Pseudocult
Esses dias de feriado prolongado me deram o tempo necessário para pensar sobre as coisas que eu havia lido e assistido ultimamente.
Embora hoje eu tenha concluído a leitura de O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë (belíssima história indicada por Rê, Van e Mari; agora também me junto ao time de fãs), não falarei dele em particular e sim do livro que li antes, La peste, de Albert Camus.
Na época da leitura, separei dois trechos que citarei logo mais. Todavia, antes, farei um breve resumo da história para localizar aqueles que não a conhecem.
**
Resumo
Estamos em Oran, uma cidade comum habitada por pessoas que não têm preocupações mais profundas senão os fatos cotidianos. O personagem principal é Rieux, um médico ateu que exerce sua função o melhor que pode, mas sem jamais questioná-la ou tentar mudar seu modo de vida.
O conflito se apresenta quando milhares de ratos mortos aparecem por toda a cidade. Após alguns dias, são as pessoas que começam a perecer por causa de uma doença desconhecida. O número de defuntos é tão elevado que o estado de peste é decretado. Assim, a cidade é isolada e ninguém pode sair dela.
Durante o livro, um grupo de pessoas se põe a ajudar os doentes. No ano em que a doença acomete Oran, presenciamos como cada personagem encara essa situação. Até que, tão misteriosamente quando apareceu, a peste desaparece.
**
Agora que vocês já conhecem o contexto geral, cito as passagens que havia separado (tradução minha).
A maioria das análises faz analogia da peste com a Segunda Guerra Mundial, em especial com o regime nazista de Hitler. Acho a comparação bem sensata, uma fez que a história se passa em 194* e retrata como um mal irracional afetou indiscrimadamente milhares de pessoas, boas e más. Era uma situação tão absurda, tão repleta de insegurança, que a existência acaba sendo banalizada. Vivendo sem liberdade e sem perspectivas de longevidade, a morte passa a fazer parte do cotidiano. Por fim, quando a peste se vai, o sentimento é de desnorteamento. O que sobrou e pelo qual ainda vale a pena viver? Eu, que nunca vivi a situação e só a imagino, já acho impossível responder. O que dirá aqueles que presenciaram e ainda vivem o pós-guerra (e aqui não me refiro apenas à Segunda Guerra Mundial)...
Para finalizar, um belo exemplo. Na foto abaixo, Camus e sua equipe do jornal Combat, em 1944. Camus é o cara ao centro com o cigarro (aliás, acessório indissociável ao autor). O jornalismo pode sim fazer alguma coisa de útil e de louvável. É só questão de não nos omitirmos e nem vendermos nossa voz. (Estou tão ideologista hoje...).

[1] Rambert é um jornalista que não mora em Oran; estava no lugar só a trabalho. A peste e o conseqüente isolamento da cidade, no entanto, o impedem de sair de lá. No trecho que cito, ele estava tentando fugir para poder rever sua mulher.
[2] Paneloux é o padre que encara a peste como castigo de Deus perante o qual se deve resignar. Segundo algumas análises, ele representa a religião que aceita tudo passivamente e que desencoraja a ação do homem.
Embora hoje eu tenha concluído a leitura de O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë (belíssima história indicada por Rê, Van e Mari; agora também me junto ao time de fãs), não falarei dele em particular e sim do livro que li antes, La peste, de Albert Camus.
Na época da leitura, separei dois trechos que citarei logo mais. Todavia, antes, farei um breve resumo da história para localizar aqueles que não a conhecem.
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Resumo
Estamos em Oran, uma cidade comum habitada por pessoas que não têm preocupações mais profundas senão os fatos cotidianos. O personagem principal é Rieux, um médico ateu que exerce sua função o melhor que pode, mas sem jamais questioná-la ou tentar mudar seu modo de vida.
O conflito se apresenta quando milhares de ratos mortos aparecem por toda a cidade. Após alguns dias, são as pessoas que começam a perecer por causa de uma doença desconhecida. O número de defuntos é tão elevado que o estado de peste é decretado. Assim, a cidade é isolada e ninguém pode sair dela.
Durante o livro, um grupo de pessoas se põe a ajudar os doentes. No ano em que a doença acomete Oran, presenciamos como cada personagem encara essa situação. Até que, tão misteriosamente quando apareceu, a peste desaparece.
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Agora que vocês já conhecem o contexto geral, cito as passagens que havia separado (tradução minha).
Página 208:
"— Doutor, disse Rambert[1], não partirei. Quero ficar com vocês.
Tarrou não parou. Continuava a dirigir. Rieux parecia incapaz de emergir de seu cansaço.
“E ela?”, disse ele numa voz surda.
Rambert disse que havia refletido e que continuava a acreditar naquilo que acreditava, mas que, se partisse, teria vergonha. Isso o incomodaria para amar aquela que ele havia deixado. Rieux, por sua vez, endireitou-se e disse com uma voz firme que aquilo era estúpido e que não havia vergonha em preferir a felicidade.
— Sim, disse Rambert, mas pode haver vergonha em ser feliz sozinho.
Tarrou, que estava calado até então, sem se voltar para eles, observou que, se Rambert queria dividir a infelicidade dos homens, ele nunca mais teria tempo para a felicidade. Era preciso escolher.
