Sobre a positividade
Nos últimos dias fui perseguida pelo sim. Primeiro ao terminar de ler “Ulysses”, de James Joyce, depois ao reler “A hora da estrela”, de Clarice Lispector. Ambas as narrativas encerram com “sim”. Um desfecho mais convencional talvez passasse despercebido; esse não. Para ratificar o padrão, ainda encontrei essa palavra num texto sobre as virtudes de Maria: ela disse sim ao projeto de Deus – “Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1:38).
Positividade, é disso que estamos falando. Já assistiram àquele filme “Sim, senhor”, com Jim Carrey? Recomendo fortemente. Sou suspeita, porque amo os trabalhos do comediante de todas as fases, desde trash até cult, mas esse em especial é interessante por trazer uma moral da história totalmente aplicável. Resume-se a este clichê autoajudístico: “quando você diz sim à vida, a vida diz sim a você”. O protagonista resolve topar tudo que surge pela sua frente, gerando situações hilárias (não direi quais, assistam!), enrascadas, mas também o levando a conhecer pessoas ótimas, crescer no emprego e se apaixonar.
Sugiro que sejamos como o personagem do filme, digamos sim o tempo todo! Não entendam que daqui em diante devemos pôr em prática tudo o que vemos nos filmes e livros. Discernimento e senso crítico, por favor.
Houve uma época em que eu e uns amigos estávamos bem desanimados com a nossa vida. Havíamos dado tão duro e nada de a recompensa vir! Parte da nossa rotina era reclamar e desacreditar do futuro. Então loquei “Sim, senhor” e os chamei para ver em casa. Não sei quanto a eles, mas minha vida melhorou muito depois disso. Reunião com jovens da igreja? Sim. Balada desconhecida? Sim. Sinuca em bodega? Sim. Cada uma dessas experiências me trouxe acréscimos. Ri muito mesmo nas situações que prometiam uma boa dose de tédio – tipo jogar bingo.
Retornemos aos sins literários. Macabéa morre em “A hora da estrela”, totalmente anônima, e isso causa grande mal estar ao seu criador. Por que mesmo assim ele termina com o sim? O desfecho obviamente retoma a abertura, construindo um efeito cíclico: “Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida”. O narrador, portanto, afirma a vida. Talvez não a de sua personagem, que cumpriu seu ciclo e se foi, mas a dele, a nossa, a da história da história (isto é, a da literatura). Em outras palavras: enquanto não morremos, vivamos! Claro que esta novela trata de um tema maior, o processo de criação literária, mas como não estou analisando academicamente posso me permitir olhar apenas para uma agulha achada num palheiro – e a banca que engula isso!
Em “Ulysses”, o sim sai da boca de Molly, esposa infiel do protagonista (coitada, consegui tachá-la em apenas uma frase e sequer concordo com a imagem que acabei de construir). É também um sim à vida – desconfio de que todos os sins são para a vida. Esta personagem tem uma vivacidade notável. Não à toa, ela constitui o centro do mundo de Leopold Bloom, seu marido, e indiretamente o núcleo e a alma de “Ulysses”. Permeia todo o romance feito um fantasma ou uma deusa onipresente, não muito palpável até o último capítulo.
Seu sim tem outra particularidade: é um sim ao amor, o que acaba sendo quase um sinônimo de sim à vida (redundância). Ela ama o marido, disse sim a ele quase se casaram e continua dizendo sim dia após dia. Esta é a verdade da qual os fatos não conseguem dar conta.
Explosão.
explosão =]
ResponderExcluirgostei do seu post, Su!
engraçado que quando li "A hora da estrela" (pela segunda vez) não prestei muita atenção no papel do "sim".
certamente Ulysses é leitura fundamental, principalmente para quem quer ler mais literatura que tenha fluxo de consciência. é, tipo assim, um referencial. mais um na fila dos que preciso ler.
beijos