Endoscopia

Ontem à noite assisti às 4 horas do filme Gone with the Wind (... E o vento levou). Havia planejado ver duas horas num dia e duas em outro, mas não consegui parar até que se esgotasse o último minuto. Torci tanto para que Rhett ficasse... Por que nunca consigo mudar o final? Puxa, já havia lido o livro e assistido ao filme, e toda vez o Rhett vai embora. E toda vez eu sofro junto.

O que mais me fascina nessa história não é simplesmente o amor complicado entre Rhett e Scarlett, mas, sobretudo, a personalidade da nossa heroína. Metade irlandesa, Scarlett O’hara é caprichosa, vaidosa, fútil, egoísta, mesquinha, falsa, gananciosa e, sem dúvida, a mulher mais linda de que já se ouviu falar... Enfim, possui todas as características para uma vilã de mão cheia. Talvez tivesse sido a antagonista, enquanto a boníssima Mellanie seria a protagonista. Porém, não se pode determinar o próprio destino. No momento em que Scarlett teve seu mundinho destruído pela Guerra Civil Americana, foi obrigada a lutar pela sobrevivência. Nós, expectadores, conhecemos desde o início da trama a força dessa jovem, só que também sabemos que ela não moveria um dedo se não tivesse sido forçada pelas circunstâncias.

Gosto bastante do começo do filme (por sinal, muito fiel ao livro) em que os vizinhos de Scarlett discutem política na varanda da mansão de Tara. Scarlett, irritada por não ser o centro da conversa, faz aquele teatrinho “como-podem-falar-dessas-bobagens-de-guerra-em-vez-de-me-dar-atenção?” e franze a testa de um modo muito característico dela. No churrasco em Twelve Oaks, vemos outra demonstração dessa personalidade egocêntrica quando ela está sentada num banco e todos os rapazes da festa a cercam. E ela ainda faz um comentário como o quanto seria ruim se comesse à mesa, onde lá teria só dois lados.

Scarlett é incrível, porque consegue o homem que quiser imediatamente. O primeiro marido, Charles, lhe propôs casamento no mesmo dia em que ela fingiu algum interesse por ele (e olhe que não foi nenhuma cantada direta, ela só lhe disse que o achava bonito). O segundo, Kennedy, era noivo de Suellen (garota destestável!). E Scarlett o roubou da irmã com uma mentira e um charminho assim: “Estou com tanto frio, posso esquentar minhas mãos no seu bolso?”. Hahaha! Adoro a falta de caráter dessa mulher!

Bem que Rhett dizia que os dois eram idênticos, pois nem ela era uma lady nem ele era um gentleman. E, por sinal, o fato de Scarlett ter se casado com Rhett foi uma outra grande conquista dela, pois este dizia que nunca se casaria com ninguém. Ela não só despertou nele esse desejo como foi ele quem precisou implorar a ela para a aceitar o pedido. Bem, não exatamente implorar. Mas foram anos de sedução e um golpe final: um beijo tão bem dado que ela não conseguiu reagir senão aceitando a proposta de casamento dele. Pensa só na cena. Scarlett havia acabado de ficar viúva de Kennedy e estava com dois filhos (um de cada casamento). Rhett chega dizendo que queria se casar com ela. A resposta foi que nunca mais se casaria – da primeira vez se casou só para machucar Ashley; da segunda, para conseguir dinheiro para pagar os impostos de Tara. Então vem aquele beijo. E ela, até meio tonta, diz “sim”. Hehehe! Rhett é outra figura.

Outro traço importante da heroína é seu amor por Tara. A fazenda construída pelo pai (o velho irlandês Gerald) é uma fonte de forças para ela. Nos momentos mais difíceis (o que, para Scarlett, é sinônimo de falta de dinheiro), era a Tara que ela corria. Por Tara, ela teria perdido toda sua beleza trabalhando no campo (e de fato trabalhou muito duro, em igualdade com os ex-escravos que permaneceram na lavoura). Por Tara, ela se casou com um homem velho e desinteressante (o noivo da irmã). Por Tara, ela se transformou numa verdadeira bruta e arrumou briga com pessoas importantes.

