Quebra de decoro totaaaaal!

- Quem quer dinheirooooo?


O causo foi o seguinte. Eu estava iniciando a segunda semana de estágio em um grande jornal da cidade. Por acaso (e sorte), caí na editoria de política – a mais inteligente e interessante. O editor, talvez por medo do estrago que eu poderia fazer sozinha, me mandou acompanhar a repórter que cobriria uma votação na Câmara Municipal. Fui um tanto envergonhada do meu All Star furado e do jeans rasgado (recordação de um belo tombo), mas fui.

Chegando lá, achei que seria expulsa por causa do modo como eu me vestia. As secretárias e assessoras, do alto de seus saltos e dentro de seus terninhos escuros – fazia mais de 30 graus! –, me esnobavam. Tudo bem, finjam que eu sou invisível, afinal, sou só a estagiária, não ganho nada mesmo para estar aqui e ainda tenho que pagar as minhas passagem de ônibus. O fato é que não puderam fazer nada contra minha presença antiestética. Não tiveram o peito de levar seus julgamentos às últimas conseqüências, como aquele juiz que adiou a audiência, porque uma das partes, um trabalhador rural, usava chinelos. Em casos assim, ter coragem não é necessariamente algo bom, melhor manter os preconceitos sob a camada de covardia.

Deu a hora da sessão, na qual votariam o nome de algumas ruas – tãããão relevante –, só que quase ninguém havia chegado. Alguns minutos de tolerância, e um dos vereadores começou a ler a ata da sessão anterior. Eu até tentei escutar o que era dito, mas foi impossível. Os poucos vereadores que haviam chegado estavam de pé conversando entre si, cumprimentando a torto e direito, rindo em altos decibéis, trocando presentes. Como havia sido o Dia Internacional da Mulher na véspera, o que não faltavam eram flores, chocolates e até bíblias cor-de-rosa circulando por aí. Confesso que não consegui negar o Sonho de Valsa que me ofereceram, mas ainda assim não aprovo esse tipo de comportamento.

Ô, lugar bonito! Tem uma aura de sólido, de histórico, de nobre. Estou falando da arquitetura interna, né, porque a cena que lá se desenrolava mais parecia a de uma feira livre – ou, imaginando sem as roupas formais, um bordel. Estava claro, límpido, transparente até: os políticos estão mais interessados nos bastidores (articulações e fofocas) do que no trabalho para o qual foram eleitos, isto é, fiscalizar, propor projetos, votar.

Alguns vereadores lá na frente discursando, os demais falando sem parar e circulando pelo salão feito debutantes excitadas. Foi-me subindo um nervoso tão grande! A última gota d´água caiu no momento em quem o garçom entrou. Sim, um garçom vestido a caráter, com presilha na gravata, bandeja e tudo! Ele gentilmente oferecia água e café (nas opções puro ou com leite) pelas rodinhas de conversa adentro.

Agora sim eu tinha a definição exata daquele ambiente: era um boteco, daquele tipo que vive povoado de maridos que não trabalham. Na hora, imaginei o estrago que Jesus não faria ali. Da mesma forma que entrou no templo e chutou as mercadorias que conspurcavam o local, faria – e com razão!– o maior barraco naquela Câmara Municipal. Quem sabe a ficha de alguém não cairia e ao menos esse aprenderia a ter respeito pelo sagrado labor de representar a população?

Não me achem ingênua, mas nessas horas até que bate um dó por Clodovil ter morrido. O deputado, em seu primeiro discurso, disse: “(...) a única coisa de que tenho medo – já me fizeram muito medo aqui, como estrangeiro que sou nesta Casa – é da expressão decoro parlamentar. Eu não sei o que é decoro com um barulho destes enquanto um deputado fala. Eu não sei o que seria decoro, porque isso aqui parece um mercado! Isso aqui representa o país! Eu não entendo por que há tanto barulho enquanto um orador está falando. Nem na televisão, que é popular, se faz isso”.

E por falar em quebra de decoro, na minha opinião, o melhor momento de Clodovil foi quando brigou com a deputada Cida Diogo. Tudo começou com um comentário do deputado de que as mulheres estavam se tornando ordinárias, que trabalhavam deitadas e descansavam em pé. Sua colega se ofendeu, o que resultou em bate-boca. Em entrevista para a TV, ele explicou seu ponto de vista: “Digamos que uma moça bonita se ofendesse porque ela sim pode se prostituir. Não é o seu caso, a senhora é uma mulher feia. Vai ser senhora, mãe de família, não precisa se ofender. Eu tenho culpa de ela ser feia, gente?”.

** Pronto, paguei minha dívida. E mais cedo do que esperávamos.

A Fada do Siso
(Guardando lugar para o amigo na fila do RU em dia de strogonoff.)

Consumir alimentos orgânicos é uma prática interessante não só porque faz bem à saúde, mas também por prestigiar o pequeno produtor. É uma forma de distribuição mais justa de renda.

Comentários

  1. Ai, nao consigo odiar viados >.<
    O céu está mais cor de rosa agora ._.

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  2. Esses causos jornalísticos devem se tornar mais frequentes se vc não sair da área de politicagem, huhuhu.

    Já viu isso aqui? http://www.interney.net/blogs/guindaste/2007/03/01/foca1/

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