Batman e o socialismo

Breve comentário sobre a parte final da trilogia de Batman por Christopher Nolan.

Filme de herói americano contra vilão vindo de país obscuro (um lugar qualquer na África, no caso do Bane) que tenta implantar o socialismo nos EUA. Até aí nenhuma novidade, certo? Inclusive, é meio blasé usar esse tipo de tema hoje em dia, não concordam? (Assim como usar o termo “blasé”.) Até terroristas barbudos já estão meio fora de moda. Acredito que filmes mais atuais devam tratar da atomização das pessoas, do isolamento, da apatia diante de grandes causas. Mas daí também não haveria espaço para os super-heróis. Engraçado pensar que construímos uma sociedade em que colocar um colant colorido e lutar por seu país é bem ridículo. Não queremos ser salvos, estamos nos divertindo aqui nesta lama! Tenho a impressão de que algum filme de herói já usou esse argumento, não lembro qual.

Mas uma coisa me fez pensar assistindo Batman. Algo além de todos os clichês contra o socialismo como “essa revolução não liberta, apenas aprisiona”.

Aposto que a maioria, assim como eu, ficou meio aflita vendo as imagens de gente se atacando gratuitamente, cedendo à selvageria. Agora, não sei quanto a vocês, mas eu estranhei esse sentimento e me perguntei: por que estou sofrendo? A resposta: porque eu pertenço à burguesia, tenho nojo de briga, não desenvolvi um bom instinto de sobrevivência e confio no poder do meu dinheiro para me defender. Não que eu seja uma abastada como Bruce Wayne, mas sou mulher, branca, com ensino superior, dou duro no meu trabalho, nunca cometi um crime, enfim, aquela típica pessoa que despertará empatia da sociedade caso qualquer coisa ruim me aconteça. É nessa justiça que confio.

Ao permitir o caos, ou melhor, ao estender o poder a todos, pessoas como eu serão as primeiras a sucumbir. Aqueles que nunca tiveram nada a perder, que sempre serviram a vidas-boas como eu, terão a chance de dominar. Perguntei-me ainda: por que, sendo mais fortes e adaptados a situações adversas, eles não dominam em situação normal? Por medo da punição e também por possuírem certa esperança de um dia enriquecer e também ter a oportunidade de humilhar outras pessoas. Em alguns casos (poucos), por honra e religiosidade.

Nós, burgueses, temos pavor de que a ordem se rompa, porque sabemos que levará ao nosso fim, talvez não de nossas vidas, mas de nossa paz. Assim, nossa estratégia é fortalecer estruturas modernas como polícia, juízes, deputados, prefeitos, seguranças particulares, catracas, crachás, uniformes etc. O sistema que criamos é perfeito? Claro que não! Ele obriga a maioria absoluta a passar fome e ter que ficar bem quietinha, senão vai em cana. Por outro lado, sabemos que nossos próprios representantes contra a massa também nos roubam. É o conhecido crime do colarinho branco, bem tolerado em quase todo o mundo. Afinal, preferimos isso a dar o poder ao povo. Sabemos as consequências, as imagens de Batman mostram.

A conclusão dessa história: é melhor sermos roubados (falo sob o ponto de vista de uma pequena burguesa) por uns poucos civilizados, do que por uma multidão desesperada. Rico, pobre, pessoas de todas as classes são más, e o poder corrompe quem tem moral fraca. Por isso, o socialismo não tende a dar certo. Ou terá governo autoritário, ou terá a desordem – medo número um da classe média (para usar um termo mais atual que burguesia; estou tão blasée hoje...). Não dá para confiar em gente que não está comprometida a nós por laços de afeto, mas ainda é melhor uns poucos bandidos impunes do que estender a impunidade a todo mundo.

(Espero não ter falado como Diogo Mainardi.)

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Uma anedota.

Depois de passar um dia todo sem trocar uma palavra com ninguém (até o ticket do cinema comprei virtualmente), tentei puxar papo com a atendente da padaria. Eram cerca de 17h. Comentei: “Tá escurecendo cedo, né?”. Ela deu uma revirada de olhos e não respondeu. Saí me perguntando por que as pessoas são tão antipáticas. Aí percebi que não tinha tirado os óculos escuros lá dentro.

Isso parece alguma anedota religiosa. Mas não tem moral da história do tipo “tire seus óculos antes de falar sobre o tempo”, são apenas fatos.

Comentários

  1. Se vc escreveu tudo isso pq viu Batman, o que será q escreveria depois de ver Clube da Luta?

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  2. Não lembro de nada em especial em Clube da Luta que tenha me chocado. É uma violência de poucos, parece mais controlável. O que mais me surpreendeu foi o fato de eu ter concordado com o argumento do filme contra o socialismo. Muito do discurso é contaminado, visivelmente fraco, mas por outras vias o filme de convenceu. Para vc ver que o cinema não é algo tão inofensivo assim...

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  3. Não falei pelo grafismo, mas pelo tema. Clube da Luta é um soco no estômago muito maior sobre consumismo e nossa sociedade.

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