Uma das cenas mais bonitas (e clássicas) do filme é quando Scarlett, esfarrapada e faminta, arranca uma cenoura da terra e a devora. Humilhada, chora e diz: “As God is my witness, as God is my witness they're not going to lick me. I'm going to live through this and when it's all over, I'll never be hungry again. No, nor any of my folk. If I have to lie, steal, cheat or kill. As God is my witness, I'll never be hungry again”.

Vou tentar fazer uma reconstituição de algumas cenas com fotos que encontrei na web. Espero despertar em vocês a vontade de ver o filme, porque, só de falar a respeito, eu mesma já estou muito tentada a encarar novamente as 4 horas...


A primeira cena do filme, que descrevi acima.

Scarlett corre pela amada Tara. Ah, doce infância, doce paraíso...


A fiel Mammy ajuda a bela a se arrumar para o churrasco em Twelve Oaks. Essa cena me lembra uma, mais para o final do filme, em que acontece exatamente a mesma situação. Só que, nesta, Scarlett reclama que a gravidez a deixou gorda ("50 cm de cintura?"; e ela queria voltar a 47 cm, como antigamente. Dá pra acreditar nisso?) e decide que nunca mais terá filhos. Rhett, furioso com a decisão da mulher, quebra a porta do quarto - para mostrar que não adiantaria trancá-la para detê-lo.

Cena do churrasco, que também descrevi acima.

Primeira vez que Scarlett e Rhett se vêem. Lógico que ele tinha que estar na base de uma romântica escadaria de marfim. E já tinha aquele olhar safado e sedutor... Ai!

Scarlett se casa com Charles para ferir Aslhey, que se casara com Mellanie. Sorte da nossa heróina que o bobalhão de seu marido morre poucos meses depois. Azar ao mesmo tempo, porque deu tempo de ela engravidar.

No baile beneficente de Atlanta, Rhett dá o maior lance para poder dançar com Scarlett. Esta, entediada com a sua vida recatada de viúva, aceita com muita boa vontade (com a desculpa de que era pela causa da Confederação). E escandaliza toda a cidade.

Nesta belíssima foto, Scarlett e Mellanie ajudam a cuidar do confederados feridos. Esta última o faz por caridade. A primeira, para mostrar à cidade que também pode fazer algo.

Scarlett preocupada, porque o Dr. Meads não pode vir fazer o parto de Mellanie. Com uma ajudante inútil como Prissie, que outra alternativa senão fazer ela mesmo o parto? Sem saber, a jovem desenvolve uma qualidade em comum com a mãe, a quem tanto admira: pôr o bem estar do próximo acima do seu próprio.

Após salvar Scarlett, Mellanie, Beau e Prissie das chamas de Atlanta, Rhett tem um lapso de patriotismo e se despede da amada para ir lutar numa guerra perdida. Com um tórrido beijo, é claro.

Puxa, foi difícil encontrar uma foto razoável do tal vestido verde de cortina! Essa foi a mais bonita, pena que só dá pra ver o detalhe do chapéu. Sobre a cena: Scarlett, falida e trabalhando nos campos de Tara, usa a cortina de sua mãe para fazer um belo vestido (este que vocês estão vendo). O objetivo era procurar Rhett e, não deixando que ele perceba quão pobre ela está, lhe pedir dinheiro para os impostos da fazenda. Às vezes Scarlett é tão ingênua... Ela achou que, em troca de um beijo, Rhett lhe daria 300 dólares.

Esta foto é perfeita, porque mostra a cara mais típica de cada um dos personagens: Rhett com seu olhar por baixo (estilo cão vadio querendo um afago) e Scarllet com a testa franzida.

