Súmula dos fracassos literários

Aos 9 anos, publiquei uma ficção científica moralista com o título de "Aventuras intergalácticas". Mesmo não sabendo pronunciá-lo direito, insisti no nome. Eu era ambiciosa, só queria o que não tinha, porque eu não tinha mesmo nada.

Aos 12, comecei a escrever um livro de fantasia meio gótico chamado “Ilusões e fanatismo”.

Aos 16, um de poesia sem título que tinha a ver com o esfacelamento da tradição, em ambos os sentidos: a tradição que oprime o sujeito e a tradição já quase desaparecida.

Aos 23, trabalhei por uma ou duas páginas na sátira social “Ser romântico no século XXI”, um olhar irônico sobre o meu primeiro livro de adolescência e as ciladas amorosas que haviam me roubado da literatura nos últimos anos.

Aos 25, achei que estava madura o suficiente para escrever um romance intitulado “Elegia da gente viva”. O fato de ser um livro pós-moderno indicava que eu definitivamente não estava. Esse último foi o que consegui levar mais adiante, até hoje não o assumi como mais um sonho abandonado, está lá, work in progress.

A verdade é que não concluí nenhum desses livros, só o primeiro, aos 9 anos de idade, quando eu não tinha nem sabia nada. Às vezes me vem a ideia de um projeto novo, e eu volto a ficar empolgada, ou melhor, obsessiva. Por alguns dias ou semanas, aquilo se torna o centro da minha vida, até que a coisa vai se consumindo no próprio ato de planejar.

Para adiar mais um pouco a escrita, que costuma ser dolorosa, o espelho mais cruel que existe, pego o celular, só para conferir as horas ou a previsão do tempo, e lá se vai o ímpeto de criar. Quando levanto os olhos da tela, não sei o que eu tinha que fazer, nem mesmo o que estou sentindo, esqueci tudo. Então agarro de novo o aparelho para ver se ele me responde o que era, porém nada ali diz respeito a mim, fico soterrada sob as demandas do mundo, uma sensação genérica de “está tudo errado”, nenhuma palavra a respeito de “literatura”. Ou posso considerar os anúncios de livros? Promoções excelentes de livros dos quais enjoo antes mesmo de serem entregues em casa e que logo ficam atirados pela casa, ainda no plástico, estorvando nos dias de faxina.

Agora eu comecei a trancar o celular, esse Gremlin do século XXI, na gaveta. Ele fica lá inofensivo a maior parte do dia, desligado, mas daí não sei o que fazer com as mãos. Vou para cima da minha cachorra e passo um tempão alisando seu pelo. Com isso, ela está se tornando um bicho muito mimado, agora deu para exigir carinhos até de madrugada. Tudo bem, o meu sono nesses últimos meses também não tem sido dos melhores. Eu já estava acordada mesmo, não custa nada.

Basicamente, é por isto que meu currículo é tão magro. Muito tempo querendo ser -- “quando eu for”. Um dia, acordei e percebi que não poderia mais contar com o futuro, eu tinha 30 anos, não me sentia mais tão jovem -- “é necessário que eu seja”. Suspeito de que agora nem o presente me cabe, e a vida desemboca num eterno recordar -- “se eu tivesse sido”. (Isso daria uma aula "ok" sobre modo subjuntivo, apesar do tom meio deprimente. Se eu estivesse empregada, até poderia incluir essa ideia nos meus planos de aula caso nada melhor me ocorresse.)

Não sei se pensei isto sozinha ou se estou copiando uma frase que esqueci de ter lido ou ouvido: se quer manter algo em segredo, publique em forma de livro, ninguém lerá. Método infalível.

Dava muito dó dos meus pais cada vez que eu aparecia com uma nova publicação minha, então simplesmente parei de avisá-los, só faço de conta que nada aconteceu. Era triste demais, de partir o coração, vê-los folhear o tal livro, parar num poema qualquer, ficar contabilizando mentalmente quanto tempo seria necessário para parecer que leram e, por fim, dizer: “muito complexo, filha, alto nível, parabéns”. Eu não preciso mais dessas provas de amor, agora é minha vez de lhes retribuir. Sempre que posso, levo queijo ou doce artesanal. Não nos enganemos, embora a literatura mineira seja proeminente, não foi ela que tornou Minas Gerais um estado tão querido. Já fui xingada por chegar ao Paraná sem doce de leite.

**

Escrevi essas reflexões no ano passado, quando eu tentava desencavar algum assunto para um conto -- só encontrei eu-eu-eu.

Tive muitos projetos de livros fracassados, como podem ver. Esses dias atrás, retornando ao blog, percebi que esta obra (pretensiosa demais?) é meu projeto mais bem-sucedido. Então, pensei em postar aqui, feito folhetim, o meu romance ainda-não-mas-quase abandonado. Quem sabe assim eu me motive a retomá-lo e concluí-lo? O que acham da ideia? Vocês o lerão? O projeto inicial prevê 121 microcapítulos, metade já está escrita. Se eu postar dois por semana, terei 30 semanas para tomar coragem e escrever o falta.

Se houver quem leia, escreverei por você.

Comentários

  1. Vai ser uma volta ao folhetim.

    Publique e será lida, nem que for para ser criticada. Ou para ganhar views, já quem hoje se critica sem ler.

    E cadê o Aventuras intergalácticas? Gostaria de ler, mas sem uma nova edição. Queria ver como você aos 9 era.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ah, e concordo com quem te xingou. Voltar sem um doce de leite ou queijinho é indesculpável.

      Excluir
    2. 1. Obrigada pelo incentivo. Estou ainda considerando a possibilidade...
      2. Não tenho nenhum exemplar de Aventuras intergalácticas comigo, mas, se não foi desviado, consta na Biblioteca Municipal de Maringá, seção infantil.
      3. Td mundo quer doce ou queijo de Minas, mas, com o limite de peso e tamanho da bagagem de mão em aviões, fica difícil atender tantos pedidos...

      Excluir
    3. Vai ser muito difícil eu ir a biblioteca de maringá. Faz anos que eu só vejo maringá pelo aeroporto.

      Excluir
  2. Cara, eu tava adorando a elegia da gente viva.. espero a continuação !

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É a CapetANA?
      Ainda não escrevi nada de novo em relação ao que você leu. Um dia vou retomar. Por enquanto, vou levando a carreia de escritora para público infantil e teseadora para público nenhum.

      Excluir

Postar um comentário