Como me tornei elitista

A partir da polêmica que meu artigo “Antiantielitismo” provocou recentemente (leiam o texto original aqui), gostaria de, neste post, pôr mais lenha na fogueira.

Quanto às acusações de ser elitista e dos comentários de ódio em geral que recebi, prefiro não responder, porque: a) aceito e até espero que discordem da minha opinião, dado que é só uma opinião e não a verdade absoluta; b) escrevi aquele artigo já com o propósito deliberado de provocar polêmica e estou ciente de que, se eu não mexesse com cachorro grande, ninguém se incomodaria e não estaríamos discutindo esse tema que eu julgo tão importante; c) discursos de ódio costumam se calcar em preconceitos, e quem os pratica não está disposto a escutar argumentos alheios, então não vou gastar meu tempo falando ao vento; d) as ofensas só ofendem quando a gente ama demais o próprio ego; e) se eu tiver que explicar o que quis dizer com o meu texto, isso significa que ele foi um fracasso do ponto de vista da comunicação e é melhor deixarmos que ele seja esquecido.

Agora vamos às provocações extras, porque o debate, quando é fecundo, precisa continuar.

- Abordar obras do cânone literário, o que se convencionou a chamar de “alta cultura”, com estudantes da rede pública é sinônimo de passar por cima da cultura deles?

- Por que ninguém reclama que se ensine “alta cultura” em colégios particulares? Acaso só os alunos de colégios públicos têm uma cultura própria a ser valorizada?

- Não é tão difícil para o adolescente rico quanto para o pobre ler obras complexas? Por só condenamos isso em um dos casos?

- Aliás, que cultura do aluno é essa? O professor, que passou por uma formação acadêmica bastante teórica e até “elitista”, para usar o termo polêmico, está apto para falar em nome do outro?

- Não é papel do professor discutir a multiplicidade? Ou seja, ele não deveria ensinar sobretudo aquilo que o aluno não conhece para que este compare com o que conhece e experimente a diversidade social?

- Como podemos incluir a cultura, ou melhor, as tantas culturas dos alunos às aulas de literatura sem adotar um discurso simplista sobre a identidade do outro?

- Por que se condenam traços “elitistas” num colega de curso, mas os elogiamos nos professores da universidade? Ao fazer isso, nós próprios não estamos sendo conservadores sobre o lugar de determinada cultura?

- Por que ninguém se revolta, com a mesma força, contra as aulas burocráticas e tantas vezes inúteis da licenciatura que não nos dá uma mínima luz de como sermos bons professores?


 São questões difíceis e, se queremos nos formar uma geração de bons professores, deveríamos pensar sobre elas. Se as aulas da licenciatura não nos têm ajudado muito nesse aspecto, por que não fomentamos nós mesmos o debate? De preferência publicamente, para que todos possam se beneficiar, e sem ofender os colegas que pensam diferente da gente.

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