Esse é o tal beijo que convenceu Scarlett a se casar o quanto antes com Rhett. Reparem que ela ainda está com trajes de luto. Ele diz que ela já se casou com um menino e com um velho e que, agora, ela conheceria o que é ser casada com um homem. Uhhh...

Rhett e Scarlett em lua-de-mel em New Orleans. Mesa e cama fartas!

Após Scarlett ter sido flagrada nos braços de Ashley (justo no único abraço sem más intenções entre os dois), tranca-se no quarto por vergonha do que a cidade estará comentando. Rhett a arranca da cama, escolhe o melhor vestido dela e a obriga a se vestir e ir à festa de aniversário de Ashley. Ele quer que ela enfrente as más línguas da sociedade com cabeça erguida para que, futuramente, sua filha não tenha a reputação manchada.

Mellanie em seu leito de morte. É quando finalmente Scarlett tem um "click" e descobre que ama de verdade a amiga e Rhett. Tarde demais...

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Este livro pode não ser o mais inteligente, nem o mais criativo, nem o mais bem escrito que já li. Mas, certamente, é o que tem a história mais envolvente. Por isso, falar dele é uma espécie de post intimista sobre mim. E esteja concluída esta endoscopia.

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Galeria
Alguns modelitos de Scarlett:
(Vote no seu favorito!)

1. Robe vermelho que ela usa na noite em que Rhett, bêbado e enciumado, a pega de jeito.

2. Vestido de sua época adolescente. Primeiro figurino que usa no filme.
3. Vestido de cortina: clássico!

4. Já casada com Rhett, Scarlett usa a última moda de Paris.

5. Vestido do churrasco em Twelve Oaks. Scarlett era a única moça com os braços de fora antes das 15h. Escândalo!

6. Modelo que ela usa na festa de aniversário de Ashley. Morenas de vermelho também podem ser fatais!

Comentários

  1. credo
    esse Rhett é tao feio

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  2. E tem a cena do vestido de cortina!!! Amo! Amo! Amo!
    E olha que eu nem gosto de verde...

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  3. E tem a cena do vestido de cortina!!! Amo! Amo! Amo!
    E olha que eu nem gosto de verde...

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  4. E tem a cena do vestido de cortina!!! Amo! Amo! Amo!
    E olha que eu nem gosto de verde...

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  5. E tem a cena do vestido de cortina!!! Amo! Amo! Amo!
    E olha que eu nem gosto de verde...

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  6. Assumo. Eu cliquei muitas vezes porque achei que esse negócio não estava indo...

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  7. Bem, lembrado (e enfatizado), Rê! Vou procurar uma foto daquele vestido. É que não achei até agora...
    Ah, verde é tudo de bom. É a cor que a Scarlett mais usa.

    Bjs!

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  8. Adorei essa endoscopia, meus parabéns! Como comentamos, adoro muito esse filme, é um dos filmes longuíssimos a que assisto com o maior prazer do mundo. E vou ler o livro o quanto antes, pois amo tanto histórias que se passam nessa época! Embora seja mais recente,e com as peculiaridades de cada uma, a história dos dois me faz pensar na de Catarina Linton e Heathcliff, em "O morro dos ventos uivantes", o melhor livro que já li.
    Ah, a cena do robe vermelho e o modelo que ela usa na festa de aniversário de Ashley são os melhores, não sei dizer qual é o mais lindo. E morenas de vermelho são sempre fatais.
    Beijos.

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  9. Rêgata, você tá com TOC!

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  10. ahaha, vc me lembrou de um ótimo momento da minha vida... Nossa, preciso ver este filme de novo, é fabuloso! O mais legal que que, mesmo Clack Gable estando velho e semi-decrepito, ele ainda consegue fazer um Rhett absolutamente irresistível.
    E, realmente, toda vez que assisto também fico torcendo para o final mudar, mas daí lembro que Scarlett tem de ser amarga para estar no seu melhor.

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