A ascensão à Madonna

Era um daqueles momentos quando você tem muitas coisas para fazer, mas, sem saber por onde começar, se ilude achando que pode decidir depois. Nisso, você passa a acreditar na sua própria mentira a ponto de pensar:

– Que tédio, preciso matar o tempo senão enlouqueço!

(Como se houvesse bastante tempo para ser assassinado assim a sangue frio, mas isso está fora de questão.)

Movida talvez por uma culpa inconsciente – peça a Freud para explicar isso – de deixar o trabalho para segundo plano, censuro algumas possibilidades de lazer fácil. Nada de MSN, nem You tube, e blogs de fofoca muito menos. O que sobra para se fazer na Internet? Ah, sim, sites de notícias. Uma fonte inesgotável de informação em tempo-real, a via mais rápida para se chegar a qualquer ponto do mundo, ou alguma outra nomenclatura futurista-visionária que você achar mais conveniente.

Assim que abro o site de um grande jornal, a primeira manchete que me salta aos olhos é “Shows de Madonna no Brasil são confirmados; veja datas e valores”. Todo o processo que havia me levado àquele portal – a tentativa de ser uma pessoa bem-informada – se evapora instantaneamente. De repente, passa um filme na minha cabeça. A poucos metros da musa, meus amigos e eu cantamos seus maiores hits. Ela olha tamanha devoção e, comovida, atira para nossa direção uma peça de seu figurino. Nada de vídeos ou fotos, seria um momento de encontro espiritual, daquele tipo que só é compreendido de verdade quando narrado numa mesa de bar.

Pensando por um ângulo bem pouco usual, até daria para se comover com a trajetória de vida dessa mulher. Loira, cinqüentona e totalmente sexy. Camaleoa, dança de acordo com o ritmo que vende mais discos. Ela não nega: faz parte do pop – ou da indústria cultural, conforme corrigem os acadêmicos de ciências humanas – e, ainda assim, produz músicas que embalam bons momentos, que se infiltram na vida das pessoas. Não seria, portanto, apenas um show da nova turnê; era a História oferecendo à gente comum a oportunidade de participar de sua feitura.

No entanto, nos dias que se sucederam a esse, vi meu sonho ser massacrado pela realidade. Primeiro, veio o problema mais prático: não há condições de pagar o ingresso e a viagem. Depois, o despeito de pensar que alguns bancariam as despesas sem sentir qualquer falta do dinheiro. Por fim, a solidariedade e a partilha dessa privação com outros fãs.

Assim, o mesmo jornal que me proporcionou um minuto de êxtase se encarregou de relatar dia a dia o drama que assolou o país. “Confusão marca venda de ingressos para Madonna no Rio”; “Ingressos para show de Madonna no Rio esgotam” (em menos de 24 horas); “Venda de ingressos para shows de Madonna em SP começa”; “Cambistas vendem entradas VIP para Madonna a R$ 1.300”; “Mil pessoas aguardam em fila senhas para show de Madonna”; “Polícia fecha filas para compra de ingressos no ginásio Ibirapuera”.

Paramos nesse ponto. Agora, uma noite de descanso dessa novela – não para aqueles que pernoitarem na porta do Ibirapuera – e amanhã voltamos a acompanhar a jornada daqueles que sofrem e lutam para encontrar Madonna. Ao fim de tudo, quando o último ingresso for vendido, uma triste paráfrase vai se concretizar: o sonho acabou (para quem não tem condições de pagar mais de mil reais a um cambista).

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Esta é a crônica que vou entregar amanhã cedo na aula de Redação Jornalística III. Como a professora bem avisou, não são todos que têm habilidade para esse gênero. Infelizmente eu me incluo nesse grupo - me perdoa, Nelson!

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De volta a Madonna, esses desenhos acima são o croqui de um dos figurinhos que a musa vai usar. Claro que também não vão faltar os colants sexies.

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Um comentário bem fora de lugar. Agora entendo perfeitamente a sensação que Maria (de Hoje é dia de Maria) tem quando o diabo rouba a sua infância e, de repente, ela se vê mulher-feita. "Passou tão rápido. Inda há pouco eu era menina", ela diz. E, se pararmos para pensar, é assim mesmo. Nem dá tempo para assimilar ou para se preparar. As coisas mudam numa velocidade medonha. Há dois caminhos: entrar no jogo do endiabrado e esquecer as coisas valiosas que vão ficando para trás, ou não deixar cair no automatismo, isso significa: se surpreender, viver consciente, buscar o amadurecimento em vez de só aceitar as mudanças que vêm sozinhas.

Eu disse que o comentário era fora de contexto.

Comentários

  1. Eu não entendo muito de crítica literária, mas me pareceu mais um post de blog do que uma crônica de jornal... Deve ser a influência do blog na sua escrita, hehehe.

    Ultimamente eu tenho adotado a seguinte teoria: o tempo não passa mais rápido ou mais lerdo. A gente é que tem uma memória muito seletiva, fazendo com que lembremos mais ou menos as coisas.

    Eu acho que os dois caminhos que vc citou não são excludentes. Vc pode deixar algumas coisas valiosas pra trás (todos nós deixamos), mas ao mesmo tempo, continuar se encantando, construindo novos tesouros.

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  2. Anônimo7/9/08 20:25

    Eu gostei muito da tua crônica! leve, despojada, jovial...

    se fosse apenas o lugar para ficar eu ofereceria minha casa , rs.

    abraços
    carioca.

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  3. Anônimo9/9/08 00:48

    seu pai ta bem?
    ainda pode ir no hospital doar sangue?

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  4. Que beleza saber que no seu tempo livre você faz questão de não entrar no MSN pra conversar com seus amigos. >/

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