Abortos: Dai as mãos
Tônia se sentia abençoada. Vivia um daqueles raríssimos primeiros encontros sem medo ou mentira – imaculado. Noite quente, conversa farta, as sardinhas dele no nariz, uma vontade de amor incondicional despertada pelo filme do Wes Anderson. Agora caminhavam pelo calçadão vazio, o barulho da bicicleta levada de lado lembrava o do projetor. A menina desempenhava seu papel confiante, relaxou até demais, cedeu ao diabo, agarrou a mão do amigo. Corta! Oh, horror, o que eu fiz, meu Deus? Ela soltou no susto, quis morrer para não ter que explicar. Desculpa, desculpa, sei que é muito cedo, não somos namorados. Tiago ainda riu, disse que dar as mãos não era pecado, mas a infratora assumiu a culpa irredutível, exilou-se em si mesma. O jeitinho bobinho dela o fez sorrir. Se ela não tivesse arrancado os próprios olhos, talvez tivesse notado. Ele quis ampará-la, mais de uma vez procurou a mão dela, que sempre fugia, não precisava da piedade de ninguém. No fim, nem a lua onipresente no céu pôde transformar o constrangimento na intenção de um segundo encontro.
Bem a sua cara, a primeira parte. Ou pelo menos, da ideia que eu faço da sua cara (não a física, obviamente).
ResponderExcluirAdorei mesmo é o nome desse projeto.
Sinto saudades dos seus continhos!
ResponderExcluir