Histórias para ex-criancinhas
Estou lendo um livro maravilhoso chamado 103 Contos de Fadas, de Angela Carter. É um compilado de histórias de várias nacionalidades que têm em comum o anonimato do autor (ou autores) e a fantasia. Os estilos variam bastante, mas os temas nem tanto (basicamente família, casamento, fortuna etc).
Quando comprei essa antologia, pensei que teria um reencontro com a minha infância, pois me lembro nitidamente de ter possuído um belo encadernado de fábulas que eu tanto amava. Nele, havia histórias de princesas e bichos falantes. Um encanto sem fim! Pena que, em algum ponto da minha vida, ele sumiu e eu não me dei conta até recentemente, quando já era tarde demais.
Ao topar com este belo volume de 500 páginas, papel amarelado (olhem que nome sedutor: pólen soft), bordas verde-limão e a capa listrada verde e preta, criei todo um universo de expectativas. Acima de tudo esperava reaver a candura que tive sem saber e perdi quando soube que a tinha. Mas não foi nada disso. Como descreveu o Observer, “[é] uma seleção mundial de histórias [para adultos] brutais e divertidas”. Um excelente trabalho, sem dúvida, só que completamente diferente do que eu imaginava.
Aprendi logo na introdução, escrita pela própria Carter, que os contos de fadas não são necessariamente histórias sobre fadas e, a princípio, nem foram feitas para crianças. São fruto da imaginação popular, que representava ao seu modo uma vida que nunca teriam, isto é, uma existência repleta de milagres e riquezas. À imagem de seus autores, essas histórias não poderiam ser ingênuas, delicadas e glamourosas; são, isso sim, brutas e dotadas de um tipo de humor bem peculiar.
Então, como crianças da minha geração e de muitas anteriores cresceram com uma visão tão inocente a respeito desses contos? Bem, segundo a autora, eles foram reescritos por escritores burgueses (como não mencionar os irmãos Grimm?) que lhe atribuíram mais “elegância”. No decorrer da História, fatos foram suprimidos (como obscenidades e crueldades) e outros inseridos. O produto final foi uma obra mais amena, assinada (o povo, verdadeiro autor, certamente não ganhou seus direitos autorais) e pronta para ser consumida por todo tipo de leitor sem feri-lo moralmente.
Essa coletânea lançada recentemente pela Companhia das Letras tem o mérito de tentar resgatar a aura que essas histórias tinham na época em que foram concebidas. Mas, apesar de toda a propaganda que fiz, não me venham pedir o livro emprestado. Isso está fora de cogitação, por isso, vão comprar o seu!
Copiarei a seguir dois contos curtos que me chamaram a atenção pelo tema sexual. É, eu nunca imaginei que leria algo assim sob a classificação “conto de fadas”...
**
O rapaz feito de gordura
Era uma vez uma jovem cujo namorado se afogara no mar. Os pais dela não puderam fazer para consolá-la. Ela não se interessava por nenhum dos outros pretendentes: queria o jovem que se afogara, e ninguém mais. Finalmente ela pegou um grande naco de gordura de baleia e entalhou na forma do seu namorado afogado. Ficou uma imagem perfeitamente igual.
“Ah, se ao menos fosse de verdade!”, pensou.
Ela esfregou tanto o pedaço de gordura na sua genitália que de repente ele ganhou vida. Seu belo namorado estava diante dela. Ela não cabia em si de contente! Ela o apresentou a seus pais, dizendo-lhes:
“Como vocês estão vendo, afinal de contas ele não se afogou...”
O pai da jovem lhe deu permissão para casar. Então ela foi com o rapaz de gordura para um pequena cabana que ficava fora da aldeia. Às vezes ficava muito quente dentro da cabana. O rapaz de gordura começava a ficar muito aborrecido, então dizia: “Esfregue-me, querida”. E a jovem esfregava todo o corpo dele na sua genitália. Isso o reanimava.
Um dia o rapaz de gordura estava caçando focas e o sol o castigava duramente. Ao remar no seu caiaque de volta para casa, começou a suar. E enquanto suava, ia ficando menor. Metade dele já tinha derretido quando ele chegou à costa. Então desembarcou do caiaque, caiu no chão, um mero monte de gordura.
“Que pena”, os pais da jovem disseram. “Ele era um jovem tão amável...”
A jovem enterrou o rapaz de gordura sob uma pilha de pedras. Então começou a pranteá-lo. Ela arrolhou a sua narina esquerda. Parou de costurar. Não comia nem os ovos de pássaros marinhos nem carne de morsa. Todo dia visitava a gordura na sua cova, conversava com ela e, enquanto o fazia, andava em volta da cova três vezes, em direção ao sol.
