Regras do banheiro
— Regras do banheiro: não jogar papel higiênico no vaso sanitário; dar descarga; antes de descartar o absorvente usado, enrolá-lo num papel; lavar as mãos; não desperdiçar papel toalha, uma folha é suficiente! É pra acabar! Não conseguimos nos resolver pela moral, temos que apelar ao legal. Esqueceram de escrever aqui na plaquinha de que modo devemos limpar a bunda, quantas vezes retocar o batom, quanto tempo esperar antes de dar pro cara. Mais alguma sugestão?
— Você é terrível, não deixa escapar uma, né? Que tal esta: não se estressar com regras óbvias?
— Se a gente não é mais rápida, seremos nós que estaremos em pauta na boca dos outros. Devia ter um décimo primeiro mandamento: criticais o próximo antes que ele o faça. Não tão santo, mas compensa em sabedoria.
A conversa foi se extinguindo em meio aos tec-tecs dos saltos altos se afastando, até ser completamente abafada pela porta que se fecha. Aquelas duas pareciam ser mulheres educadas, independentes e extremamente insatisfeitas com a vida. Esse tipo, que a cidade grande produz aos montes, tende a se crer o único ser pensante num raio de, vamos chutar, 20 km. Ignorar que não é especial é uma bênção para elas, talvez seu único pilar de sustentação. Deixa elas pra lá, já se foram mesmo.
A terceira sentiu que enfim estava sozinha naquele banheiro enorme de shopping, nem assim conseguiu abrir a porta da cabine. Vamos lá, você consegue, todo mundo faz isso sem pensar duas vezes. Este é o segredo, não pensar.
Respiração difícil, pés congelados sobre o vaso. Se sair daquele autoabraço, estará solta, sabe-se lá onde pode parar. Talvez num lugar onde não consiga mais se achar, daí ferrou. Por que aquelas duas não ficaram mais um pouco? Eu teria mais tempo pra me preparar. Agora é pura pressão. O sinal da largada já foi disparado, se não começar a correr, todos perguntarão por que só eu fiquei parada.
Pensamentos encorajadores. Ninguém desconfia. Não sou exatamente asseada, mas nunca cheiro mal, nem depois de suar muito. Eu pelo menos não sinto. Esse deve ser algum tipo de talento, já que tem muita gente malcheirosa neste mundo, mesmo às sete da manhã, quando ainda está friozinho. Não falei nenhuma besteira hoje, mas também não conversei longamente com ninguém. Eu bem que poderia ter ido atrás de uma conversa e cagado, mas não o fiz. Saber prever o perigo, sinônimo de prudência. Taí, essa palavra tem cara de virtude. Posso alegar isso, melhor do que o argumento de não feder. Que tipo de pessoa acha que não feder é um talento? Mas ainda assim muita gente fede, mesmo usando desodorante. Não vou por aí de novo, gente repetitiva é chata. Será que alguém desconfia de que estou tendo sempre a mesma conversa o tempo todo?
Aí vem gente, graças a deus, mais tempo pra pensar. Você é besta? Pensar é o que cria esta situação toda! Pra você ver que, quando deus atende nosso pedido, a gente descobre que não conhece as próprias necessidades. Por que foram entrar essas novas mulheres? Talvez eu conseguisse antes, no impulso, com a batata quente na mão. Agora não dá, perdi a chance. Não sei mais o que vai acontecer.
— Nunca mais te trago pra passear comigo, olha o vexame! Não bastando gritar que nem biruta na loja, ainda tinha que mexer nas coisas dos outros e derrubar tudo no chão. Bem feito que ralou o joelho! Não sei onde enfiar a minha cara!
