Crime em família - parte 3
Adentrei o ambiente pestilento com a certeza de que, num momento de distração, acabaria tropeçando num cadáver. Para acabar com essa ansiedade, procurei logo a fonte do fedor. Vinha da cozinha.
Graças a Deus, minhas suposições logo se mostraram infundadas. Tudo o que encontrei foram dois caldeirões de feijoada abertos sobre o fogão industrial. Deviam estar lá desde o sumiço de dona Geraldinha e sua família, isto é, cerca de cinco semanas. Imagine só todo aquele feijão fermentando e a carne de porco apodrecendo. Estava explicado o mau cheiro.
Por via de dúvidas, dei uma busca geral por corpos escondidos. Tudo vazio e, à primeira vista, no seu devido lugar. O restaurante parecia pronto para atender os clientes: mesas postas, pilha de pratos e talheres limpos, travessas no buffet. Apenas uma fina camada de poeira e o cheiro, claro, indicavam o abandono do lugar. Pelo visto, naquele dia, eles se prepararam para atender, só que, entre as 10h30 e as 11h30, algum imprevisto aconteceu.
Dei uma última volta pelos cômodos em busca de pistas, afinal, eu mesma já estava começando a ter calafrios naquele lugar, queria mais é me afundar sob os cobertores, em segurança. O bom Deus, então, me deu uma ajudinha revelando-me uma evidência.
Notei um pequeno objeto sob uma das mesas. Hmmm, muito suspeito. Dona Geraldinha era caprichosa demais para deixar qualquer coisa fora do lugar. Quando me abaixei para pegar a coisa, logo percebi o quanto fora imprudente. Era um caco de vidro! E o danado me fez um corte feio.
Pensei comigo. Um caco de vidro não existe sozinho assim no meio do salão de um restaurante. Um dia ele deve ter sido um copo ou um prato. A se eu pudesse acender a luz para ver melhor...
Por que não? Só um minutinho não faria mal. Toda a vizinhança já devia estar no décimo sono. Apertei o interruptor, observando atentamente o entorno. Foram só alguns segundos, não suportava a tensão de agir assim tão imprudentemente.
Felizmente, foram segundos muito produtivos, pude voltar para minha cama com uma informação nova. Eu tinha certeza de que aquele caco um dia fora uma garrafa. E mais, uma garrafa de 290 ml cheia de Coca Cola. Embora o chão estivesse muito limpo, havia na parede uma mancha marrom e, sobre esta, uma procissão de formigas alvoroçadas.
Quem jogaria refrigerante na parede? Ou uma criança muito travessa ou um adulto muito irritado. Imediatamente me lembrei da discussão que ouvira no primeiro dia em que o restaurante não abriu. Parecia a voz de Gisele e seu marido, várias pessoas além de mim tiveram essa mesma impressão.
De fato, fazia todo sentido. A filha de dona Geraldinha era obcecada por Coca – não era à toa que estava uns 20 kg acima do peso ideal –, sempre tinha uma garrafa na mão, já que sua função, ficar sentada ao lado do buffet, permitia esse luxo. Num momento de raiva, atirou o primeiro objeto que encontrou por perto contra o marido. No caso, a garrafinha de vidro. Alguém limpou a bagunça, mas deixou passar aquele caco.
Afinal, por que eles brigavam? Normalmente não era um casal do tipo amoroso, daqueles que beijam e abraçam tanto quanto respiram, mas isso era totalmente compreensível, já que aquele era o ambiente de trabalho deles. Também nunca os vira discutindo. Difícil pensar em motivos para brigarem assim do nada. Traição, TPM, esquecimento do dia do casamento. O que tiraria aquela simpática gordinha da sua usual calma? Preciso pensar em algo coerente. Algo me diz que está aí a resposta do mistério.
Fazia mais de um mês que o restaurante da dona Geraldinha não abria. As pessoas já não comentavam mais o assunto e seguiam, resignadas, direto para o restaurante vizinho. O ambiente lá era bem mais sério. Incrível como um bom tempero deixa o nosso dia feliz! Seja lá quem cometeu esse crime, também é responsável pelo desânimo desse povo, que vai almoçar só por obrigação, não mais por prazer. Eu digo: culpado!
Todos os dias, quando estamos descendo para almoçar – já mencionei que o restaurante se chama “Ex-petynhus”? (coisa brega) –, é inevitável dar uma olhada no nosso antigo ponto de almoço. No fundo, ainda temos uma esperança de passar por lá e o encontrar aberto, com toda a família presente. Eles nos contarão que resolveram sair um tempo de férias, que haviam descansado e dona Geraldinha aprendera novas receitas.
Um dia desses, eu descia sozinha para o restaurante, porque meu velho estava com preguiça de tirar o pijama e me mandara buscar uma marmita para ele, quando tive uma boa surpresa. Não é que havia movimentação no restaurante da dona Geraldinha?
A alegria durou pouco, não se tratava de ninguém familiar. Na verdade, era um homem muito suspeito. Ele tinha uma caixa de ferramentas e estava mexendo na fechadura da porta principal. Parei para observar o que acontecia.
O danado bem que devia estar mal intencionado, porque olhava o tempo todo para os lados e logo me notou ali parada do outro lado da rua. Não me fiz de rogada, continuei encarando. A calçada é pública, oras! Foi ele que não se sentiu confortável com a situação, pegou sua maleta e, mesmo sem terminar o serviço, foi embora.
