Sonhos de uma noite de verão (reminiscências adolescentes)

Capítulo 1: Canal 13


Estudávamos num colégio onde tudo nos era permitido, exceto vagar por aí, pensar bobagens, chegar atrasado, sair fora da hora, discutir, negar e não obedecer. Os muros eram espessos e altos, pintados num tom de cinza que só pode ter sido invenção humana – nunca vi nada igual brotar no meio do mato. As carteiras cheias de ângulos retos não nos permitiam dormir. Todas as salas eram fechadas e abarrotadas de gente. Pátio não havia.

Um dia, por acaso, quando eu transgredia umas dezenas de regras, encontrei a sala dos professores. Digo “encontrei”, porque ninguém com menos de trinta anos tinha acesso a ela, ou melhor, sequer sabia que ela existia. Pois você não irá acreditar quando lhe contar onde ela ficava. No ginásio de esportes. Sim, nesse ambiente meramente decorativo que só adentramos no primeiro dia de aula. Durante o resto do ano não tínhamos por que ir até lá: as aulas de educação física eram todas teóricas.

O que dizer a respeito da ultra-secreta sala dos professores? Imagine um ginásio de esportes comum, com aquele piso esverdeado homogêneo, as riscas brancas estabelecendo o limite de campo para alguns esportes, dois gols e cestas de basquete sobre eles. Mais ou menos no meio, uma escrivaninha tosca suportava pilhas de papéis e um computador amarelado e barulhento. Ao lado, sobre uma cadeira de imitação de couro preta, uma tevezinha de 14 polegadas ligada no canal 13. Passava algum tipo programa de entretenimento financiado por Edir Macedo. Se Deus permitiu que um cara ficasse rico às custas dEle, esta transmissão deve ser santa demais. Não me agrada. Aperto o botão para trocar de canal.

Mas o outro canal é o mesmo.

E o outro também.

Santo Deus, que agonia! Uma ansiedade, misto de surpresa e medo, foi-me invadindo. Culminou quando o professor M. me pegou em delito. Ele era ruim. Muito ruim.

“Eu tava só usando o MSN”, justifiquei aproximando-me do computador.

“Não! Você tava assistindo à TV. Eu vi!”

“Deixe-me usar o computador só mais um pouquinho...”

Aproximei-me da máquina e tentei digitar qualquer coisa, embora as teclas altas e duras emperrassem o tempo todo. Um fogo subiu por minhas faces. Eu temia o provável castigo físico. Parecia que o mundo todo estava sobre minha cabeça, tão pesado. E não é que estava mesmo?

Olhei para cima. Creia-me: lá havia várias casinhas de pedra invertidas. Uma em especial era grande e sólida, feito um castelo. Esta seria linda se não estivesse pressionando a minha atmosfera e pesando horrores.

Senti que aquela era uma situação-limite. Não poderia fazer nada para consertá-la, nem voltar à época quando eu nada sabia e tudo ia bem. Assim, ainda lutando com o teclado, mandei uma última mensagem por MSN e saí correndo.

**

Desculpem, mas continuo semana que vem. Agora me sinto muito cansada.

**

Para acabar – mesmo.

Ontem à noite, li um livro de contos de Guy de Maupassant (Contos fantásticos: O Horla e outras histórias. Ed. L&PM Pocket). Não tenho este costume, mas, não sei por que, justo no conto O medo, quis ler em voz alta. Foi assustador, uma experiência única. Para quem tiver coragem, sugiro o mesmo. Eis sua versão digital:

http://www.gargantadaserpente.com/coral/contos/gm_medo.shtml

Comentários

  1. Anônimo1/1/08 15:08

    Feliz Ano Novo,Su \o

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  2. Su, eu falei para você não exagerar na bebida...
    Mas tudo bem... Continua que está bonito!

    Quanto a ler em voz alta... Bom, o Lucas me proibiu de fazer isso de novo...

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  3. Su!!!
    Eu li "E o Vento Levou"... Amei!!!
    Saudades...

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