Minha namorada

― Pai, mãe, esta é a minha namorada, Billie.

Na véspera, nós duas havíamos apostado o que eles criticariam primeiro – o fato de ela ser negra, mulher ou estar morta. Ao ver uma foto do meu pai, aquela carona de fazendeiro texano, ela colocou suas fichas na cor. Não, como típica família de classe média, que assiste todo dia à novela do Manoel Carlos, eles posariam de moderninhos e a acolheriam bem. Foi o meu palpite. Além do mais, quando ela colocava aquele vestido rodado branco parecia um quitute de casamento, linda e deliciosa. Era impossível não gostar dela.

― Mas, filha, vocês duas são mulheres. Como pretendem se casar e ter filhos? – disse meu pai num fio de voz. Ele estava tão chocado que não conseguia nem gritar, como sempre fazia por qualquer coisa, tipo, um livro fora do lugar ou a comida fria.

― Eu já lhes disse há anos que não quero ser nem esposa nem mãe. Não estudei tudo o que estudei para acabar derrotada por esse ideal capitalista e machista.

― Você e essas ideias feministas. Depois que você veio com aquela tal de Beauvoir pra dentro de casa, até sua mãe se recusa a lavar as louças. Eu trabalho a minha vida toda, dou tudo para vocês e é assim que me retribuem?

― Viu, mãe, eu disse para você que deveria voltar a estudar e procurar um trabalho o quanto antes. É assim mesmo que os machistas agem: ‘eu te dei tudo e agora você me abandona’. Não, mãe, ele só lhe deu o dinheiro dele e, em troca, quer a sua vida. É justo?

Minha mãe me puxa de lado, dizendo que quer me mostrar algo na cozinha. Eu digo a Billie que espere no meu quarto.

― Sabe a minha coleção de gibis de que sempre falo? Veja lá! - na verdade, quero me assegurar de que meu pai não pulará no pescoço dela enquanto eu estiver afastada.

Minha mãe então começa seu apelo:

― Filha, eu não estou contra você. Tenho muito orgulho de que seja independente e tudo o mais. Aliás, quando você dizia que adorava um negão, sempre te dei a maior força. Mas agora você aparece com uma NEGONA? Pense bem, se for mulher não tem a vantagem que nos atrai nos negões, hein? – ela, então, pisca e dá uma risadinha. Minha mãe tentando se fazer de malandra era muito engraçado. Ela me prefere ninfomaníaca a contar às amigas que tem uma filha lésbica. Vai entender esses valores cristãos.

― Eu já tenho um negão de borracha! – e copio a piscada dela.

Adoro fazer piadas que choquem os meus velhos. Se um dia eles caírem duros, podem me prender. Não me canso disso.

Chamo Billie de volta à sala e pergunto o que terá de almoço, para ver se a situação volta à normalidade. Impossível. Nessa altura do campeonato, minha mãe está chorando na cozinha e meu pai, roxo, prestes a explodir. Olho para minha bela namorada e ela me olha de volta, em solidariedade. Eu adoro isso nela: não se envergonha por ser negra e mulher (por que o faria?) e ainda tem dó daqueles que a humilham por conviver mal com a aparência dela.

― Chega desse teatrinho. A Billie é uma mulher maravilhosa, e nenhum de vocês sequer cogitou conhecê-la melhor. Se o fizessem, saberiam como she’s got soul.

Billie limpa a garganta, põe a mão sobre o peito, como se o coração lhe doesse, e canta “Strange Fruit”.



Meus velhos infelizmente não entendiam a letra dessa música, um dos mais belos poemas em língua inglesa, mas se percebia que estavam profundamente comovidos. Também, se não estivessem, seria sinal de que haviam perdido toda a humanidade.

― Sinto muito, Billie. – disse minha mãe, limpando as lágrimas.

― Já passou para o lado delas, é? Bem típico de você. – atacou meu pai – Eu só estou preocupado com o seu futuro, filha, e vocês me tratam como se eu fosse o vilão dessa história. Afinal, de que vocês duas pretendem viver? De alma, de música? Você precisa é de um homem que te sustente, que te pague um belo vestido e entradas na primeira fila do Carnegie Hall. Você não precisa se casar com essa daí para ouvir a música dela. É só ter dinheiro.

― De fato, dinheiro é o melhor consolo para uma vida infeliz. Pode parecer ingênuo querer viver de poesia e amor, mas é o que eu mais quero agora. Talvez eu me estrepe daqui a uns anos. Mas, se abandonar isso antes mesmo de tentar, estarei me igualando a vocês, uns frustrados. Eu só tenho 20 anos, e vocês querem me condenar a uma vida de tédio! O tédio virá mais cedo ou mais tarde, já me ensinou Camus, mas enquanto ele não chegou, eu quero viver, viver e ouvir música até me acabar. Quando a juventude chegar ao fim e eu não suportar mais acordar de manhã, quando o melhor momento do meu dia for fazer compras no shopping, daí eu volto aqui e digo que vocês estavam certos, mas esse dia não é hoje.

― Desde criança essa menina é assim, adora um discursinho emotivo. Vamos ver quanto tempo você vai aguentar, Billie. – resmungou meu pai.

― Vamos, gente, sentem à mesa antes que o almoço esfrie – disse minha mãe – Você gosta de suflê de espinafre, Billie? Espero que sim, porque aqui em casa a gente é muito natureba, sabe.

Comentários

  1. Hummm, eu adoro lésbicas. Mas infelizmente não sou chegado numa necrofilia, hahaha

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  2. q

    pra mim, o unico problema é que billie era muito feia.

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  3. que inveja de você

    ;*
    saudadeee
    ana

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