Depois do período de luto, a jovem pegou outro pedaço de gordura de baleia e começou a entalhar novamente. Novamente entalhou a gordura na forma do seu namorado e novamente esfregou o produto final na sua genitália. De repente, lá estava o namorado diante dela, dizendo: “Esfregue-me novamente, querida...”.
**
A mulher que se casou com a esposa do filho
Houve uma vez uma velha que desejou a bela e jovem esposa do filho. O filho era um caçador que em certas ocasiões passava muitos dias fora. Certa vez, quando ele estava fora, com osso de foca e peles a velha fez para si um pênis. Ela amarrou o pênis na cintura e o mostrou à nora, que exclamou: “Que lindo...”. Então dormiram juntas. Logo a velha passou a sair para caçar num grande caiaque de pele, tal como seu filho. Quando ela voltava, tirava a roupa e sacudia os seios para cima e para baixo, dizendo: “Durma comigo, minha mulherzinha. Durma comigo...”.
Acontece que o filho voltou da caça e viu as focas da sua mãe na frente da casa. “De quem são essas focas?”, perguntou à esposa.
“Não é da sua conta”, ela respondeu.
Desconfiando dela, ele cavou um buraco debaixo da casa e se escondeu dentro dele. Imaginou que algum caçador estava assediando sua mulher durante a sua ausência. Logo, porém, viu a mãe remando para casa no seu caiaque com uma grande foca. A mãe e o filho só pegavam focas grandes. A velha desceu para a terra, tirou as roupas e sacudiu os seios dizendo: “Minha doce mulherzinha, cate-me os piolhos...”.
O filho não gostou nem um pouco do comportamento da mãe. Saiu do esconderijo e deu um golpe tão forte na mãe que a matou. “Agora”, disse à esposa, “você tem que ir embora comigo, porque a nossa casa está amaldiçoada”.
A mulher começou a tremer e a se sacudir. “Você matou o meu querido marido”, ela gritou. E chorava a mais não poder.
Quando comprei essa antologia, pensei que teria um reencontro com a minha infância, pois me lembro nitidamente de ter possuído um belo encadernado de fábulas que eu tanto amava. Nele, havia histórias de princesas e bichos falantes. Um encanto sem fim! Pena que, em algum ponto da minha vida, ele sumiu e eu não me dei conta até recentemente, quando já era tarde demais.
Ao topar com este belo volume de 500 páginas, papel amarelado (olhem que nome sedutor: pólen soft), bordas verde-limão e a capa listrada verde e preta, criei todo um universo de expectativas. Acima de tudo esperava reaver a candura que tive sem saber e perdi quando soube que a tinha. Mas não foi nada disso. Como descreveu o Observer, “[é] uma seleção mundial de histórias [para adultos] brutais e divertidas”. Um excelente trabalho, sem dúvida, só que completamente diferente do que eu imaginava.
Aprendi logo na introdução, escrita pela própria Carter, que os contos de fadas não são necessariamente histórias sobre fadas e, a princípio, nem foram feitas para crianças. São fruto da imaginação popular, que representava ao seu modo uma vida que nunca teriam, isto é, uma existência repleta de milagres e riquezas. À imagem de seus autores, essas histórias não poderiam ser ingênuas, delicadas e glamourosas; são, isso sim, brutas e dotadas de um tipo de humor bem peculiar.
Então, como crianças da minha geração e de muitas anteriores cresceram com uma visão tão inocente a respeito desses contos? Bem, segundo a autora, eles foram reescritos por escritores burgueses (como não mencionar os irmãos Grimm?) que lhe atribuíram mais “elegância”. No decorrer da História, fatos foram suprimidos (como obscenidades e crueldades) e outros inseridos. O produto final foi uma obra mais amena, assinada (o povo, verdadeiro autor, certamente não ganhou seus direitos autorais) e pronta para ser consumida por todo tipo de leitor sem feri-lo moralmente.
Essa coletânea lançada recentemente pela Companhia das Letras tem o mérito de tentar resgatar a aura que essas histórias tinham na época em que foram concebidas. Mas, apesar de toda a propaganda que fiz, não me venham pedir o livro emprestado. Isso está fora de cogitação, por isso, vão comprar o seu!
Copiarei a seguir dois contos curtos que me chamaram a atenção pelo tema sexual. É, eu nunca imaginei que leria algo assim sob a classificação “conto de fadas”...
