Portas da percepção

Se as portas da percepção estivessem limpas, tudo pareceria como é, infinito

William Blake

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Nesta semana, uma amiga perguntou o que significava a medalha que eu estava usando. Era uma pergunta banal, que ocorre naquelas horas quando o assunto está morno, mas foi o suficiente para me deixar sem palavras. Em que sentido ela queria saber? Havia tantos!

Esta era uma possível resposta: eu uso esta jóia desde os 13 anos, quando minha madrinha me presenteou pelo crisma que eu acabara de receber. Mas, na verdade, eu usava uma cópia desde os 11 anos. Era uma bijuteria que também fora dada por minha madrinha. Na época, eu passei a usá-la diariamente, porque me disseram que eu estaria protegida contra todos os perigos – uma criança que está começando a andar pela cidade sozinha tem medo de muitas coisas, sabem como é. E não tirei desde então. Nos vários anos que se passaram, tive intenção de ser freira, quis ser esposa dedicada, tentei ser revolucionária solteira, me apaixonei, vi que minha antiga religião tinha bases fracas, mas mantive os dogmas que eu achava justo e, no fundo, ainda procuro um deus patriarca. A única coisa que permaneceu intacta foi a medalha.

Não foi o que respondi.

Também poderia ser mais objetiva explicando os símbolos expressos na medalha. Ah, sim, como poderia esquecer de mencionar? Trata-se da Medalha de São Bento, o patriarca do Monaquismo Ocidental. Mas na hora eu nem tinha essa resposta na ponta da língua, isso eu pesquisei agora. Eu sabia o básico desse monge pioneiro (e revolucionário?), mas, com pesquisa feita (e não foi na Wikipedia, hein), posso contar a história com mais propriedade. Mesmo para quem não é católico, acho um conhecimento (ou informação?) válido.

Quando deram o título de patriarca do Monaquismo Ocidental a São Bento, não significava que ele fosse o seu fundador. Esse estilo de vida (?) de retiro para o encontro com Deus, na verdade, teve origem três séculos antes no Egito, na Palestina e na Ásia Menor. O mérito de nosso herói (?)foi “ter posto ordem na casa”. Os monges até então ficavam lá nas montanhas de boa, sem trabalhar, explorando servidão alheia e, não duvido – embora os sites religiosos não contêm isto –, também devia rolar muita orgia, vinhada e baseado.

A única obra escrita por São Bento são as Regras. Há o texto integral na internet. Dei uma olhada e, num primeiro momento, me decepcionei com seu conteúdo. Não é nenhum tratado filosófico sobre espiritualidade, mas um manual (é este mesmo o termo mais apropriado) detalhando as condições em que os monges deveriam viver. Além de trazer os princípios básicos (castidade, humildade, pobreza...), a maior parte dedica-se a coisas bem cotidianas, por exemplo: como celebrar os salmos, como fazer uma vigília, como dormir, quanto e que horas comer, e por aí vai. A quem interessar, segue o link: http://www.osb.org.br/regra.html

Só depois eu me dei conta de que esse fato vinha totalmente ao encontro da imagem que eu tinha de São Bento: o homem que busca pureza espiritual, mas sem ignorar a importância do trabalho braçal. Ele também tinha seus estudos eruditos, mas o doutrina de servir mostra-se predominante – e também é minha favorita. Eu adoraria jogar isso na cara daqueles religiosos acomodados e presunçosos, que se sentem mais santos do que a gente que prefere acordar cedo para ir à banca em de vez de à missa. Pena que não tenho coragem.

Antes de continuar, um parêntese: quando digo santo, é seguindo a nomenclatura dada pela Igreja Católica, mas pouco me importaria se São Bento não fosse virgem e nem rezasse 23 horas por dia, só me interessa a figura de um homem que tentou ser bom. Quando eu era jovem e ingênua, achava que as pessoas só pecavam por desconhecimento ou por preguiça. Hoje sei que muitas vezes sentimos uma vontade irresistível de fazer o mal. E fazemos.

