O jornalista, os anunciantes e McCarthy*

Assim que a tela se ilumina, o convite está feito: esqueça o ticket de estacionamento que venceu, deixe de lado as vitrines multicoloridas e volte para a década de 1950, para o mundo de glamour em preto e branco da televisão. Jazz tocando ao fundo, penteados impecáveis, a fumaça dos cigarros por todo lado, copos de whiskey como acessório obrigatório – o cenário está exposto. Esse é o universo recriado por George Clooney no filme Boa noite e boa sorte (Good Night, and good luck, 93 min, 2005).
O ator, embora tenha estrelado em mais de 50 produções para cinema e televisão, é praticamente um estreante na direção. Até então só havia dirigido um filme, Confissões de uma mente perigosa (2002), e uma série, Unscripted (2005). Apesar da curta lista de precedentes, Clooney fez um trabalho irretocável e ainda leva o mérito do roteiro, com a co-autoria de Grant Heslov. Essa parceria, que começou há quase 30 anos, rendeu a indicação ao Oscar de Melhor Roteiro Original e resultou na criação da produtora Smoke House.
A cumplicidade dos criadores se reflete na obra: um dos pontos marcantes de Boa noite e boa sorte é a relação entre os personagens Edward Murrow (interpretado com maestria por David Strathairn) e Fred Friendly (George Clooney, também excelente diante das câmeras). No período em que se passa o filme, de 1953 a 1958, ambos trabalhavam na rede de televisão CBS. Murrow, jornalista reconhecido após ter noticiado a Segunda Guerra Mundial no rádio, apresentava See it Now. O programa mesclava política e variedades – o primeiro tema por preferência do apresentador e o segundo por exigência dos patrocinadores, que buscavam audiência alta. Friendly, por sua vez, era o produtor e defensor incondicional das idéias do amigo.
Juntos, Ed e Fred dividiram garrafas de whiskey, convenceram o dono da emissora, Bill Paley, a lhes dar total liberdade editorial e também, em momentos críticos, pagaram pela veiculação de See it Now. A dificuldade em conseguir apoio comercial para algumas reportagens não era rara nesse período. Na década de 1950, o povo norte-americano sofria a tensão da caça às bruxas liderada pelo senador Joseph McCarthy. A qualquer instante o Sub-Comitê Permanente de Investigações do Senado poderia acusar um cidadão de ser comunista e, mesmo sem provas, prendê-lo. Assim, a maioria da população não se arriscava a criticar a política do governo. Na TV, então, isso seria um ato de loucura.
O filme retrata bem esse contexto opressor. As cores foram banidas, os ambientes são conservadores e estáticos, conversas acontecem aos sussurros, quase nunca abertamente. A música aparece pouco e é carregada de melancolia. A princípio, o silêncio constante causa estranheza, mas trocas nervosas de olhares entre os personagens nos fazem entender o que se passa. Logo entramos no clima e assimilamos a importância de se ter cautela. Ser sincero em público está terminantemente proibido. É preciso usar máscaras e se esconder o tempo todo. Daí a onipresença da fumaça de cigarro. Além de gerar uma fotografia muito bonita, o efeito reflete uma busca por refúgio. Se não atrás da cortina gasosa, ao menos na sensação de relaxamento causada pelo tabaco.
Enquanto qualquer outro procuraria não contestar o governo, Ed Murrow escolheu justamente a direção oposta. Ele comprou briga com o senador Joseph McCarthy ao relatar em seu programa a história de Milo Radulovich, que fora expulso das Forças Aéreas, porque o pai e a irmã eram suspeitos de militarem no comunismo. A reportagem, que acusava o Comitê de não fazer um julgamento justo, foi o primeiro passo para uma disputa de forças entre o jornalista e o político. Esse conflito rapidamente tomou grandes proporções, e todo o See it Now foi boicotado de várias maneiras. A equipe era atacada por veículos macartistas, a alta cúpula da Aeronáutica pressionava Friendly, a empresa Alcoa deixou patrocinar e o próprio dono da CBS tirou o programa do horário nobre.
A cruzada de Murrow contra um dos homens mais temidos do país aconteceu basicamente na televisão, e o espectador do filme tem a oportunidade de acompanhar a arena de disputa. São vídeos com baixa qualidade técnica, mas de valor histórico indiscutível – como não se admirar ao ver o próprio McCarthy nas gravações originais de 1953? Mas, para aqueles que valorizam o rigor técnico, Clooney, naquilo que lhe concernia, produziu belíssimos enquadramentos. Logo se vê que é trabalho de profissional, minuciosamente calculado.
Toda a ambientação nos envolve no embate de tal maneira que, por pouco, não desviamos a atenção do objetivo principal da narrativa. Embora sejam discutidos o profissionalismo da mídia eletrônica, a censura e a liberdade de expressão, essas não são a principal crítica de Murrow, e sim o mau uso da televisão. Seu filho, Casey, contou a Clooney, quando este estava produzindo o filme, que o pai se afligia ao ver a televisão voltada para o entretenimento somente.
Com essa perspectiva na cabeça, o diretor deu o devido destaque a este discurso de Murrow: “Àqueles que dizem que as pessoas não se interessam, que são complacentes, indiferentes e alienadas, eu apenas respondo que, na minha opinião de repórter, há provas concretas de que essa afirmação é incorreta. Mas, mesmo que não o seja, o que eles têm a perder? Se estiverem certos e o nosso veículo só servir para divertir e alienar, a televisão estará em perigo, e logo veremos que a luta foi em vão. Esse veículo pode ensinar. Pode esclarecer e até inspirar. Mas só pode fazer isso se as pessoas o usarem com esse objetivo. Senão, será apenas um monte de cabos e luzes dentro de uma caixa”.
Talvez esse não seja o tipo de discurso que leva as multidões às lágrimas, mas, no mínimo, traz uma reflexão – ou um incômodo. Após a árdua luta contra gente poderosa, profissionais como Murrow, com seus comentários em profundidade, perdem espaço para o show business? Devido ao fato de a crítica vir de um segmento representativo da indústria de lazer, do cinema, nos parece que nem tudo está perdido. Este filme é um exemplo de produção inteligente e, portanto, uma ótima oportunidade para começar a ver a televisão com outros olhos.
O título faz referência a The good, the bad and the ugly. Escrevi a resenha logo após ter assistido a esse filme e, sob a influência de seu fascínio, não resisti à tentação de homenageá-lo. Notem que jornalista = good = Clint Eastwood = machão.
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Quando minha vida voltar aos eixos, retorno aos posts inéditos, porque este, como o anterior, é mais um entre os muitos trabalhos da aula de Redação Jornalística III.
Faz um bom tempo que eu vi esse filme, mas eu lembro que não gostei muito não.
ResponderExcluirargh! vou confessa que não li o post todo u.u"
ResponderExcluirmas the good, the bad and the ugly é muuuito bom...
*ama faroeste*
;PP
bjo da ana
espero que a Myriam tenha corrigido minha resenha antes da sua, pq caso contrário ela vai me dar uma zero :p
ResponderExcluirhahhahahaha
Su, muito boa sua resenha! :D
Muito boa sua resenha e muito bom filme :D
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