar essa que a dos banheiros eu já respondi em dois toques.
Esclarecimentos: o post de algumas semanas atrás sobre futilidades foi uma grande piada que todos levaram a sério. Puxa, fiquei duplamente triste, porque vocês realmente acharam que eu pensaria coisas daquele nível e porque devo ter perdido a mão para o humor. Por isso, vou fazer algo contra os meus princípios desta vez – explicar a piada – a fim de não ser mal interpretada de novo.
Eu não tenho nada contra Sociologia. Nem tudo lá é complexo. Se às vezes o parece, é porque não estamos habituados a abstrair, habilidade essa fundamental à condição humana. Mas também pode acontecer de alguns autores, mesmo sendo bons pensadores,não terem lá muito talento para escrever. Antes que perguntem, Godelier é ANTROPÓLOGO, aliás, um dos mais famosos na contemporaneidade. É tão divertido satirizar gente fodona gratuitamente. Ah, e isso de conflitos pós-aposentadoria é uma situação da qual várias colegas minhas de italiano, senhoras de meia idade, já reclamaram. Por isso, acredito que seja, sim, um fato social que mereça ser abordado.
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Fato do dia (de ante-anteontem): Saiu o novo livro do Dalton, “Pavões e Violetas”. Ok, isso já faz mais de um mês, mas, nas últimas semanas, estive tão alienada que mesmo um lançamento do meu contista favorito passou despercebido. Parece que ele deixou um pouco de lado o estilo ultraeconômico. Uma pena, essa era uma das coisas de que eu mais gostava nele... Para ser sincera, estou com medo de não gostar daqui em diante. Impossível, “Uma vela para Dario” acaso é ruim? Absolutamente. By the way, meu aniversário está chegando e a Livraria do Chain dá 10% de desconto para estudantes.
Olha, se todo post sair grande assim, essa média de um post por dia não vai sair não, hein.
ResponderExcluirVocê continua sendo magra. :P
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