Crime em família - parte 2
O obstáculo que me aguarda nesta noite é mais árduo que qualquer mistério que Miss Marple já tenha resolvido. Um desafio quase impossível: colocar este corpo velho e maltratado na cena do crime.
O local não é de tão difícil acesso. Trata-se de uma casa térrea, aproximadamente 100 metros quadrados, cercada por um pequeno quintal e protegida por três muros de dois metros e, na frente da fachada, uma grade de um metro que qualquer criança conseguiria pular. Pena que não seja o meu caso. Levei quase três dias para articular o plano.
Nosso bairro é um dos últimos na cidade que ainda se pode considerar “de família”. Quando o relógio da igreja anuncia as 22 horas, já não há vivalma na rua. Todos em casa, assistindo à sua novela, se preparando para dormir. Isso me tirou um grande problema das costas: entrar sem ser vista. Oras, bastava sair à noite.
Às 21h30, meu velho já roncava alto na poltrona. Sugeri a ele que fosse se deitar na cama, e lá se foi ele, resmungando o quanto eu o tornava infeliz e mandando que lhe levasse uma xícara de chá no quarto. Depois que o pus para dormir, lavei a louça do jantar e ainda esperei uma meia hora por segurança. Eram quase 23 horas, momento de agir.
Tive um frio na barriga de sair naquele breu. A última vez que saí de casa tão tarde da noite foi há uns quinze anos, quando minha filha caçula casou. Desde então, só as novenas na igreja me arrancam de casa após o pôr do sol, mas, no máximo 20 horas, eu já estou de volta. Sabe como é, não gosto de jantar tarde, me dá azia durante o sono. Terrível.
Sorte que o restaurante fica a apenas uma quadra de casa. Não levaria muito tempo para chegar nem acabaria com as minhas costas de carregar aquele peso todo. Equipamento de trabalho: uma escada de mão, daquelas de quatro degraus, e, na sacola de feira, dois travesseiros.
A primeira parte do plano havia sido realizada à tarde com a ajuda do meu neto Gilmar, de sete anos. Os pais falam que o menino é hiperativo, não entendo bem desses termos modernos de psicologia infantil. Para mim, é mais simples dizer que ele é endiabrado ou traquina.
Como boa avó, quis ajudá-lo a extrapolar toda aquela energia sem colocar minha mobília e meus vasos em risco. Que mais poderia fazer? Dei-lhe um estilingue para brincar lá fora. Enquanto passeávamos, ensinei que era feio matar passarinhos e machucar cachorros, mas disse que estava tudo bem treinar uns tiros naquela casa abandonada. “Ninguém mais mora lá, ninguém vai ficar bravo com você”.
Após umas dez pedrinhas, finalmente ele acertou uma das janelas do restaurante. Eita, menino ruim de apontaria. Quase que eu mesma tomei o estilingue para fazer o serviço sujo. Uma vizinha saiu por causa do barulho de janela estilhaçada. Desculpei-me: “Veja só, meu neto não tem jeito mesmo. Esses pais de hoje em dia não sabem dar uma educação rígida como a que a gente recebia no sítio”. Ela concordou, perguntou do meu marido – aquela velha assanhada! – e voltou para dentro.
Encoberta pela escuridão, posicionei a escada encostada na grade da frente e pus os dois travesseiros do lado de dentro. Lá do topo, um metro acima do chão, persignei-me e saltei. A espuma do outro lado não adiantou muita coisa. Doeu demais, nem tenho certeza de ainda estar viva. Se eu me movia, era graças à coragem e a curiosidade. Depois vou ter que ouvir bronca do médico como se ele fosse meu pai: “o que a senhora aprontou dessa vez?”
Puxei a escada para dentro e, desta vez, coloquei-a ao lado da janela quebrada. Felizmente essas casas antigas não têm grades de ferro. Pelo buraco no vidro aberto pelo Gil, passei o braço e abri a janela por dentro, tomando o maior cuidado para não fazer barulho. Quando consegui a abertura máxima, um cheiro insuportável veio de dentro. Meus Deus, só faltava haver gente morta lá dentro. Mais um sinal da cruz, e entrei.