De volta à vida do nosso personagem. Não se sabe ao certo a data de nascimento e de morte, mas como um dia chutaram que fosse 480 e 547, respectivamente, e todo mundo passou a reproduzir isso, adotemos também esse consenso histórico. Seu biógrafo foi São Gregório Magno, papa de 590 a 604. Nos próximos três parágrafos, leiam um breve resumo da vida do santo, que eu copiei de um texto do abade Jerome Theisen. Não agüentei e pus uns comentários entre parênteses.

“Bento e sua irmã gêmea, Escolástica, nasceram em Núrsia, um vilarejo no alto das montanhas, a nordeste de Roma. Seus pais o mandaram para Roma a fim de estudar, mas ele achou a vida da cidade eterna degenerada demais para o seu gosto. Por conseguinte, fugiu para um lugar a sudeste de Roma, chamado Subiaco, onde morou como eremita por três anos, com o apoio do monge Romano.

Foi então descoberto por um grupo de monges que o incitaram a se tornar o seu líder espiritual. Mas o seu regime logo se tornou excessivo para os monges indolentes, que planejaram então envenená-lo. Gregório narra como Bento escapou ao abençoar o cálice contendo o vinho envenenado, que se quebrou em inúmeros pedaços. Depois disso, preferiu se afastar dos monges indisciplinados. (Esse é um dos episódios mais célebres.)

São Bento estabeleceu doze mosteiros com doze monges cada, na região ao sul de Roma. Mais tarde, talvez em 529, mudou-se para Monte Cassino, 130 km a sudeste de Roma; ali destruiu o templo pagão dedicado a Apolo (Que grande ato de nobreza! Justo o pior lado de Bento tem gente que venera como se fosse algo positivo...) e construiu seu primeiro mosteiro. Também ali escreveu sua Regra para o Mosteiro do Monte Cassino, já prevendo que ela poderia ser usada em outros lugares.”

Agora que vocês têm ao menos uma vaga noção do que São Bento fez, passemos à medalha em si – que volta enorme! Vejam a foto das duas faces, primeiro a frente, depois as costas.


Como explicita o site do Mosteiro de São Bento no Rio de Janeiro, “a medalha não age automaticamente contra as adversidades, como se fosse um talismã ou vara mágica”. Isso eu pensava quando era criança, mas, felizmente, amadureci. O texto continua contradizendo a si mesmo: “a medalha concede, também, graças especiais para hora da morte, pois, São Bento com São José são padroeiros da boa morte”. Essa é nova para mim, eu não sabia que, usando a medalha, vou ter uma boa morte. Viu, morram de inveja, porque eu é que vou morrer com estilo. Brincadeiras à parte, já que esse não é meu forte, saibam que existem significados para essas letras e figuras, mas é fácil encontrar tal informação na web, e, como já me alonguei muito, vou deixar essa parte de lado.

Bem, de volta ao meu conflito inicial, também não foi isto, a “verdade histórica”, que eu respondi à minha amiga.

Na hora, disse-lhe que São Bento, para mim, era um símbolo de trabalho e de espiritualidade e que eu usava a medalha para nunca me esquecer da importância desses valores. Depois disso, achei que fui simplista demais em relação a algo que tinha tanta grandeza para mim. Me arrependi de não ter elaborado melhor as frases. Mas agora, revendo as diversas verdades em torno dessa questão, vejo que eu intuitivamente optei pela que se aproximava mais do meu espírito. Fazer se a minha essência é assim fácil? O resto é maquiagem.

E essa foi a minha história - o mau escritor sempre precisa explicitar que a narrativa chegou ao fim. Se um dia me perguntarem sobre o escapulário que eu também sempre uso, lá irão outras duas páginas de Word. Portanto, melhor guardar a curiosidade ou não simular que ela existe.

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