CONTINUA...
Graças a Deus, minhas suposições logo se mostraram infundadas. Tudo o que encontrei foram dois caldeirões de feijoada abertos sobre o fogão industrial. Deviam estar lá desde o sumiço de dona Geraldinha e sua família, isto é, cerca de cinco semanas. Imagine só todo aquele feijão fermentando e a carne de porco apodrecendo. Estava explicado o mau cheiro.
Por via de dúvidas, dei uma busca geral por corpos escondidos. Tudo vazio e, à primeira vista, no seu devido lugar. O restaurante parecia pronto para atender os clientes: mesas postas, pilha de pratos e talheres limpos, travessas no buffet. Apenas uma fina camada de poeira e o cheiro, claro, indicavam o abandono do lugar. Pelo visto, naquele dia, eles se prepararam para atender, só que, entre as 10h30 e as 11h30, algum imprevisto aconteceu.
Dei uma última volta pelos cômodos em busca de pistas, afinal, eu mesma já estava começando a ter calafrios naquele lugar, queria mais é me afundar sob os cobertores, em segurança. O bom Deus, então, me deu uma ajudinha revelando-me uma evidência.
Notei um pequeno objeto sob uma das mesas. Hmmm, muito suspeito. Dona Geraldinha era caprichosa demais para deixar qualquer coisa fora do lugar. Quando me abaixei para pegar a coisa, logo percebi o quanto fora imprudente. Era um caco de vidro! E o danado me fez um corte feio.
Pensei comigo. Um caco de vidro não existe sozinho assim no meio do salão de um restaurante. Um dia ele deve ter sido um copo ou um prato. A se eu pudesse acender a luz para ver melhor...
Por que não? Só um minutinho não faria mal. Toda a vizinhança já devia estar no décimo sono. Apertei o interruptor, observando atentamente o entorno. Foram só alguns segundos, não suportava a tensão de agir assim tão imprudentemente.
Felizmente, foram segundos muito produtivos, pude voltar para minha cama com uma informação nova. Eu tinha certeza de que aquele caco um dia fora uma garrafa. E mais, uma garrafa de 290 ml cheia de Coca Cola. Embora o chão estivesse muito limpo, havia na parede uma mancha marrom e, sobre esta, uma procissão de formigas alvoroçadas.
Quem jogaria refrigerante na parede? Ou uma criança muito travessa ou um adulto muito irritado. Imediatamente me lembrei da discussão que ouvira no primeiro dia em que o restaurante não abriu. Parecia a voz de Gisele e seu marido, várias pessoas além de mim tiveram essa mesma impressão.
De fato, fazia todo sentido. A filha de dona Geraldinha era obcecada por Coca – não era à toa que estava uns 20 kg acima do peso ideal –, sempre tinha uma garrafa na mão, já que sua função, ficar sentada ao lado do buffet, permitia esse luxo. Num momento de raiva, atirou o primeiro objeto que encontrou por perto contra o marido. No caso, a garrafinha de vidro. Alguém limpou a bagunça, mas deixou passar aquele caco.
Afinal, por que eles brigavam? Normalmente não era um casal do tipo amoroso, daqueles que beijam e abraçam tanto quanto respiram, mas isso era totalmente compreensível, já que aquele era o ambiente de trabalho deles. Também nunca os vira discutindo. Difícil pensar em motivos para brigarem assim do nada. Traição, TPM, esquecimento do dia do casamento. O que tiraria aquela simpática gordinha da sua usual calma? Preciso pensar em algo coerente. Algo me diz que está aí a resposta do mistério.
Fazia mais de um mês que o restaurante da dona Geraldinha não abria. As pessoas já não comentavam mais o assunto e seguiam, resignadas, direto para o restaurante vizinho. O ambiente lá era bem mais sério. Incrível como um bom tempero deixa o nosso dia feliz! Seja lá quem cometeu esse crime, também é responsável pelo desânimo desse povo, que vai almoçar só por obrigação, não mais por prazer. Eu digo: culpado!
Todos os dias, quando estamos descendo para almoçar – já mencionei que o restaurante se chama “Ex-petynhus”? (coisa brega) –, é inevitável dar uma olhada no nosso antigo ponto de almoço. No fundo, ainda temos uma esperança de passar por lá e o encontrar aberto, com toda a família presente. Eles nos contarão que resolveram sair um tempo de férias, que haviam descansado e dona Geraldinha aprendera novas receitas.
Um dia desses, eu descia sozinha para o restaurante, porque meu velho estava com preguiça de tirar o pijama e me mandara buscar uma marmita para ele, quando tive uma boa surpresa. Não é que havia movimentação no restaurante da dona Geraldinha?
A alegria durou pouco, não se tratava de ninguém familiar. Na verdade, era um homem muito suspeito. Ele tinha uma caixa de ferramentas e estava mexendo na fechadura da porta principal. Parei para observar o que acontecia.
O danado bem que devia estar mal intencionado, porque olhava o tempo todo para os lados e logo me notou ali parada do outro lado da rua. Não me fiz de rogada, continuei encarando. A calçada é pública, oras! Foi ele que não se sentiu confortável com a situação, pegou sua maleta e, mesmo sem terminar o serviço, foi embora.
CONTINUA...
Hmmm, o que será que quer dizer esse vidrinho ai no chão?
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