Benditos os enrustidos e os atormentados...
... porque eles nos agraciam com boa ficção!
No finalzinho do ano passado, a Companhia das Letras editou os “28 contos de John Cheever”, selecionados por Mario Sergio Conti. O livro teria passado despercebido por mim não fosse a revista piauí ter publicado agora em janeiro trechos do diário do autor. O texto era tão delicioso que eu precisava descobrir se ele era tão bom ficcionista quanto memorialista. Comprei o compêndio de contos no dia seguinte e, apesar das altas expectativas, ele conseguiu me fascinar ainda mais.
Nos relatos íntimos, publicados originalmente na década de 1990 pelos filhos, acompanhamos o esfacelamento de um homem que tinha uma vida perfeita. Casamento duradouro, filhos saudáveis e bem encaminhados, uma bela casa no subúrbio, talento reconhecido, nenhum problema financeiro. Isso era o que todos viam. O diário mostra que o bom cidadão convivia quase harmonicamente com o alcoólatra, o adúltero e o pederasta.
Da mesma forma que ele vivia em estado de contradição, esse era o tema de seus contos, os quais foram bastante elogiados por uma sociedade igualmente hipócrita – refiro-me aos americanos durante a Guerra Fria. Todos falavam da mesma sujeira, que, aparentemente, ninguém praticava. Quer situação mais propícia para o surgimento de uma prosa charmosa e contundente? John Cheever soube usar suas próprias experiências para criar retratos muito verossímeis da época. Isso faz dele um dos grandes nomes do pós-guerra americano, ao lado de Fitzgerald, Faulkner e Hemingway.
As personagens de seus contos são, na maioria, casais felizes do subúrbio – lembrando que, nos Estados Unidos, “subúrbio” tem uma conotação bem diferente da brasileira: são bairros de classe média alta. Por fora, todos são Barbies e Kens, mas, olhando mais de perto, entre eles salpicam babás viciadas em gim, esposas adúlteras, velhas traídas, ex-atletas pançudos, pseudointelectuais alcoólatras, falidos esbanjadores.
Copio abaixo uma descrição para vocês terem noção do que estou falando:
“A sra. Pastern era uma mulher opaca. Sentada na varanda, sentada na sala de visitas, sentada em qualquer lugar, vivia botando para fora as garras da autoestima. Você lhe oferecia uma xícara de chá e ela dizia: “Nossa, essas xícaras são bem parecidas com um jogo que doei ao Exército da Salvação ano passado”. Você lhe mostrava a piscina nova e ela dizia: “Então é aqui que fica a sua criação de mosquitos gigantes”. Você lhe oferecia uma cadeira para sentar e ela dizia: “Puxa, é uma bela imitação daquelas cadeiras Queen Anne que herdei da vó Delancy”. Essas bravatas davam mais pena do que qualquer outra coisa e pareciam informar que as noites eram longas, que seus filhos eram ingratos e que seu casamento era de uma banalidade entorpecente.”
(CHEEVER, John. 28 contos de John Cheever. Companhia das Letras, 2010. p. 258-9)
O universo retratado por Cheever é bem semelhante ao da série “Mad Men” e ao do filme “Revolutionary Road”, para vocês terem algumas referências culturais próximas. O pós-guerra americano caracterizou-se por esses senhores de camisa branquíssima e cabelos perfeitamente alinhados que, quando chegavam do trabalho, sentiam-se vazios; olhavam para a bela esposa e reconheciam esse mesmo abismo (para uma perspectiva feminista da época, recomendo a leitura de “A mística feminina”, de Betty Friedan). Família e prosperidades eram valores muito fortes, mas o gim era essencial.
Nos relatos íntimos, publicados originalmente na década de 1990 pelos filhos, acompanhamos o esfacelamento de um homem que tinha uma vida perfeita. Casamento duradouro, filhos saudáveis e bem encaminhados, uma bela casa no subúrbio, talento reconhecido, nenhum problema financeiro. Isso era o que todos viam. O diário mostra que o bom cidadão convivia quase harmonicamente com o alcoólatra, o adúltero e o pederasta.
Da mesma forma que ele vivia em estado de contradição, esse era o tema de seus contos, os quais foram bastante elogiados por uma sociedade igualmente hipócrita – refiro-me aos americanos durante a Guerra Fria. Todos falavam da mesma sujeira, que, aparentemente, ninguém praticava. Quer situação mais propícia para o surgimento de uma prosa charmosa e contundente? John Cheever soube usar suas próprias experiências para criar retratos muito verossímeis da época. Isso faz dele um dos grandes nomes do pós-guerra americano, ao lado de Fitzgerald, Faulkner e Hemingway.
As personagens de seus contos são, na maioria, casais felizes do subúrbio – lembrando que, nos Estados Unidos, “subúrbio” tem uma conotação bem diferente da brasileira: são bairros de classe média alta. Por fora, todos são Barbies e Kens, mas, olhando mais de perto, entre eles salpicam babás viciadas em gim, esposas adúlteras, velhas traídas, ex-atletas pançudos, pseudointelectuais alcoólatras, falidos esbanjadores.
Copio abaixo uma descrição para vocês terem noção do que estou falando:
“A sra. Pastern era uma mulher opaca. Sentada na varanda, sentada na sala de visitas, sentada em qualquer lugar, vivia botando para fora as garras da autoestima. Você lhe oferecia uma xícara de chá e ela dizia: “Nossa, essas xícaras são bem parecidas com um jogo que doei ao Exército da Salvação ano passado”. Você lhe mostrava a piscina nova e ela dizia: “Então é aqui que fica a sua criação de mosquitos gigantes”. Você lhe oferecia uma cadeira para sentar e ela dizia: “Puxa, é uma bela imitação daquelas cadeiras Queen Anne que herdei da vó Delancy”. Essas bravatas davam mais pena do que qualquer outra coisa e pareciam informar que as noites eram longas, que seus filhos eram ingratos e que seu casamento era de uma banalidade entorpecente.”
(CHEEVER, John. 28 contos de John Cheever. Companhia das Letras, 2010. p. 258-9)
O universo retratado por Cheever é bem semelhante ao da série “Mad Men” e ao do filme “Revolutionary Road”, para vocês terem algumas referências culturais próximas. O pós-guerra americano caracterizou-se por esses senhores de camisa branquíssima e cabelos perfeitamente alinhados que, quando chegavam do trabalho, sentiam-se vazios; olhavam para a bela esposa e reconheciam esse mesmo abismo (para uma perspectiva feminista da época, recomendo a leitura de “A mística feminina”, de Betty Friedan). Família e prosperidades eram valores muito fortes, mas o gim era essencial.

Evoluímos muito. Hoje, não apenas o gim é essencial, mas tb a tequila, o uísque...
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