CONTINUA...
O local não é de tão difícil acesso. Trata-se de uma casa térrea, aproximadamente 100 metros quadrados, cercada por um pequeno quintal e protegida por três muros de dois metros e, na frente da fachada, uma grade de um metro que qualquer criança conseguiria pular. Pena que não seja o meu caso. Levei quase três dias para articular o plano.
Nosso bairro é um dos últimos na cidade que ainda se pode considerar “de família”. Quando o relógio da igreja anuncia as 22 horas, já não há vivalma na rua. Todos em casa, assistindo à sua novela, se preparando para dormir. Isso me tirou um grande problema das costas: entrar sem ser vista. Oras, bastava sair à noite.
Às 21h30, meu velho já roncava alto na poltrona. Sugeri a ele que fosse se deitar na cama, e lá se foi ele, resmungando o quanto eu o tornava infeliz e mandando que lhe levasse uma xícara de chá no quarto. Depois que o pus para dormir, lavei a louça do jantar e ainda esperei uma meia hora por segurança. Eram quase 23 horas, momento de agir.
Tive um frio na barriga de sair naquele breu. A última vez que saí de casa tão tarde da noite foi há uns quinze anos, quando minha filha caçula casou. Desde então, só as novenas na igreja me arrancam de casa após o pôr do sol, mas, no máximo 20 horas, eu já estou de volta. Sabe como é, não gosto de jantar tarde, me dá azia durante o sono. Terrível.
Sorte que o restaurante fica a apenas uma quadra de casa. Não levaria muito tempo para chegar nem acabaria com as minhas costas de carregar aquele peso todo. Equipamento de trabalho: uma escada de mão, daquelas de quatro degraus, e, na sacola de feira, dois travesseiros.
A primeira parte do plano havia sido realizada à tarde com a ajuda do meu neto Gilmar, de sete anos. Os pais falam que o menino é hiperativo, não entendo bem desses termos modernos de psicologia infantil. Para mim, é mais simples dizer que ele é endiabrado ou traquina.
Como boa avó, quis ajudá-lo a extrapolar toda aquela energia sem colocar minha mobília e meus vasos em risco. Que mais poderia fazer? Dei-lhe um estilingue para brincar lá fora. Enquanto passeávamos, ensinei que era feio matar passarinhos e machucar cachorros, mas disse que estava tudo bem treinar uns tiros naquela casa abandonada. “Ninguém mais mora lá, ninguém vai ficar bravo com você”.
Após umas dez pedrinhas, finalmente ele acertou uma das janelas do restaurante. Eita, menino ruim de apontaria. Quase que eu mesma tomei o estilingue para fazer o serviço sujo. Uma vizinha saiu por causa do barulho de janela estilhaçada. Desculpei-me: “Veja só, meu neto não tem jeito mesmo. Esses pais de hoje em dia não sabem dar uma educação rígida como a que a gente recebia no sítio”. Ela concordou, perguntou do meu marido – aquela velha assanhada! – e voltou para dentro.
Encoberta pela escuridão, posicionei a escada encostada na grade da frente e pus os dois travesseiros do lado de dentro. Lá do topo, um metro acima do chão, persignei-me e saltei. A espuma do outro lado não adiantou muita coisa. Doeu demais, nem tenho certeza de ainda estar viva. Se eu me movia, era graças à coragem e a curiosidade. Depois vou ter que ouvir bronca do médico como se ele fosse meu pai: “o que a senhora aprontou dessa vez?”
Puxei a escada para dentro e, desta vez, coloquei-a ao lado da janela quebrada. Felizmente essas casas antigas não têm grades de ferro. Pelo buraco no vidro aberto pelo Gil, passei o braço e abri a janela por dentro, tomando o maior cuidado para não fazer barulho. Quando consegui a abertura máxima, um cheiro insuportável veio de dentro. Meus Deus, só faltava haver gente morta lá dentro. Mais um sinal da cruz, e entrei.
CONTINUA...
Hahaha, que velhinha arteira!
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