Ao fundo, um previsível choro de criança plus algo não tão óbvio: dois tênis do Ben 10, daqueles de velcro. Numeração para cinco ou seis anos. Voz de criança é tudo igual, meio assexuada, mas certeza que esse é menino. Se fosse menina, estaria testemunhando algo interessante. Uma menina que gosta de assistir a Ben 10, algo bem possível, não tem o direito de consumir um produto com seu herói favorito estampado. Achei que o capitalismo produzisse ao menos a liberdade de comprar, mas parece que esse direito não chegou ainda às crianças de classe média. Seria bonitinho garotos daquele tamanhico já usando echarpes floridas se quisessem. Tênis do Ben 10 é de mau gosto, vale a pena lutar por esse direito afinal?
— Engole esse choro que ainda temos que ir no Luc e depois comprar um tênis novo que esse tá um lixo.
A criança abre mais a boca diante da perspectiva de ficar sem seu super-herói.
— Tá com fome? Quer fazer xixi? Vem cá.
A mulher força justo a porta atrás da qual a terceira se oculta.
— Ai, que vergonha. Você fazendo esse escândalo e tem gente aqui ouvindo. Viu só, todos vão saber como você é um menino mau e birrento. Vai logo, não molha o shorts. Vem, vem que daqui a uma hora seu pai passa pra nos buscar e ainda não fizemos tudo. Que correria trazer criança pra resolver coisa de adulto, nunca mais!
A desgraça alheia dá uma ligeira sensação de alívio. Por essa não passo mais. Ela aproveita o novo período de silêncio, arrisca pôr os pés no chão, levanta a cabeça. Lê: regras do banheiro. Sorri. Dá descarga, sem papel higiênico no vaso. Sente-se feliz, impelida ao próximo passo.
A porta da cabine abre-se. Drácula respira o ar noturno, espreguiça. Miraculosamente, vê-se no espelho, ainda sentada no vaso. Olhando, nem ela mesma, tão reparadora, desconfiaria de nada. Lavar as mãos, mais pontos. Usa uma única folha de papel e até a aproveita para assuar o nariz. É uma rainha na sociedade. Nota cem! A porta se fecha atrás dela abafando seu assovio quase alegre. Os dois amigos a esperam impacientes.
— Nossa, que demora! Tava cagando?
— Não. É que to naqueles dias. Vocês, garotos, não entenderiam – diz a terceira.
— Você é terrível, não deixa escapar uma, né? Que tal esta: não se estressar com regras óbvias?
— Se a gente não é mais rápida, seremos nós que estaremos em pauta na boca dos outros. Devia ter um décimo primeiro mandamento: criticais o próximo antes que ele o faça. Não tão santo, mas compensa em sabedoria.
A conversa foi se extinguindo em meio aos tec-tecs dos saltos altos se afastando, até ser completamente abafada pela porta que se fecha. Aquelas duas pareciam ser mulheres educadas, independentes e extremamente insatisfeitas com a vida. Esse tipo, que a cidade grande produz aos montes, tende a se crer o único ser pensante num raio de, vamos chutar, 20 km. Ignorar que não é especial é uma bênção para elas, talvez seu único pilar de sustentação. Deixa elas pra lá, já se foram mesmo.
A terceira sentiu que enfim estava sozinha naquele banheiro enorme de shopping, nem assim conseguiu abrir a porta da cabine. Vamos lá, você consegue, todo mundo faz isso sem pensar duas vezes. Este é o segredo, não pensar.
Respiração difícil, pés congelados sobre o vaso. Se sair daquele autoabraço, estará solta, sabe-se lá onde pode parar. Talvez num lugar onde não consiga mais se achar, daí ferrou. Por que aquelas duas não ficaram mais um pouco? Eu teria mais tempo pra me preparar. Agora é pura pressão. O sinal da largada já foi disparado, se não começar a correr, todos perguntarão por que só eu fiquei parada.
