É melhor se alegre que ser triste...


Estou apaixonada pelo Brasil.

É, eu admito assim na telha, sem vergonha mesmo. Isso já vem de um tempo para cá, quando me toquei de que lia muita literatura estrangeira e pouca nacional. Resolvi então voltar a cabeça para a terrinha e, para isso, contei com o grande apoio da Folha de S. Paulo que na época lançou uma coleção de clássicos da literatura brasileira. Foi assim que preenchi algumas lacunas, li Vida e morte severina, Memorial de Maria Moura, Vestido de noiva, entre outros. Meu deus, como pude ignorar essas obras-primas por tanto tempo? Culpa de HP e cia, que inebriaram meus sentidos inexperientes, mas felizmente a adolescência acabou!

Outro fato a que devo agradecer é a quebra de um mito que eu construí na infância: que adulto não precisa/consegue aprender mais nada. Mentira. Vivo agora uma fase de plena formação cultural, e meu dominical companheiro de papel continua me dando lições generosas. Além de me resgatar para os bons livros tupiniquins, presenteou os meus ouvidos com a coleção de bossa nova lançada há oito dias.

Eu já conhecia algumas músicas desse estilo. Quem nunca ouviu Chega de saudade e Wave, ambas apresentadas para a minha geração em trilhas sonoras de novelas? O mérito dessa coleção não foi o de me iniciar na bossa nova, afinal eu já a conhecia e até cantarolava junto (por incapacidade de ficar muito tempo quieta). Sei lá que crack aconteceu na minha cabeça, mas a minha relação com esses sambas mudou. Hoje, quando ouço as músicas mencionadas acima e outras que vim a conhecer (Eu não existo sem você, Lígia, Paisagem...), fico ridiculamente emocionada, naquele estágio de quase-chorar, sabem? Às vezes não consigo cantarolar mais. Outras, quando consigo, gosto de pensar que estou fazendo um dueto, vivendo aquele momento junto com o Vinícius, por exemplo. Eu disse que era um sentimento ridículo.

Só que a vida sabe ser cruel. Sábado fiquei um tanto abalada com a morte de Dorival Caymmi. Por que fui voltar às boas relações com o Brasil justo agora? Se pudesse escolher, preferiria não partilhar dessa dor nacional. Egoísta, resolvi não pensar mais no assunto e continuar me preocupando com meus próprios problemas. Ontem, porém, a Folha teve a capacidade de me apunhalar pelas costas: publicou na Ilustrada duas matérias em homenagem ao compositor. Aquilo foi a gota final, não pude mais segurar o choro. Se eu fosse uma pessoa um pouco mais sensata, pararia de ver o noticiário nos períodos de TPM, porque não consigo deixar de me envolver. Engraçado como a gente se sente culpada por ter sentimentos humanos...

Ainda sobre Caymmi. Diz o povo que existem três ritmos na Bahia: devagar, muito devagar e Caymmi. Criticar esse modo de vida? Longe disso, invejo tal capacidade de degustar a vida ao máximo, sem estresse, sem imediatismo. Para que fazer algo se não for bom em algum sentido? Vejamos o caso desse baiano. Ele produziu relativamente pouco – cerca de 100 músicas em 60 anos de carreira –, sem se pressionar para lançar um álbum por ano. Para que gravar um disco se não houvesse nada de novo para mostrar? (Heh, pergunte isso às gravadores...) E dizia ser feliz assim, cantando suas músicas baixinho e devagarzinho, curtindo os prazeres mundanos e amando. O que mais ouvi falar nesse fim de semana que foi que Dorival morreu de tristeza, logo após o amor de sua vida ter entrado em coma. Não duvido.

Volto agora para a minha recém despertada brasilidade. Quando olho para trás e vejo que tantos gênios viveram sobre este mesmo solo em que estou agora, me dá um orgulho! Como se eu, pessoa comum e mediana, tivesse alguma participação nisso. Só para citar alguns artistas que eu admiro: Henfil, Rachel de Queiroz, Erico Verissimo, Nelson Rodrigues, Vinícius de Moraes. Me encho ainda mais de alegria ao constatar que não nos prendemos às glórias passadas, pois posso acrescentar à essa lista gente viva: Dalton Trevisan, Carlos Heitor Cony, Ferreira Gullar, João Ubaldo Ribeiro, Marina Colassanti...

Pensar nessas coisas todas me deixa o coração tão leve! Sinto-me um tanto mais perto daqueles mistérios que estão entre o céu e a terra e que escapam à compreensão de nossa vã filosofia...

Comentários

  1. Eu já me desiludi com esse país.

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  2. Chega de saudade...
    A realidade é que:

    só lembro do Daniel e da Laura!
    Maldita novela grudenta!

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  3. Eu já me desiludi com esse país. [2]

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  4. Já ouviu Mônica Salmaso? ela tem uma voz linda e gravou várias músicas do Dorival Caymmi, do Chico Buarque...É bem lindo, acho que você iria gostar.

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  5. porra, suelen!
    dá pra aprovar quase todo mundo, mas o Cony é sacanagem... rá, rá

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