Elegia da gente viva (parte 1, capítulo 1)
Nota explicativa: estou publicando duas
vezes por semana (às quartas e aos domingos) capítulos do meu romance “Elegia da
gente viva”, ainda inédito. Para ter acesso ao sumário com os capítulos já
publicados, clique aqui.
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PARTE 1: TRÊS TRAMAS TRISTES
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1. Ela
Bobagem o conselho de “alegre-se”. Quero dizer, estar vivo é estar alegre de algum modo, não importa como isso se apresenta. Contemplação, tédio do tédio, tensão, revolta, tremor emotivo, movimento, encontro, quentura, tudo aumentado, explosão, gozo, rir de soluçar, cansar e cair num sono sonhado, para começar tudo de novo, só que depois, algo diferente de antes.
Isso vale também para o conselho avesso, seria absurdo dizer ao morto “entristeça-se”. A gente finada não faz nada, não dá uma risada bem dada, nem pede uma bofetada mirada na arcada dentária. Tem gente que morreu e não sabe. Avisa esses daí que a vida tem que ser alegre, senão... Já que nasceu, viva. Outra opção nem existe, só a ilusão de haver escolha. Chorar a gente chora, sentir pena também, espernear e gritar, nem me fale que eu conheço demais isso tudo, mas se o camarada respira é porque ainda não finou, digo, findou. E o reino da alegria sempre chega, ainda que seja a mais efêmera das fortalezas já construídas por crianças à beira-mar. Essa é a consequência mais que certa, óbvia, da vida. A satisfação de acordar um dia e não doer mais. Sentir o vento nas ventas e pensar “como é bom estar aqui”.
Bobagem dizer. Os mortos não ouvem, os vivos não precisam. Mesmo assim eu dizia para ela, minha vizinha. Só mudava o palavreado, mais simplório, porque essa história aconteceu faz algum tempo já, centenas de livros atrás, antes até daquele irlandês que me revelou que os mortos cantam e os vivos morrem. O motivo da coisa toda é o afeto, embora o mérito da descoberta seja da arte. Pelo menos, é o que me parece, e há quem concorde comigo – gente de bem, diga-se de passagem.
Ela me ligava a qualquer momento, nunca falava para que. Eu via que era ela. Lá estava sua silhueta parada na janela em frente à minha, olhando para baixo, cortejando os sete andares de mergulho. Sem que tivesse me pedido coisa alguma, eu enumerava motivos para a alegria, dizia debaixo, falava fraco, mentia mal. Ela só respondia muito depois, fria, que queria morrer. Quem me dera ela tivesse feito a contrapartida, listar as razões para a tristeza, e me convencesse a aceitar aquilo que eu também sentia lá no fundo do meu fígado. Vai ver, ela própria desejava ser persuadida, mais do que persuasiva. Que batalhazinha boba, éramos duas almas perdidas em matéria de vida.
Ela abraçava o parapeito com o corpo. O cabelo, cachoeira loira, se adiantava na vontade de desaguar. Uma primeira gota – lá vai cuspe! – desabou direto na careca do porteiro que fumava na calçada. A careta, o grito “molecada do capeta!”, a risada dela ecoando pela madrugada. O infeliz alvejado desconhecia quanta sorte tivera de não levar carga mais pesada.
Essa amiga eu nunca mais vi. Mudei, mudamos. Até que ela me ligou no ano passado, fantasma dos velhos tempos. Só disse “sou eu”, mais nada. Ela esperava como sempre que lhe dissesse coisas que eu não sabia bem o que eram. Arrisquei o antigo e ainda um tanto mentiroso otimismo, convidei para um café amigável. Ela resmungou algo que eu, como de costume, não entendi. No dia seguinte, uma mensagem de texto “foi mal, não posso, mesmo”. Insisti ainda uma segunda vez e, como ela nunca me respondeu, esqueci o caso.
Tá parecendo o começo de um livro de terror.
ResponderExcluirSerá q é?? (Mistério)
ExcluirSó de ser brasileiro já daria um livro de terror, não acha?
Ser brasileiro adulto deixa todo filme de terror chato.
ExcluirSer adulto acaba um pouco com o terror. Tem um barulho esquisito na casa? Eu não penso em nada sobrenatural, eu penso: "que merda, deve ter algo que vai precisar de con$$$erto".
Bons tempos em que o que assustava era Freddy e Jason, em vez de boletos e contas.
"que merda, deve ter algo que vai precisar de con$$$erto"
ExcluirExatamente.
Mas pense pelo lado positivo, ainda não estamos na fase em que qlqr barulho esquisito suscite o pensamento "que merda, vou ter que operar de novo".
Quando eu digo "algo que vai precisar de con$$$erto", engloba o corpo também :P
ExcluirEntão já era.
ExcluirPior que até aquela que não tem con$$$erto cu$ta.
A abertura do livro ficou legal. O começo in media res, já disparando uma reflexão que parecia ter sido muito matutada pela voz narrativa, permite criar uma expectativa sobre o contexto e sobre a apresentação das personagens. Essa apresentação soa a algo como um monólogo interior, uma certa forma de tentar elaborar determinadas questões da narradora. Por isso ela traz traços sutis da personalidade dela.
ResponderExcluirGente, que chique, tenho meu próprio crítico literário...
ExcluirAgora... narradora? Será que ela é, será que ela é??