**
O rapaz feito de gordura
Era uma vez uma jovem cujo namorado se afogara no mar. Os pais dela não puderam fazer para consolá-la. Ela não se interessava por nenhum dos outros pretendentes: queria o jovem que se afogara, e ninguém mais. Finalmente ela pegou um grande naco de gordura de baleia e entalhou na forma do seu namorado afogado. Ficou uma imagem perfeitamente igual.
“Ah, se ao menos fosse de verdade!”, pensou.
Ela esfregou tanto o pedaço de gordura na sua genitália que de repente ele ganhou vida. Seu belo namorado estava diante dela. Ela não cabia em si de contente! Ela o apresentou a seus pais, dizendo-lhes:
“Como vocês estão vendo, afinal de contas ele não se afogou...”
O pai da jovem lhe deu permissão para casar. Então ela foi com o rapaz de gordura para um pequena cabana que ficava fora da aldeia. Às vezes ficava muito quente dentro da cabana. O rapaz de gordura começava a ficar muito aborrecido, então dizia: “Esfregue-me, querida”. E a jovem esfregava todo o corpo dele na sua genitália. Isso o reanimava.
Um dia o rapaz de gordura estava caçando focas e o sol o castigava duramente. Ao remar no seu caiaque de volta para casa, começou a suar. E enquanto suava, ia ficando menor. Metade dele já tinha derretido quando ele chegou à costa. Então desembarcou do caiaque, caiu no chão, um mero monte de gordura.
“Que pena”, os pais da jovem disseram. “Ele era um jovem tão amável...”
A jovem enterrou o rapaz de gordura sob uma pilha de pedras. Então começou a pranteá-lo. Ela arrolhou a sua narina esquerda. Parou de costurar. Não comia nem os ovos de pássaros marinhos nem carne de morsa. Todo dia visitava a gordura na sua cova, conversava com ela e, enquanto o fazia, andava em volta da cova três vezes, em direção ao sol.
Depois do período de luto, a jovem pegou outro pedaço de gordura de baleia e começou a entalhar novamente. Novamente entalhou a gordura na forma do seu namorado e novamente esfregou o produto final na sua genitália. De repente, lá estava o namorado diante dela, dizendo: “Esfregue-me novamente, querida...”.
**
A mulher que se casou com a esposa do filho
Houve uma vez uma velha que desejou a bela e jovem esposa do filho. O filho era um caçador que em certas ocasiões passava muitos dias fora. Certa vez, quando ele estava fora, com osso de foca e peles a velha fez para si um pênis. Ela amarrou o pênis na cintura e o mostrou à nora, que exclamou: “Que lindo...”. Então dormiram juntas. Logo a velha passou a sair para caçar num grande caiaque de pele, tal como seu filho. Quando ela voltava, tirava a roupa e sacudia os seios para cima e para baixo, dizendo: “Durma comigo, minha mulherzinha. Durma comigo...”.
Acontece que o filho voltou da caça e viu as focas da sua mãe na frente da casa. “De quem são essas focas?”, perguntou à esposa.
“Não é da sua conta”, ela respondeu.
Desconfiando dela, ele cavou um buraco debaixo da casa e se escondeu dentro dele. Imaginou que algum caçador estava assediando sua mulher durante a sua ausência. Logo, porém, viu a mãe remando para casa no seu caiaque com uma grande foca. A mãe e o filho só pegavam focas grandes. A velha desceu para a terra, tirou as roupas e sacudiu os seios dizendo: “Minha doce mulherzinha, cate-me os piolhos...”.
O filho não gostou nem um pouco do comportamento da mãe. Saiu do esconderijo e deu um golpe tão forte na mãe que a matou. “Agora”, disse à esposa, “você tem que ir embora comigo, porque a nossa casa está amaldiçoada”.
A mulher começou a tremer e a se sacudir. “Você matou o meu querido marido”, ela gritou. E chorava a mais não poder.
Eu adoro contos de fadas e as pessoas não muito legais que os habitam! Por isso, quando eu ficar bem velhinha eu adoraria ser a Baba Yaga, a de pernas ossudas! Pena que eu não tenho duas irmãs ou pernas tão compridas...
ResponderExcluirBem, a Baba Yaga não foi muito bem sucedida na história que essa coletânea trouxe sobre ela. Não conseguiu tirar nenhuma casquinha (literalmente) da sua vítima! Gostei muito mais da madrasta que cozinhou o enteado e ainda serviu como ensopado para o marido comer. Isso que é estilo!
ResponderExcluirO.O
ResponderExcluirA Baba Yaga se dá bem na história da Branca de Neve!
ResponderExcluir