— Não é isso, disse Rambert. Eu sempre pensei que era estrangeiro nesta cidade e que não havia nada a fazer junto a vocês. Mas agora que eu vi o que vi, eu sei que eu sou daqui, quer o queira quer não. Esta história concerne a todos nós."
Página 216:
"(...) A boca aberta, mas muda, a criança repousava na concavidade das cobertas em desordem, bruscamente diminuída, com o resto das lágrimas sobre o rosto.
Página 216:
"(...) A boca aberta, mas muda, a criança repousava na concavidade das cobertas em desordem, bruscamente diminuída, com o resto das lágrimas sobre o rosto.
Paneloux[2] se aproximou do leito e fez o sinal de bênção. Depois recolheu suas vestes e saiu para a ala central.
— É preciso recomeçar tudo?, perguntou Tarrou a Castel.
O velho médico sacudia a cabeça.
— Talvez, disse ele com um sorriso contrariado. Depois de tudo, ele resistiu por bastante tempo.
Mas Rieux já deixava a sala com um passo bastante precipitado e com uma expressão que, assim que passou por Paneloux, fez este estender o braço para retê-lo.
— Vamos, doutor, lhe disse.
No mesmo movimento brusco, Rieux se voltou e lhe lançou com violência:
— Ah! Esse, ao menos, era inocente. O senhor sabe muito bem disso!"
Só de reler esses trechos, fico realmente comovida. O primeiro mostra o envolvimento de uma pessoa numa luta que, no fim das contas, não era sua. O segundo, a revolta do médico após presenciar a morte de uma criança inocente. Sua ira se volta contra o padre, porque este, no começo da manifestação peste, havia feito um sermão dizendo que esse mal era o castigo de Deus aos pecadores. A morte de uma criancinha é um golpe muito cruel e sempre me leva às lágrimas. Lembro-me de quando assisti a O labirinto do Fauno, desespero total!
Só de reler esses trechos, fico realmente comovida. O primeiro mostra o envolvimento de uma pessoa numa luta que, no fim das contas, não era sua. O segundo, a revolta do médico após presenciar a morte de uma criança inocente. Sua ira se volta contra o padre, porque este, no começo da manifestação peste, havia feito um sermão dizendo que esse mal era o castigo de Deus aos pecadores. A morte de uma criancinha é um golpe muito cruel e sempre me leva às lágrimas. Lembro-me de quando assisti a O labirinto do Fauno, desespero total!
A maioria das análises faz analogia da peste com a Segunda Guerra Mundial, em especial com o regime nazista de Hitler. Acho a comparação bem sensata, uma fez que a história se passa em 194* e retrata como um mal irracional afetou indiscrimadamente milhares de pessoas, boas e más. Era uma situação tão absurda, tão repleta de insegurança, que a existência acaba sendo banalizada. Vivendo sem liberdade e sem perspectivas de longevidade, a morte passa a fazer parte do cotidiano. Por fim, quando a peste se vai, o sentimento é de desnorteamento. O que sobrou e pelo qual ainda vale a pena viver? Eu, que nunca vivi a situação e só a imagino, já acho impossível responder. O que dirá aqueles que presenciaram e ainda vivem o pós-guerra (e aqui não me refiro apenas à Segunda Guerra Mundial)...
Para finalizar, um belo exemplo. Na foto abaixo, Camus e sua equipe do jornal Combat, em 1944. Camus é o cara ao centro com o cigarro (aliás, acessório indissociável ao autor). O jornalismo pode sim fazer alguma coisa de útil e de louvável. É só questão de não nos omitirmos e nem vendermos nossa voz. (Estou tão ideologista hoje...).

[1] Rambert é um jornalista que não mora em Oran; estava no lugar só a trabalho. A peste e o conseqüente isolamento da cidade, no entanto, o impedem de sair de lá. No trecho que cito, ele estava tentando fugir para poder rever sua mulher.
[2] Paneloux é o padre que encara a peste como castigo de Deus perante o qual se deve resignar. Segundo algumas análises, ele representa a religião que aceita tudo passivamente e que desencoraja a ação do homem.
Sobre o post:
ResponderExcluirQue bom que você gostou de Morro dos Ventos Uivantes... A minha vó está adorando Moll Flanders...
Sobre o "Recadinhos do coração":
Eu sei que essa frase não é para mim, porque não tenho cabelo de sereia...
Sobre a imagem que aparece na barra ao lado:
Não adianta, Su. Eu sei que a foto na sua carteira de motorista não saiu daquele jeito para imitar a Barbie...
Ah, Suby, você é a minha amiga mais cult, ao lado da Rê!
ResponderExcluirAinda não li esse livro, embora esses dias, ao visitar a blibioteca da Federal, ele tenha olhado pra mim com uns olhos (não, com a boca...) de "me leva pra casa". Porém, resolvi ler a biografia do Pardalzinho.
Pois bem, embora não tenha lido, achei os dois trechos muito interessantes, principalmente o primeiro. Muito singelo.
Vou ler e depois te digo minhas impressões.
Ah, sei que gostou muito do livro da Brontë, então, please, presenteie-nos com uma endoscopia de Catarina Linton e Cia.
Beijos.
Mais um autor para a lista de férias...
ResponderExcluirPor que pseudocult?
ResponderExcluirPorque eu acho muito cult dizer que gosta de Camus. E todos sabem que eu estou mais para "massa" do que para cult... Por isso o pseudocult.
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