Pensamentos encorajadores. Ninguém desconfia. Não sou exatamente asseada, mas nunca cheiro mal, nem depois de suar muito. Eu pelo menos não sinto. Esse deve ser algum tipo de talento, já que tem muita gente malcheirosa neste mundo, mesmo às sete da manhã, quando ainda está friozinho. Não falei nenhuma besteira hoje, mas também não conversei longamente com ninguém. Eu bem que poderia ter ido atrás de uma conversa e cagado, mas não o fiz. Saber prever o perigo, sinônimo de prudência. Taí, essa palavra tem cara de virtude. Posso alegar isso, melhor do que o argumento de não feder. Que tipo de pessoa acha que não feder é um talento? Mas ainda assim muita gente fede, mesmo usando desodorante. Não vou por aí de novo, gente repetitiva é chata. Será que alguém desconfia de que estou tendo sempre a mesma conversa o tempo todo?
Aí vem gente, graças a deus, mais tempo pra pensar. Você é besta? Pensar é o que cria esta situação toda! Pra você ver que, quando deus atende nosso pedido, a gente descobre que não conhece as próprias necessidades. Por que foram entrar essas novas mulheres? Talvez eu conseguisse antes, no impulso, com a batata quente na mão. Agora não dá, perdi a chance. Não sei mais o que vai acontecer.
— Nunca mais te trago pra passear comigo, olha o vexame! Não bastando gritar que nem biruta na loja, ainda tinha que mexer nas coisas dos outros e derrubar tudo no chão. Bem feito que ralou o joelho! Não sei onde enfiar a minha cara!
Ao fundo, um previsível choro de criança plus algo não tão óbvio: dois tênis do Ben 10, daqueles de velcro. Numeração para cinco ou seis anos. Voz de criança é tudo igual, meio assexuada, mas certeza que esse é menino. Se fosse menina, estaria testemunhando algo interessante. Uma menina que gosta de assistir a Ben 10, algo bem possível, não tem o direito de consumir um produto com seu herói favorito estampado. Achei que o capitalismo produzisse ao menos a liberdade de comprar, mas parece que esse direito não chegou ainda às crianças de classe média. Seria bonitinho garotos daquele tamanhico já usando echarpes floridas se quisessem. Tênis do Ben 10 é de mau gosto, vale a pena lutar por esse direito afinal?
— Engole esse choro que ainda temos que ir no Luc e depois comprar um tênis novo que esse tá um lixo.
A criança abre mais a boca diante da perspectiva de ficar sem seu super-herói.
— Tá com fome? Quer fazer xixi? Vem cá.
A mulher força justo a porta atrás da qual a terceira se oculta.
— Ai, que vergonha. Você fazendo esse escândalo e tem gente aqui ouvindo. Viu só, todos vão saber como você é um menino mau e birrento. Vai logo, não molha o shorts. Vem, vem que daqui a uma hora seu pai passa pra nos buscar e ainda não fizemos tudo. Que correria trazer criança pra resolver coisa de adulto, nunca mais!
A desgraça alheia dá uma ligeira sensação de alívio. Por essa não passo mais. Ela aproveita o novo período de silêncio, arrisca pôr os pés no chão, levanta a cabeça. Lê: regras do banheiro. Sorri. Dá descarga, sem papel higiênico no vaso. Sente-se feliz, impelida ao próximo passo.
A porta da cabine abre-se. Drácula respira o ar noturno, espreguiça. Miraculosamente, vê-se no espelho, ainda sentada no vaso. Olhando, nem ela mesma, tão reparadora, desconfiaria de nada. Lavar as mãos, mais pontos. Usa uma única folha de papel e até a aproveita para assuar o nariz. É uma rainha na sociedade. Nota cem! A porta se fecha atrás dela abafando seu assovio quase alegre. Os dois amigos a esperam impacientes.
— Nossa, que demora! Tava cagando?
— Não. É que to naqueles dias. Vocês, garotos, não entenderiam – diz a terceira.
Me avise quando escrever um livro. Provavelmente será do meu tipo!
ResponderExcluirSP
Só para registrar que eu li e achei divertido.
ResponderExcluirAh, nós garotos não entendemos mesmo. É um dos grandes mistérios do universo, junto de por que o pão cai sempre com a margarina pra baixo.
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